Dentre os vários adjetivos que Dave the Diver merece, acredito que “inovador” seja um dos mais justos. Desde o seu lançamento, a divertida e curiosa mistura entre exploração do fundo do mar e gerenciamento de um sushi bar tem nos agraciado com DLCs extremamente criativas — como as colaborações gratuitas com Godzilla e Dredge, além do simples, mas muito bem-feito, conteúdo pago baseado em Like a Dragon. Agora, a expansão In the Jungle chega para agregar ainda mais qualidades a esse título tão adorado, trazendo uma nova história recheada de mecânicas e conteúdos inéditos.
A expansão começa imediatamente após os eventos da campanha principal. Após um forte tremor de terra, o Doutor Bacon entra em contato com nosso mergulhador favorito, convidando-o para viajar a uma nova região que também vem testemunhando fenômenos incomuns, os quais estão causando alterações em seu ecossistema. Junto de seus amigos, Dave irá conhecer a pacata Vila de Utara e seus habitantes, enquanto tenta desvendar os mistérios que habitam as profundezas do lago do vilarejo.
Vale a pena mencionar que, mesmo tendo a opção de iniciar um New Game pulando diretamente para a DLC sem ter terminado o jogo base, a experiência é muito mais gratificante após vivenciar as aventuras de Dave e seus amigos pelo Poço Azul. Não só isso, mas além de haver menções sobre detalhes da trama, você também seguirá para a nova área carregando todos os seus upgrades.
O gameplay, em essência, permanece o mesmo, com mergulhos e exploração do lago durante o dia e o gerenciamento do — agora — “Grill do Bancho” à noite. No entanto, as novidades adicionam um grande frescor a esse looping. Diferente do jogo base, onde a passagem do dia era determinada com base nas suas ações, aqui ela acontece em tempo real: durante a manhã e a tarde, você pode escolher entre explorar o lago ou a vila de Utara, enquanto no período noturno cuida do restaurante e também ganha tempo para explorar um pouco mais o vilarejo.
É aí que somos apresentados a uma das ótimas novidades da expansão: o sistema de amizade. Você pode conversar com todos os moradores, descobrir suas preferências e dar presentes que aumentam o seu relacionamento, gerando novas missões secundárias e novos clientes para seu estabelecimento. Além disso, também é possível explorar a vila em busca de materiais e ingredientes. Por diversas vezes, optei por passar o dia cortando árvores, minerando, coletando frutas e caçando insetos em vez de mergulhar. Isso quebra o looping pré-estabelecido pelo jogo base e, como já mencionado, traz aquele ar de novidade tão necessário para esse tipo de conteúdo.
E quando você pensa que o jogo vai cair na mesmice, a genialidade de Dave the Diver ataca novamente quando finalmente partimos para explorar a selva. Devo confessar que, se antes eu já estava achando a DLC muito boa, foi aqui que ela me conquistou por completo. O mapa da selva tem o tamanho ideal, com mais locais de coleta, baús, pontos de pesca e caça e muitos inimigos.
O grande diferencial, porém, está em como enfrentamos esses animais selvagens: aqui, o jogo se transforma em um RPG de turno claramente inspirado em Sea of Stars — inclusive, em uma conversa específica, fica bem claro que ele é o jogo de referência. Temos direito a montar uma party, desferir ataques com inputs de botões para aumentar a eficácia, usar habilidades especiais, buffs, debuffs e até um sistema completo de equipamentos e pratos que podem ser cozinhados nas fogueiras de descanso e salvamento. É admirável o cuidado da equipe e como eles acertaram em cheio na implementação desse sistema, que vem acompanhado de uma dungeon e diversos puzzles para resolver.
Explorar cada canto da Vila de Utara, seu lago e sua selva é extremamente prazeroso graças, em grande parte, ao seu excelente sistema de progressão. No que tange aos mergulhos, a adição da “Arma para a Selva” torna esses momentos muito mais tranquilos ao permitir que um único equipamento possua quatro variações: rifle, escopeta, escopeta de três tiros e lança-redes.
