Análises

Denshattack! – Review

Quem disse que o mundo pós-apocalíptico precisa ser chato, enfadonho e emocionalmente negativo? Afinal, o fim do planeta como o conhecemos pode ser uma grande oportunidade para, quem sabe, transformar linhas férreas em verdadeiros parques de diversões, onde se podem realizar as mais improváveis peripécias a bordo de uma locomotiva customizada.

Para ser sincero, duvido muito que essa tenha sido exatamente a premissa levantada em uma reunião de brainstorming na qual os desenvolvedores da Undercoders discutiam qual seria seu próximo projeto, mas gosto de suspender a descrença por um instante para imaginar que ideias livres como essa ainda podem surgir mesmo diante de um mercado cada vez mais guiado pela necessidade de certezas e avesso a ideias nonsense.

Seja como for, o resultado do processo criativo que gerou Denshattack! entrega um verdadeiro oásis descompromissado com qualquer lógica tradicional, precisando de apenas alguns minutos para conquistar a atenção até mesmo do jogador mais incrédulo. É um jogo com alto potencial de engajamento e que traz aquele perigo de transformar os famosos “só mais cinco minutinhos” em horas madrugada adentro.

O enredo do jogo nos apresenta uma versão bastante castigada, mas ainda assim vibrante, de um Japão distópico que, após uma crise climática sem precedentes, se vê obrigado a confinar a população em grandes domos. A megacorporação Miraidō assume o controle absoluto do país, não apenas administrando esses núcleos populosos conforme seus interesses, como também dominando as conexões entre eles por meio de uma complexa rede ferroviária.

Em um estranho cenário que parece combinar obras como O Expresso do Amanhã e o seriado de TV de Twisted Metal, a trama nos apresenta Emy, uma jovem e imprudente condutora de trens que trabalha como entregadora de rámen, sempre com um sorriso no rosto e um certo desrespeito pelas regras de segurança. Isso a leva ao submundo dos Denshattackers, uma subcultura de foras-da-lei que se aproveitam desses veículos peculiares, em versões envenenadas, para disputas perigosas e cheias de adrenalina.

Encantada pelo aspecto rebelde do movimento, Emy decide se aprofundar em seus conhecimentos e habilidades, usando sua máquina cada vez mais preparada para vencer rivais que encontra pelo caminho, recrutar aliados improváveis e assumir uma causa que nem sabia defender para desafiar aqueles que detêm o poder e, assim, libertar seu país.

Ao longo de uma campanha bastante robusta e surpreendentemente variada, a jornada de Emy nos levará a atravessar o Japão por oito regiões distintas entre si, distribuídas em nada menos que 60 fases que vão desde o interior do país até as planícies de Hokkaido. E, para além dos desafios, há uma série de atividades que conferem não só um respiro diante de tanta ação, como também maior densidade para esse universo curiosamente bem fundamentado, por mais que não seja o plot mais cativante de todos os tempos.

A customização é um dos principais aspectos do equilíbrio da campanha. Mais do que apenas modificar a nossa máquina — ou, como aprendemos mais adiante, adquirir novas locomotivas com características específicas —, esses momentos são espaços onde conhecemos um pouco mais do background dessa história maluca. Tal como em Need for Speed Underground e jogos do gênero, esses espaços contextualizados criam camadas simbólicas que ajudam a estabelecer a protagonista, bem como suas ideias e ideologias diante de aliados e inimigos.

Na prática, são mais de três dezenas de trens diferentes que, por sua vez, podem ser modificados com padrões de pintura, cores, adesivos e características mecânicas, resultando em composições únicas que conferem uma dose de estilo e personalidade à aventura. Isso garante uma adaptabilidade muito bem-vinda ao estilo de pilotagem do jogador, o que permite, inclusive, que retornemos a níveis já vencidos para a melhoria de resultados.

Tudo isso funciona muito bem como o tempero ideal, que, entretanto, de nada serviria se o ingrediente principal fosse fraco, o que felizmente não é o caso. A essência do game está em uma jogabilidade de altíssima precisão que consegue equilibrar a insanidade conceitual com o simples uso de um trem como skate, adicionando à mistura já absurda doses cavalares daquilo que de melhor conhecemos de Tony Hawk’s Pro Skater.

Isso significa que a similaridade está muito além de uma impressão. O arsenal de movimentos aqui é bastante completo e remete diretamente ao tipo de manobra que instintivamente já dominamos, mesmo sem ter colocado os pés em uma prancha com rodinhas na vida. Os saltos simulam ollies simplificados, mas nem por isso os tornam menos desafiadores, possibilitando, a partir daí, grinds absurdos sobre monotrilhos, flips dos mais diversos e todo tipo de combinação entre os movimentos.

Somam-se a tudo isso drifts necessários em curvas fechadas, giros insanos e obstáculos cuja dificuldade e precisão escalonam acentuadamente, resultando em um jogo que exige atenção permanente, ousadia constante e um poder de reação afiado. Sem uma pretensa liberdade de movimentação — andar sobre trilhos quase sempre garante uma linha predefinida, ou algumas poucas possibilidades de caminhos alternativos —, resta ao jogador lidar com o que vem adiante da melhor e mais divertida forma possível.

