Para aqueles que tiveram a infância na do início da internet popular no Brasil, com conexões discadas que só podiam ser usadas depois da meia-noite ou nos finais de semana, é quase certo que em algum momento você em busca de algum jogo online gratuito acabou acessando o site do Neopets. Cuidar do seu bichinho virtual, pegar sua fatia grátis na Omelete Gigante e, principalmente, passar horas a fio jogando os minijogos em Flash para juntar os suados Neopontos era praticamente uma religião para muitos de nós (sim, me incluo fortemente neste meio). Confesso que, por conta dessa imensa bagagem afetiva, abracei o anúncio de Neopets – Mega Mini Games Collection – The Neopian Arcade Odyssey com muita empolgação. A ideia de revisitar esse mundo no PlayStation 5 em um conceito mais modernizado parecia o pacote nostálgico perfeito. Porém, após mais de uma década longe de Neopia, a realidade de reviver esses clássicos provou ser uma experiência que, embora aconchegante nas memórias, é bastante falha na execução técnica moderna.
Para começar, o pacote oferece 26 dos jogos mais clássicos do site, além de uma aventura inédita. Logo de cara, o título tenta te engajar através de um Modo História. A premissa envolve o Rei Roo organizando o Festival das Luzes em Neopia, onde você precisa competir contra outros personagens (NPCs) para ganhar tokens do evento. Na teoria, seria uma forma simpática de revisitar as diferentes regiões do mapa. Na prática, a história do jogo é muito, mas muito ruim. Não há absolutamente nada de interessante acontecendo ali; o enredo é vazio e os diálogos parecem ter sido escritos com pressa, existindo puramente como uma desculpa esfarrapada para te obrigar a jogar uma sequência de minigames. Fora que se você for realmente um conhecedor de Neopets vai perceber que ainda ficou faltando muitos locais no mapa a aparecerem por aqui.
O maior pecado desse Modo História não é nem ser desinteressante, mas sim ser uma barreira. Você é praticamente obrigado a passar por esse tédio narrativo apenas para poder liberar os jogos no Modo Arcade. Para um título que se vende na premissa de partidas rápidas e nostalgia, forçar o jogador a ler caixas de texto irrelevantes para destrancar aquilo que ele realmente quer jogar é uma decisão de game design que já nasce datada e irritante. Ao contrário de criar algo que te faça querer explorar mais para desbloquear tudo, você apenas quer que acabe. Ao menos a pontuação mínima para avançar na história em cada minigame é relativamente simples de se conseguir e você não precisa fazer nenhum no modo mais difícil (considerando apenas aqueles que possuem algum nível de dificuldade).

Quando finalmente conseguimos focar nos minijogos em si, a experiência se torna um verdadeiro liquidificador de emoções. Para alguém que não jogava Neopets há tanto tempo, foi extremamente curioso perceber como a memória muscular e mental ainda estava afiada. Lembrei-me muito bem de como funcionavam vários dos jogos, seja de maneira agradável, sorrindo ao ver a simplicidade de um Meerca Chase, ou através de verdadeiros “traumas do passado”, relembrando o quão absurdamente difíceis e punitivos alguns desses joguinhos em Flash conseguiam ser. E ver que boa parte deles seguiu envelhecendo mal.
É importante ser um pouco realista: Neopets – Mega Mini Games Collection não possui apelo algum para qualquer pessoa fora dessa bolha de nostalgia. Se você mostrar esse jogo para um novo jogador, que não tem o apego emocional de sua época original, ele provavelmente vai abandonar o controle em quinze minutos. Até crianças vão achar simples demais, já que jogos para tablets e celulares possuem dinâmicas melhores. É uma coletânea bem simples, com visuais remasterizados que são bonitinhos, mas com mecânicas muito rústicas. Os jogos, em sua essência, não atraem novos entrantes, o que isola o título estritamente como um produto de nicho para fãs das antigas. OK, é meio que o que se esperava já que os jogos eram assim, mas falta ainda algum fator talvez de melhor interação com o site Neopets ou até mesmo você ter algum bichinho (mesmo que de forma simples ou com poucas funções.

E mesmo para esses fãs antigos, a transição do computador para a televisão cobra o seu preço. Historicamente, esses jogos foram desenhados milimetricamente para serem jogados com um teclado e, principalmente, com o clique rápido de um mouse. Ao migrar isso para o DualSense no PlayStation 5, a adaptação simplesmente não funciona bem em diversos casos. Mover cursores com o analógico ou tentar emular a precisão de um clique em jogos de reflexo rápido acaba gerando frustração. O tempo de resposta parece impreciso e, em muitos momentos, você não perde por falta de habilidade, mas porque o controle não se traduziu bem para a mecânica original do Flash. Isso é algo que é um problema não só nesta coletânea, mas que vejo acontecendo em diversos outros títulos.
Um dos pontos que me deixou mais decepcionado, no entanto, foi o tão divulgado conteúdo inédito: o jogo Starlight Symphony. Trata-se de um minigame musical estrelando a personagem Nyx, que tinha tudo para ser uma adição refrescante. O problema? É, de longe, um dos pontos mais fracos de toda a coletânea. Sendo direto: o jogo é tenebroso. Para um título de ritmo, e aqui falo considerando alguém que passou boa parte da vida neste gênero, a sincronia é algo fundamental. Infelizmente aqui o som parece não fazer nenhum sentido com o botão que você precisa apertar. É uma experiência arrítmica, fraca e extremamente repetitiva. Se você gosta do gênero musical, esse minigame sozinho já é motivo para revirar os olhos. Joguei apenas o necessário para avançar na história.

A coletânea também tenta justificar sua existência através de um sistema de recompensas internas (troféus, adesivos, etc.) e de uma integração com o site atual do Neopets via NeoPass. Essa integração, infelizmente, é muito fraca. Em vez de ser algo recompensador, que te faça sentir que o tempo gasto no PS5 está rendendo frutos substanciais para o seu bichinho virtual no navegador, o sistema se resume a uma comunicação rasa, que não justifica o esforço contínuo. Sobre a busca pela platina, para quem quer um jogo apenas para consegui-la é bem provável que pegue neste em pouquíssimas horas. É realmente bem fácil.
De forma geral, Neopets – Mega Mini Games Collection – The Neopian Arcade Odyssey entrega exatamente aquilo que a sua memória afetiva pede nos primeiros trinta minutos, mas logo em seguida deixa transparecer todas as suas limitações. A falta de esmero na adaptação dos controles, o Modo História que só serve como atraso de vida, a falha brutal no minigame de ritmo inédito e a ausência total de atrativos para novos jogadores fazem desta uma coletânea difícil de defender com unhas e dentes.

É um título que vale única e exclusivamente pela nostalgia. Ouvir novamente aqueles efeitos sonoros e ver os personagens que marcaram a nossa infância em tela cheia na sala de casa tem o seu valor, sim. Mas com um preço de lançamento de 122,50, é um investimento que dificilmente se paga pela qualidade do que é entregue. Recomendo fortemente que, se você deseja muito revisitar Neopia, espere por uma daquelas boas promoções para justificar ser um pequeno investimento. Até lá, quem sabe, os patches de atualização já tenham deixado a experiência do controle um pouco menos traumática.
Neopets: Mega Mini Games Collection está disponível para PlayStation 5, Switch e PC (Steam) com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Bolt Production International.




