Análises

Total Chaos – Review

Para quem é muito por dentro da indústria dos jogos provavelmente em algum momento já jogou algo com algum mod, versões ou pequenas modificações feitas por fãs de algum jogo já existente, seja talvez desde versões de jogos de futebol com outras camisas de time/narração ou até algo mais complexo que possa mudar a dificuldade ou jogabilidade como um todo.

Total Chaos é um jogo que começou assim: como um mod do clássico Doom II, que no fim de 2025 virou um jogo independente lançado de surpresa. A trajetória por si de sua existência até o que saiu agora já é algo de chamar atenção, principalmente se considerarmos com a inclusão de nomes de peso como Akira Yamaoka (Silent Hill) na trilha sonora, elevando então a expectativa para esse shadow drop, o que poderia ser um “sucessor espiritual” de terror psicológico clássico. Total Chaos não é um jogo para todos e, embora tenha méritos, entrega uma experiência que para alguns por muitas vezes flerta com a frustração.

Total Chaos
Em cada novo caminho algum inimigo pode estar a sua espera. Fonte: PS5 Create.

A história começa com Tyler, o protagonista que, após um naufrágio, se vê preso em Fort Oasis, uma colônia de mineração abandonada e corroída pelo tempo e então escolhe por explorar a ilha. A ambientação é o ponto onde o jogo tenta te ganhar pelo cansaço: tudo é marrom, úmido e enferrujado. É um estilo visual que remete diretamente ao início dos anos 2000, com texturas que parecem estar sempre “ensopadas”. A proposta de fato é ser simples, mas em alguns momentos os ambientes parecem até repetidos.

No entanto, o início de Total Chaos é extremamente lento. Por um bom tempo, você apenas vaga por cenários industriais vazios, ouvindo uma voz melancólica pelo rádio que te dá orientações vagas. A história demora muito para engrenar. Se você espera uma narrativa cinematográfica logo de cara, vai se decepcionar. Por quase três capítulos, a sensação é de que você está apenas em um simulador de caminhada em um local sujo, sem grandes motivações além de chegar em um quebra-cabeça de encontrar o próximo interruptor e fugir de alguns inimigos soltos. É uma exploração que, para muitos, pode parecer desprovida de propósito até que o jogo finalmente decida revelar um pouco de seu propósito.

Total Chaos
Boa parte do gameplay se resume a encontrar chaves para estes interruptores. Fonte: PS5 Create.

Um ponto de virada importante ocorre quando Tyler finalmente coloca as mãos em armas de fogo. No início, você depende totalmente de armas brancas — pedaços de madeira, canos e facas — que possuem uma durabilidade baixíssima. Elas quebram com poucos golpes, o que te incentiva a fugir de quase todos os monstros para evitar ficar desarmado. Acaba se tornando um jogo de esquiva e furtividade. No primeiro capítulo se você usar sua primeira arma para quebrar todo caixote buscando itens (o que você pode acabar fazendo já que não existe uma instrução prévia sobre a quebra da arma e como consertá-la) passará grande parte dele apenas fugindo.

Porém, conforme você coleta armas de fogo, o ritmo muda. O jogo percebe que você agora tem poder de fogo e começa a jogar hordas mais agressivas e monstros mais resistentes no seu caminho. A jogabilidade de “fugir de tudo” se torna impraticável, e você é forçado a atirar. Essa mudança é interessante porque reflete o aumento da loucura do personagem conforme explora tudo e o perigo crescente da ilha, mas também evidencia as limitações do combate, que nunca parece tão preciso quanto o de um jogo de ação moderno. É funcional, mas mantém aquele “jeitão” de mod de Doom: rápido, um pouco desajeitado e caótico.

Total Chaos
No começo do jogo você terá apenas a opção de atirar alguns objetos ou usar uma pequena variedade de armas de mão que encontrar. Fonte: PS5 Create.

O coração de Total Chaos não está no combate, mas na sobrevivência punitiva. O jogo impõe um sistema de quatro necessidades biológicas que você precisa monitorar constantemente, e é aqui que ele se diferencia de alguma forma (para o bem ou para o mal) de outros títulos do gênero. São eles Health (Vida), Bleed (Sangramento), Hunger (Fome) e Madness (Sanidade). É preciso manejar que itens utiliza para se recuperar de algum dos status negativos pode piorar algum outro. Ou então até te ajudar dando um pequeno “boost” de velocidade.

