Análises

The Legend of Heroes: Trails beyond the Horizon – Review

Legado. Talvez nenhuma palavra defina tão bem o que é a franquia The Legend of Heroes quanto legado. Afinal, apesar de ter demorado para alcançar os níveis de popularidade que sempre mereceu ter ao redor do planeta, a série, que inicia seu 22° ano em 2026 talvez no ápice de sua popularidade e ao longo de todo esse tempo vem contando uma única mesma história sequencial por todo esse tempo, chega em um ponto da sua cronologia que deve definir como seu legado será lembrado.

É também o verdadeiro magnum opus de Toshihiro Kondo, que, apesar de ter passado a cadeira de Diretor da franquia para Takayuki Kusano, ainda é o grande idealizador da IP que, junto com Ys, são os dois pilares sobre o qual uma das mais importantes desenvolvedoras japonesas foi construída. E, apesar de toda a longa jornada até aqui ter sido recheada de excelentes momentos (com, na minha opinião, só um verdadeiro “ponto fraco”), é fundamental que o caminho até o final seja tão bom quanto. Encerrar uma história tão bela com um gosto amargo definitivamente mancharia esse legado.

É exatamente esse o papel que The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon vem fazer. O 13° jogo da franquia marca não só a 3ª parte do arco de Calvard, mas também o 20° aniversário da série (tendo sido lançado em 2024 no Japão), retornando a uma fórmula que se tornou recorrente desde Cold Steel IV: crossovers.

The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon

Com a promessa de ser o “começo do fim” da história de TLoH, ele traz para o lado do protagonista mais recente, Van Arkride, dois outros heróis em diferentes pontos do espectro de saturação: Rean Schwarzer, do arco de Erebonia que faz a sua 6ª aparição (e a primeira desde Reverie), e Kevim Graham, o há muito desaparecido co-protagonista de Trails in the Sky the 3rd, que faz a sua 4ª aparição na série, mas a primeira em mais de uma década, desaparecido desde Trails to Azure. Porque, como Cold Steel IV e Reverie provaram, quando o mundo parece à beira de um completo colapso, você convoca heróis ultra-poderosos para te ajudar.

Primeiro de tudo, um ponto que precisa ser registrado: Trails Beyond the Horizon é o tipo de jogo que depende muito de conhecimento prévio da franquia. Não só por trabalhar com base nos eventos dos jogos de Calvard, mas por explorar bastante elementos de vários jogos diferentes anteriores, mexendo bastante na lore de Zemuria (e o que há além dele). Vários pontos importantes que haviam sido apresentados anteriormente são explorados por novos ângulos, trazendo uma compreensão distinta sobre as forças por trás do grande plot central da série algo que, considerando onde Horizon leva a franquia, é algo extremamente bem-vindo.

Mas como é a história até chegar lá? Tudo começa com Van, Ferri e Bergard trabalhando em uma nova simulação de combate ultra-realista da Marduk Company. O trio logo descobre que há um outro grupo com o qual estão competindo, o qual vem a ser composto por Rean Schwarzer, sua ex-aluna Altina Orion e Kevim Graham. O objetivo desse treinamento foi unir forças suficientes para combater as maquinações acontecendo em Calvard após o anúncio do governo local do Project Startaker, uma iniciativa para enviar um satélite ao espaço e, supostamente, melhorar a rede orbal e combater questões ambientais, mas cuja missão também envolve descobrir o que há além da barreira que cerca o continente.

The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon

A partir daí, o jogo se divide em três rotas principais. A maior delas é, naturalmente, a de Van, a qual gira em torno do estranho desaparecimento de moradores ao redor de Calvard, notavelmente imigrantes. É durante essa investigação que Van e companhia encontram um dispositivo estranhamente similar ao Genesis criado pelo professor Epstein e cujo uso por forças nefastas é um dos pontos centrais dos acontecimentos em Daybreak II. A equipe decide então investigar o que está acontecendo ao redor de Calvard, especialmente considerando o reaparecimento de algumas figuras fundamentais da Ouroboros e o início de um novo Plano por parte da organização.