O que antes exigia escolher a arma certa para cada mergulho agora fica muito mais simples, facilitando na hora de realizar várias missões ao mesmo tempo. Ainda é possível fazer melhorias nessa arma e nos demais equipamentos utilizados por Dave, o que, aos poucos, torna a exploração ainda mais fluida — algo que não senti de forma tão acentuada no jogo base. Cumprir as missões secundárias também ajuda a liberar recursos excelentes para facilitar nossa vida como, por exemplo, uma vara de pesca que permite fisgar dois peixes ao mesmo tempo. Por sinal, esse é um recurso que ajuda muito quando precisamos de peixes apenas para servir no restaurante.
Falando um pouco do Grill do Bancho, ele mantém todas as mecânicas vistas no sushi bar original. No entanto, como estamos em uma selva e lidando com espécies de água doce, os pratos aqui servidos são todos grelhados. A variação de receitas é bem grande, e também podemos modificar a aparência do lugar e contratar funcionários. O grande diferencial está em como nos locomovemos pelo espaço, dessa vez com uma perspectiva bem ao estilo Stardew Valley. Além de bebidas e pratos, a clientela agora também pode pedir espetinhos, tornando a organização e a agilidade fundamentais.
Para complementar o pacote, não poderiam faltar os famosos minigames. Sei que é chover no molhado, mas novamente a equipe da Mintrocket mostra que não há limites para a criatividade e para as homenagens a outros clássicos em Dave the Diver. Assim como no jogo base, espere encontrar os mais variados minigames inspirados desde Duck Hunt e Resident Evil 4 até Guitar Hero e Taiko no Tatsujin. Se você, assim como eu, jogou ou ao menos conheceu Cut the Rope no passado, encontrará uma adorável surpresa por aqui.
Com tantas qualidades, fica até difícil enxergar problemas, mas eles existem de forma bem pontual. A nova mecânica de passagem do tempo em tempo real pode incomodar alguns jogadores, pois foge um pouco da premissa mais cozy. Por outro lado, ela funciona como uma barreira saudável para evitar que façamos todas as missões possíveis de uma só vez, exigindo que o jogador decida o que priorizar a cada dia.
Pessoalmente, sempre tive um pouco de dificuldade com as lutas de chefes embaixo d’água, e aqui não foi diferente. Não que elas sejam necessariamente difíceis, mas o combate nesses momentos às vezes pode soar um pouco frustrante. Claro, tudo isso depende da perspectiva de quem joga, sendo incômodo para uns e tranquilo para outros.
In the Jungle traz uma quantidade enorme de conteúdo, superando facilmente as 10 horas de campanha, e mesmo após o término da história ainda restam atividades para realizar. Tudo isso com os belíssimos gráficos em pixel art já conhecidos e uma trilha sonora que merece um destaque à parte. As novas composições combinam perfeitamente com o clima de selva e conseguem ser ainda melhores do que as da campanha principal. Outro ponto que merece ser exaltado é o preço da DLC, custando R$ 31,50 na PlayStation Store brasileira e contando com textos em nosso idioma, provando que é sim possível entregar um conteúdo de imensa qualidade por um valor justo e acessível.
Por fim, se você jogou e gostou de Dave the Diver, essa DLC é indispensável. A história é simples, direta ao ponto e, a meu ver, até mais interessante do que a do jogo base. Além disso, ela conta com novas mecânicas que surpreendem o jogador quando ele menos espera, trazendo um frescor extremamente necessário — principalmente para aqueles que já passaram horas no conteúdo pós-jogo e buscam ainda mais atividades para realizar.
Dave the Diver: In the Jungle está disponível para PS4, PS5, Xbox One, Xbox Series, Switch, Switch 2 e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Mintrocket.








