Para qualquer fã de Monster Hunter, a linha principal dos jogos entrega uma qualidade absurda no que se propõe e isso não é mais questionável. Ao capitalizar o mesmo universo para outro gênero e ainda mantendo a essência da franquia, a Capcom arriscou bem em Monster Hunter Stories e o foco num estilo RPG tradicional e combate por turnos, o que já era uma diferenciação imensa para a série em seu primeiro lançamento.
Com 2 jogos já lançados e disponíveis em várias plataformas, seja rotulada de spin-off ou subsérie, Stories chega no terceiro capítulo de forma ainda mais ambiciosa do que antes. Apesar de já termos adiantado um pouco do jogo na nossa prévia semanas atrás, as primeiras 20 horas de jogo ainda não entregava tudo e, agora com mais de 60 horas já aproveitas, fica mais fácil afirmar que o título é mais um acerto da Capcom e que entrega um ótimo jogo num universo muito bem utilizado.

Seguindo a história dos jogos anteriores, mas sem ser uma sequência direta, Monster Hunter Stories 3:Twisted Reflections apresenta uma nova ameaça desconhecida e o envolvimento de diversas nações e pessoas afetadas pelo perigo. No papel do herdeiro do trono de Azuria e líder do esquadrão de patrulheiros e domadores de monsties, o jogador começa uma jornada para resolver o problema da cristalização, a relação desse perigo com os monsties, a iminência de uma guerra contra o império de Vermeil e muito mais ainda a ser descoberto.
De forma bem mais direta e com grande foco na relação entre os personagens, Stories 3 entrega uma campanha satisfatória e interessante do início ao fim. Ainda que sem tantas novidades ou até mesmo parte previsíveis, o foco aqui fica em mostrar mais e até mesmo intercalar o universo de Stories com a franquia principal. A jornada vai além de mais um evento cíclico do aparecer dos novos Rathalos Escamacéu, as crenças envolvidas e a solução do mistério da cristalização, mas muito mais de uma envolvente e evolutiva história que segue de forma separada e cada vez mais forte no seu próprio universo.

Com uma duração de 20 a 30 horas focando apenas na campanha principal, essa ainda é reforçada por atividades secundárias e, da melhor forma aqui, as missões de aprofundamento de cada parceiro dessa aventura. Na minha jornada de mais de 55 horas, ainda com atividades a ser concluídas e um longo esforço na criação de monsties e restauração de ecossistemas, fica fácil ver o pacote completo recheado de atividades. Ainda iremos aprofundar nisso, mas mesmo que algumas fiquem maçantes perto do fim e sem muito se renovarem, qualquer fã dos jogos anteriores irá aproveitar bastante o terceiro capítulo aqui.
A maior diferenciação em relação com a linha principal de jogos é como o tratamento dos monstros acontece aqui. Se o padrão era a caça e aprendizado com esse processo, enquanto evolui e melhor ao longo de novas caçadas, aqui temos a intenção de criar os monstros e trabalhar em parceria contra aqueles selvagens ou que se tornam um perigo. Parte da estrutura se mantém, como construção de itens e equipamentos com base nos monstros eliminados, mas o intuito de se aliar a uma Diablos ou Magnamalo durante a batalha, por exemplo, dá um novo frescor e ponto de vista que é justificável nesse lado do universo.
Stories se baseia em três pilares principais para sua jogabilidade, sendo exploração livre e com auxílio das habilidades únicas de monsties diversos, combate por turno combinando monstros e humanos, e o crescimento dos ecossistemas em restauração da fauna natural de monstrinhos. Mesmo a história tem por objetivo reforçar cada ponto desse triângulo nas mais diversas missões principais, deixa bem claro o impacto de cada um durante essa jornada, seja a luta contra monstros ou a criação deles para um maior equilíbrio.
Também mostrando o que já é comum para os fãs, Twisted Reflection traz biomas diversos e monstros relativos de cada um, mostrando ecossistemas mais vivos dentro da sua estrutura. Florestas recheadas de Arzuros, desertos com Diablos ou Legianas em parte de gelo, além de dezenas de outros monstros, são sistemas bem distribuídos e com uma seleção de monstros novos e antigos para agradar qualquer fã. Particularmente não me agradou tanto que uma boa parte dos monstros vieram direto de Rise/Sunbreak, quase como trazendo tudo o que existe lá e colocar aqui ao invés de aproveitar a oportunidade para aqueles esquecidos de jogos mais antigos.