Sobre cada um desses pontos: A vida segue sua integridade física básica, como. Curar-se não é simples, e os itens médicos costumam ser escassos, obrigando você a ponderar cada risco assumido em um confronto. Será que valerá comer uma maçã podre? Sangramento talvez seja a mecânica mais irritante. Inimigos que o cortam causam sangramento contínuo. Se você não tiver bandagens — que são caras de fabricar ou raras de achar —, Tyler vai morrer esvaindo-se em sangue enquanto você procura por algo para curar-se.

Já a fome afeta diretamente o seu vigor (estamina). Se Tyler estiver com fome, sua capacidade de correr ou desferir golpes pesados cai drasticamente. Isso te obriga a caçar latas de conserva ou alimentos duvidosos constantemente, adicionando uma camada de microgerenciamento que nem sempre é divertida. Já na sanidade , conforme Tyler se aprofunda na ilha ou usa certos itens, sua mente começa a se quebrar. Isso gera distorções visuais e auditivas que podem ajudar a encontrar segredos, mas que também tornam a navegação ainda mais confusa e perigosa. E isso é algo que naturalmente também aumenta conforme ocorre a progressão de capítulos.

Total Chaos
Na descrição de cada item é possível entender quais atributos irá alterar. Fonte: PS5 Create.

O manejamento de inventário segue essa lógica de “menos é mais”. Não temos um limite de espaços estilo Resident Evil, mas sim um limite de peso. Carregar armas demais ou muita sucata para a criação de itens torna Tyler lento e vulnerável. Você passa boa parte do tempo decidindo o que deixar para trás, o que reforça o tom de sobrevivência, mas que, na prática, pode se tornar um fardo repetitivo. Não ocorre um pause ao abrir o inventário, então é importante ter tudo bem organizado na hora de usá-lo enquanto foge de algum inimigo.

Onde Total Chaos realmente deixa a desejar é no seu level design. O jogo é recheado de puzzles similares que giram quase sempre em torno de encontrar chaves ou acionar interruptores para abrir portas em áreas que parecem labirintos. Essa estrutura se repete exaustivamente, e a falta de uma orientação clara muitas vezes transforma o terror em tédio. Jogar dois capítulos em sequência pode ser um pouco entediante.

Você se vê andando em círculos em ambientes que são visualmente idênticos (armazéns, esgotos, refinarias) apenas para descobrir que o botão que você apertou abriu uma porta no outro extremo do mapa. Essa dependência de interruptores é um vício de design datado que quebra o clima de imersão e torna a exploração cansativa. O que deveria ser um momento de tensão acaba virando uma busca mecânica por uma alavanca escondida. Apesar de ser a proposta do título a “referência datada”, é possível fazer pequenas adaptações para não termos dez horas de quase a mesma coisa.

Total Chaos
Além das interações misteriosas pelo rádio, boa parte da história é desenvolvida por documentos espalhados pelos cenários. Fonte: PS5 Create.

Total Chaos é um jogo que merece respeito pela sua ambição e pela atmosfera pesada que conseguiram criar de início, mas é difícil ignorar seus problemas. Ele acerta em cheio no tom de abandono e na brutalidade da sobrevivência, mas falha ao entregar puzzles repetitivos e uma narrativa que demora demais para se tornar interessante. A experiência se torna válida para quem é fã ferrenho de horror em primeira pessoa e não se importa com mecânicas um pouco datadas.

É um título que propõe um mergulho na “sujeira” e cumpre o prometido, mas que exige que você aceite seus defeitos (ou escolhas criativas?) em troca de sua identidade única. No final, cada jogador terá uma visão diferente: para uns, um cult clássico de sobrevivência; para outros, um mod ambicioso demais que não soube se livrar das amarras do passado.

Total Chaos está disponível para PS5, Xbox Series e PC. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Apogee Entertainment.

Veredito

Total Chaos é um survival horror que brilha em sua atmosfera antiga em tons de ferrugem, mas que tropeça em um design de labirintos repetitivos e uma narrativa que custa a despertar, em que a maior luta é manter a sanidade em meio a interruptores e ferramentas quebradas.

74

Eric Oliveira

Tiro na água!

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