Rean, por outro lado, é convocado junto com outros antigos pilotos dos Divine Knights para testar uma nova versão dos Assault Frames criada por Calvard chamada de Excalibur. É uma nova arma que faz parte do projeto Startaker cujo poder faz com que Rean e o restante dos membros de Thors decidam investigar o que está por trás, de fato, do projeto e qual o papel que ele tem nos objetivos do governo da República.

Por último, o arco de Kevin o coloca junto com Rufus e os demais antigos membros do The Gardens, Swin e Nadia. A história gira em torno da caça de Kevin por um suposto herege pelos seus crimes cometidos contra a Septian Church o que, naturalmente, faz sentido considerando que ele é conhecido como Herecitc Hunter lá no em Trails in the Sky SC. No entanto, o porquê de Kevin fazer questão de acompanhar Rufus é uma parte importante da história e a conexão dele e dos seus companheiros com o grupo de assassinos de Calvard e a conexão de tudo isso com o Project Startaker é o mote central dos fatos aqui, com o retorno do Gralsritter preferido de todos sendo muito importante para a direção da série daqui pra frente.

The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon

Olhando como um todo para a história, ela é muito bem executada. O problema maior talvez fique por conta da distribuição bem desigual de tempo, algo que até faz sentido quando se pensa que o foco aqui é em Calvard, mas que atrapalha o ritmo da narrativa. Van e seus amigos recebem basicamente a mesma quantidade de tempo que os outros dois arcos juntos, mas muito dele é dedicado a pequenos momentos de desenvolvimento pessoal e interações entre eles, enquanto os acontecimentos realmente impactantes da trama ocorrem com Rean e Kevin.

Isso, naturalmente, traz um peso maior para a conclusão com os membros do Arkride Solutions Office pouco a pouco descobrindo o que está acontecendo enquanto dois dos personagens mais poderosos de toda Zemuria realmente atuam nas entranhas mais sombrias até que todos os eventos convergem nos capítulos finais. A estrutura em si não é o problema, muito pelo contrário, o jogo entrega um dos finais mais importantes e bombásticos da série (ao nível do final de Cold Steel III, por exemplo) e realmente coloca o final da série no horizonte, algo que só é conquistado pela forma como ele guia o jogador pela história. Mas jogadores que esperam um ritmo mais acelerado precisam ir sabendo que a abordagem é mais difusa, muito mais próximo de Trails into Reverie do que Daybreak, o que traz esse ritmo mais “quebrado”.

Dito isso, o fato da história do Van servir quase como um “refresco” entre os momentos mais impactantes entregues por Kevin e Rean é algo que funciona bem justamente pelo cuidado dedicado a mostrar a evolução dos personagens. A maior crítica à Erebonia era justamente o quão dependente do Rean todos eram e aqui nós vemos todos os personagens se mostrando mais independentes, capazes de resolver problemas por ângulos que nem o protagonista havia pensado. Isso ajuda a solidificar não só Van como, discutivelmente, o melhor/segundo melhor líder até aqui (a depender do seu sentimento com Estelle), dado o quanto esses pequenos momentos mostram que todos cresceram com ele, não só ficaram mais velhos e mais dependentes emocionalmente do avatar do jogador.

The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon

Retornando ao ritmo, cabe aqui dizer que apesar de mais quebrado, isso não quer dizer que a história seja ruim ou o próprio pacing seja problemático, ele só realmente tem esse estilo menos corrido propositalmente. Isso se mostra especialmente pela narrativa trazer muito mais missões secundárias em cada ato, expandir no sistema de Daydreams com Mementos, a inclusão dos Connected Events e vários outros elementos conectados ao novo sistema de dungeons geradas randomicamente, o Grim Garten. É um sistema bastante similar ao que já vinha sendo explorado pela série esporadicamente em Cold Steel II e depois em Reverie com os Reverie Corridors, atualizando a estrutura vista com o Marchen Garten de Daybreak II. Então, se você é do tipo de fã, como eu, que gosta de explorar cada pequeno pedaço de Zemuria sempre que é dado uma chance, há muito o que gostar aqui, mas é inegável que há um esforço grande em enfiar o máximo de conteúdo possível para inflar a sua duração.

