Análises

Rayman 30th Anniversary Edition – Review

Quando era criança, lá na época do Windows 98, tive um PC para jogar meus jogos no lugar de ficar trocando de videogames com o tempo (tive Master System e só fui ter um PS2 bem no final de sua vida). E quem assim como eu viveu a era do final dos anos 90 e começo dos 00 certamente guarda uma memória afetiva das bancas de jornal para jogos. Para mim, o primeiro contato com o herói da Ubisoft não foi em um console, mas através de uma daquelas edições clássicas da Revista Poster Senha, que trazia o Rayman, em sua edição Rayman Gold em um CD-ROM que, orgulhosamente, ainda guardo e funciona até hoje (assim como a edição de Croc). Esse carinho pela franquia só cresceu ao longo das décadas, me levando a explorar cada canto desde o título original até o que gosto de chamar de o melhor jogo de plataforma já feito, Rayman Legends.

Rayman 30th Anniversary Edition
Como é nostálgico conseguir novamente as luvas pela primeira vez. Imagem da versão MS-DOS. Fonte: PS5 Create.

Agora, em fevereiro de 2026, a Ubisoft nos entrega a Rayman: 30th Anniversary Edition, para comemorar então os 30 anos desta sua franquia. A proposta é ser um grande compilado do primeiro jogo, reunindo as versões de PlayStation, MS-DOS, Atari Jaguar, Game Boy Color e Game Boy Advance, além de um lendário protótipo de SNES. É um pacote que promete preservação histórica, mas que, na prática, entrega uma experiência extremamente agridoce.

Se há algo que ajude a justificar o apelo para esta coletânea, talvez sejam os seus extras. Na parte “história” no jogo existe uma espécie de documentário com textos, fotos e vídeos que é um ponto alto. Ver as entrevistas com os desenvolvedores originais e mergulhar em artes conceituais e documentos de design raros é um presente para quem gosta de conhecer mais esse lado da indústria e que com certeza vai agradar os grandes fãs. Apesar de ser algo que poderia ter sido lançado em algum YouTube da vida como compilado, optar por colocar no pacote da forma que fizeram acaba elevando um pouco sua qualidade.

Rayman 30th Anniversary Edition
Tire fotos para fazer checkpoints. Foto da versão de PlayStation. Fonte: PS5 Create.

O protótipo de SNES é outra curiosidade fascinante. Ver os primeiros passos do Rayman em um hardware para o qual ele nunca foi lançado oficialmente é um exercício de “e se…” que vai encantar os grandes fãs. Para quem gosta de colecionar informações e curiosidades, essa parte do jogo é impecável. Já para quem desconhece e está apenas para conhecer um jogo de plataforma retrô com certeza será uma adição a se pular, pois não há muita diversão neste modo. Ao contrário das diversas fases extras no pacote da versão de PC, que diversificam bastante o gameplay e geram maior longevidade para o título. Há também diversos troféus para conquistar em cada uma das versões do jogo.

No entanto, quando deixamos o museu e entramos na jogatina propriamente dita, a realidade é menos brilhante. O maior problema de Rayman 30th Anniversary é que ele parece, em essência, um amontoado de ports de ROMs de emuladores com pouquíssimo tratamento. Isso é um problema que vemos em grandes coletâneas ou relançamentos de títulos antigos? Sim. Extremamente comum. Mas não deixa de ser frustrante, pois também vemos como algumas desenvolvedoras se importam em dar um pequeno upgrade para estes relançamentos, em especial para aniversários tão especiais.

Rayman 30th Anniversary Edition
Um pouco do que era o protótipo. Fonte: PS5 Create.

O upscale para o PlayStation 5 é bastante fraco. Em TVs modernas de grandes polegadas, as versões portáteis (GBA e GBC) ficam com um visual estranho e esticado, perdendo aquela nitidez que um tratamento mais cuidadoso de filtros poderia proporcionar. Fora que não funciona bem de se jogar, você enxerga pouca coisa em uma tela muito grande. Algo que acredito que talvez só seja bem aproveitado também em portáteis. Já para as versões principais, PC e PlayStation, existe uma melhor fluidez pois já era pensado em telas maiores. Existe uma opção no menu de você escolher jogar com tela estendida, original ou com alguma edição, algo que pode ajudar um pouco para cada um escolher a melhor forma de se adaptar.

Infelizmente, os problemas técnicos não são apenas visuais. Existem bugs recorrentes de salvamento que podem apagar o seu progresso, especialmente nas versões de Jaguar e MS-DOS. É um erro difícil de digerir em 2026, especialmente em um título que celebra três décadas de uma marca tão importante. E de algo que emuladores de baixo orçamento conseguem fazer. Até a última vez que testei o modo para escrever essa análise ainda havia encontrado o bug.

Rayman 30th Anniversary Edition
Versão de GBA. Fonte: PS5 Create.

E outra coisa que precisamos ser honestos: o Rayman original não envelheceu tão bem quanto alguns outros jogos da época. A dificuldade é punitiva e a movimentação é “travada”, principalmente se comparada à agilidade da era Origins/Legends que segue no modelo plataforma (irei desconsiderar os títulos em 3D), onde boa parte do público atual provavelmente teve seu primeiro contato. Para um novo jogador que conheceu o personagem nos últimos dez anos, o choque será grande e não houve uma preocupação em uma pequena melhoria sequer, algo que conseguimos ver por exemplo ao jogar Alex Kidd hoje em dia. É um título muito mais voltado para o fã antigo que quer revisitar suas raízes do que para novos entrantes.

Rayman 30th Anniversary Edition
Versão de GBC. Fonte: PS5 Create.

A coletânea acaba então sendo um produto de nicho. Embora existam melhorias de “qualidade de vida”, como a função de Rebobinar (Rewind) e vidas infinitas, elas parecem apenas remendos em um software que carece de um refinamento profundo. Um tapa buraco como pequenos mods de um emulador e “fases extras” para dar um pouco de charme (sendo que muitas eu mesmo já tive acesso quando joguei a versão Gold e não foi nenhuma novidade). A sensação é de que foi entregue o mínimo necessário para rodarem esses “port”, confiando que o peso da nostalgia e o excelente material extra esconderiam as falhas técnicas e os bugs que ainda persistem no lançamento. Para uma franquia tão antiga e que possui um personagem tão carismático, chega a ser triste receber uma comemoração tão simples para seus 30 anos.

Rayman 30th Anniversary Edition
Uma das diversas fases extras do jogo original. Fonte: PS5 Create.

Como peça de preservação e documentário, a coletânea é obrigatória para quem, como eu, passou por esses praticamente este 30 anos conhecendo versões do mesmo jogo e avançando por suas sequências uma a uma e tem algum tipo de vínculo afetivo com a franquia. Como jogo de plataforma antigo para alguém que nunca tinha jogado, porém, deixa muito a desejar. É uma coletânea agridoce: o conteúdo bônus no sentido histórico/de produção é interessante, mas a execução técnica é desleixada. Vale a pena pela curiosidade e pelo documentário, ou pelo simples fato de ter esse clássico em sua biblioteca em 2026 de forma original, mas prepare-se para lidar com as arestas de um clássico que merecia um tratamento mais digno em seu aniversário de 30 anos.

Rayman 30th Anniversary Edition está disponível para PS5, Xbox Series, Switch e PC. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Ubisoft.

Veredito

Rayman 30th Anniversary celebra o passado com alguns extras e detalhes da história de sua franquia, mas esquece de polir o presente, entregando um pacote simples e falho em sua execução, muito aquém para a comemoração que Rayman merece.

70

Eric Oliveira

Tiro na água!

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