A diversão é, sobretudo, o grande objetivo aqui. Denshattack! deixa de lado alguns recursos fáceis de punição para, em vez disso, incentivar movimentos cada vez mais corajosos. A menos que haja a possibilidade de descarrilhar ao saltar em curvas, ou em uma das várias situações de queda, não existe outro motivo para não tentar mais uma manobra no ar. Seu trem não vai se despedaçar, por exemplo, se a acrobacia terminar com o veículo caindo de lado, ao contrário do que ocorre em jogos mais convencionais do gênero.

Isso garante mais liberdade de escolha, mas também permite que o jogo cobre um preço mais alto pelas pontuações máximas. Alcançar premiações douradas, por exemplo, requer normalmente uma combinação de velocidade e perícia muito elevadas, ou, caso contrário, algumas runs repetidas em cada fase para garantir que todos os objetivos secundários sejam plenamente alcançados.

Em vez de coletar letras, somos incentivados a caçar latas de tinta espalhadas pelo cenário e pelos caminhos possíveis, que podem ser utilizadas mais adiante como moeda na garagem. Fitas de vídeo e outros colecionáveis também fazem parte das tarefas complementares e garantem um excelente incentivo para retornar ao jogo, mesmo quando já nos damos por satisfeitos com a progressão da trama.

Quando aliadas a batalhas contra chefes cada vez mais inesperadas, todas essas variantes são responsáveis por transformar uma ótima ideia central — usar trens como skates — em um excelente jogo, capaz de sustentar dezenas de horas de dedicação sem cair na mesmice, ou de se esgotar em poucas voltas por um ou dois circuitos, como se o princípio fundamental se bastasse por si só.

Esse cuidado com a obra também pode ser facilmente percebido na concepção artística, que sabe escapar das obviedades de uma estética futurista para entregar um universo dotado de cores vibrantes e altíssimos níveis de contraste e saturação. Esses elementos nos remetem a animes do início dos anos 2000, apropriando-se, inclusive, de onomatopeias e grafismos característicos dessa mídia e de sua base, os mangás.

A modelagem de cenários e protagonistas — e sim, estou falando dos trens, cada vez menos óbvios conforme avançamos — é um espetáculo à parte, que abusa de efeitos e de partículas sem qualquer preocupação com um pretenso realismo para focar na entrega de sensações. Fogo, fumaça, explosões ou neve: tudo parece servir muito mais à urgência da aventura do que necessariamente a uma representação local, o que se torna ainda mais incrível quando, mesmo abusando da velocidade, o título jamais apresenta gargalos de desempenho técnico. Belo e bem otimizado, o jogo é um verdadeiro espetáculo gráfico.

Com traços fortes que intercalam desenhos artesanais com ambientes tridimensionais em cel-shading, Denshattack! conta, portanto, com um dos visuais mais marcantes dos últimos anos. Este visual só não é maior que a excelente e energética trilha sonora que dita o ritmo da ação, amplificando a sensação de urgência. As batidas eletrônicas abusam de sintetizadores e metais, remetendo a uma fusão entre o J-Pop tradicional e um hip-hop bastante peculiar, lembrando jogos urbanos icônicos dos bons tempos do Dreamcast, como Jet Set Radio e Crazy Taxi.

Se já não estiver claro o suficiente, eu realmente fiquei impressionado com um jogo que corria o sério risco de ser apenas mais uma ideia interessante que acaba não gerando um produto completo e satisfatório. Pelo contrário, ele vai muito além disso e aponta para formas muito frescas de aproveitar seu cerne principal sem parecer pesar a mão.

Por mais que possa, em algum momento, perder a sensação de novidade antes do desfecho da longa campanha, o jogo ainda consegue se sustentar, seja pelo desafio crescente que exige cad,a vez mais dedicação do jogador, seja pelo incentivo ao retorno e à busca pela excelência na execução dois pilares fundamentais para garantir que a longevidade da experiência seja orgânica, e não simplesmente uma tarefa cansativa.

Se já merece o reconhecimento pelo mérito de ser um projeto ousado, que foge da segurança conservadora que o mercado mainstream atual parece perseguir, Denshattack! vai muito além ao se provar equilibrado e longevo. O game aproveita muito bem suas características para entregar a solidez de uma jogabilidade precisa e responsiva, um conjunto audiovisual robusto naquilo que propõe e até uma história que, se não é das mais profundas, funciona bem para o propósito de nos dar uma boa desculpa para desafiar o líder da gangue seguinte. Quem diria que, diante de tantas perspectivas preocupantes, essa indústria vital precisava de manobras radicais em trens para ganhar um fôlego novo?

Denshattack! está disponível para PS5, Xbox Series, Switch 2 e PC (via Steam). Esta análise é da versão padrão do PS5 padrão, e foi realizada com um código fornecido pela Fireshine Games.

Veredito

Provando ser mais do que só uma ideia inovadora, Denshattack! consegue unir a criatividade à solidez em um jogo que se apropria de ótimas soluções narrativas e de design para sustentar um sistema de jogabilidade bem estruturado. Por mais que possa parecer maior do que deveria, oferece uma aventura completa e diversificada, garantindo horas de uma boa diversão despreocupada.

90

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