Sobre o combate, ele é uma evolução bem consciente do que vimos em Daybreak II, construindo mais sobre ele em uma direção um pouco diferente do que foi visto em Trails in the Sky 1st Chapter (importante lembrar que o jogo saiu no Japão antes do remake do primeiro título, apesar de estar chegando ao Ocidente depois). A estrutura alternada entre Field Combat e Turn-Based ainda existe e o funcionamento de ambos nunca foi tão bom, tanto pela execução excepcional quanto pela transição entre um e outro ser bem rápida. A grande novidade aqui fica por conta do sistema chamado ZOC que tem impactos distintos nos dois estilos de combate.

Durante o combate de ação, o Z.O.C., ao ser totalmente carregado, permite desacelerar o movimento dos inimigos e aumenta exponencialmente a quantidade de dano causado naquele período. Ainda é necessário fazer um bom uso da esquiva, das Quick Arts e de taques mais fortes (Charge Attack) para causar stun nos inimigos, com uma ênfase muito maior agora nesse estilo de combate. Por fim, alguns personagens também tem um sistema de Trance no qual eles recebem os mesmos buffs do ZOC, mas por um período maior. O sistema também afeta o combate por turnos, com um breve ajuste ao sistema de Shard Boost para encaixá-lo. Agora, S-crafts só precisam de uma barra para serem ativadas, com o ZOC exigindo duas. Ele traz um turno extra para os personagens e pode ser usada em conjunto com o retorno das saudosas Brave Orders (agora chamadas de Shard Commands).

The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon

No geral, o combate é excepcionalmente divertido, talvez o melhor que a série já teve, até mesmo em comparação com Trails in the Sky 1st Chapter. O vasto elenco de personagens ajuda bastante nisso, dando uma variedade grande ao funcionamento do combate de ação e por turnos igualmente. Apesar do Field Combat não entregar o mesmo grau de complexidade que se veria, por exemplo, em um Ys, ele é robusto o suficiente para entreter até mesmo em situações que te forçam a usá-lo exclusivamente. É algo que saiu de uma decisão motivada por um medo de estagnação e que parecia enfiada ali para atrair um público mais resistente a combates por turnos para algo que realmente adiciona bastante ao jogo.

O que não quer dizer que o jogo não tenha seus pequenos problemas. Além do já citado pacing da história, a câmera durante o Field Combat é especialmente problemática, com o lock-on em alguns pontos atrapalhando mais do que ajudando. O fato do jogo ainda não ser totalmente dublado e não ter adotado uma apresentação mais robusta também incomoda um pouco, mas já é algo bem melhor aqui (e levemente “perdoável” sabendo pra onde ele vai). Além disso, a quantidade de conteúdo parece artificialmente inflada, mesmo que seja um prato cheio para os fãs mais fervorosos.

Dito tudo isso, The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon é um acerto gigantesco e recoloca a série nos trilhos depois do que é, pra mim, o pior entre todos os 13 títulos dela. Daybreak II talvez tenha sido a maior decepção de 2025 (mesmo sabendo que deveria esperar pouco dele) e ver que as lições certas foram tiradas dos seus erros é muito bem-vindo. Trails Beyond the Horizon é não só um concorrente forte ao título de melhor JRPG de 2026, mesmo saindo tão cedo, mas uma excelente recompensa para os fãs de tantos anos. É uma pena que Beyond the Horizon II ainda esteja longe de ser lançado, com tudo indicando que só chegará às lojas japonesas em 2027, já que, se esse é o começo do fim, nós embarcamos em uma belíssima viagem nesse foguete.

The Legend of Heroes: Trails Beyond the Horizon II está disponível para PS4, PS5, Switch, Switch 2 e PC. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela NIS America.

Veredito

The Legend of Heroes: Trails beyond the Horizon é um incrível acerto que coloca a franquia de volta aos eixos. Com excelente combate, história (quase) impecável e apenas alguns problemas técnicos que não chegam a atrapalhar a experiência, é um jogo mais do que obrigatório para os fãs de uma das melhores franquias de JRPGs de todos os tempos.

95

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