Algo fundamental no jogo é como a exploração e criação de monsties estão interligados. Use um Lagiacrus para nadar pelas águas e acessar um ninho com ovos de monsties daquela região. Descubra novas espécies do lugar e repopule aumentando os genes dos monstros ali. Por exemplo, voar com um Rathalos até uma área e coletar ovos de espécies com ataques elétricos e inserir os mesmos em uma região de monstros de fogo pode mudar o ecossistema para novos ovos que possuem os 2 elementos ou mesmo um monstro alternativo, como um Anjanath usando elemento de dragão.
Essas misturas entre a criação de espécies, procura por novos ovos e aprimoramento dos genes das já existentes, usar esse crescimento para combinar os melhores parceiros para sua equipe e mais é uma parte importante do jogo, mas também a que eventualmente se torna a mais cansativa. Para se ver resultados os resultados disso acaba sendo necessários diversos ovos, ninhos, libertação de monstros em biomas e muito mais, acumulando hora e horas apenas se focando nisso e, sem muita variação nesse meio tempo, após centenas de ovos colecionados sem muita diversificação nesse processo se torna algo maçante.

Como cada mapa possui regiões diferentes, dezenas de monstros por mapa e separados por essas áreas, com as combinações possíveis, coletas de mais ovos e mais libertações, já dá pra perceber que para algumas dezenas de horas esse trabalho começa a ser meio árduo. Esse talvez seja o principal ponto negativo no jogo, com pouca variação dessa situação e sendo algo apenas usando caminhos padrões para entregar algo que no fim é maior do que o processo para se chegar ali.
Já o combate é algo que tem a sensação de ter o maior polimento no jogo sem tantas novidades assim. Isso não é ruim e só demonstra como a estrutura já era bem feita, com o aperfeiçoamento aqui entregando o melhor do idealizado antes. Em um época em que o combate por turno tem tido uma atenção maior e com alguns já quase exigindo um padrão para o tipo, ver Stories 3 seguindo o próprio caminho e justificando a especialidade da franquia como um todo é algo primoroso.

Talvez aqui as comparações com Pokémon fiquem mais evidentes, mas o jogo tende a seguir um caminho único e com a base de Stories 2. Cada batalha coloca o seu personagem e um monstie, que pode ser trocado a qualquer momento por outro dentro de uma equipe de um total de 6, com um parceiro e seu monstro fixo. Toda a estrutura de elementos, fraquezas, status e mais que você vê em qualquer Monster Hunter está presente aqui, assim como itens, armas e armaduras com tipos de ataque (cortante, perfurante ou contusão) continuam como padrão. A única diferença em Stories é o estilo do ataque (rápido, tático ou forte) que funciona quase como um “pedra, papel e tesoura”, onde um desses é mais forte contra outro e fraco contra o último. Essas combinações vão moldar boa parte das estrutura de batalha e ser fundamental para os chefes mais importantes do jogo, meio que transformando partes de algumas batalhas como um pequeno trecho de sorte, ou até mesmo de ações programas pelo jogo.
Um bom exemplo disso é que alguns chefes vão mostrar preferência apenas por dois estilos e você precisa entender isso para diminuir as chances dele vencer e anular seu ataque naquele momento. Outros monstros vão dar sinais do tipo de ataque que usarão, como rugidos ou partes específicas que irão focar, assim como habilidades que podem mudar os rumos da batalha. Um ponto aqui é que o jogo talvez seja permissivo demais e, em alguns momentos, até mais fácil. Não há o impacto de uma batalha para outra, o jogador sempre começa com vida cheia e preparado para a próxima, mesmo que aconteça segundos depois. Além disso, seu parceiro pode ser abatido e o mesmo volta com vida total algumas rodadas depois, fazendo o jogador se preocupar apenas com a sua dupla e não perder seus 3 corações para ser derrotado de imediato.

Não acredito que seja um problema para o jogo como um todo, mas sim uma decisão de design que pode não agradar a todos. Até pelo escopo e visual, dando a entender que um público mais infantil e jovem possa ser algo aqui, algumas praticidades assim podem não ser atrativo principal para jogadores veteranos e em busca de desafios constantes, mesmo que esses ainda existam na parte de fim de jogo e com inimigos mais fortes surgindo.
Um ponto importante é a leve mudança no estilo visual e artístico, mas que se mostra um acerto grande. Sai o visual mais caricato dos jogos anteriores e a versão anime mais adulta acaba por condizer mais ainda com o estilo e também como um salto de evolução. Muito mais do que qualidade técnica, apesar disso ser ainda impressionante aqui, a questão visual é impecável e se mostra quase como assistir a um longa em animação, o que é perceptível nas várias cenas da história e me fez desejar até um longa metragem do tipo.
Mesmo a modelagem dos monstros, que entrega quase a quantidade de detalhes de jogos como World e Wilds, mostram um avanço incrível na tecnologia para o que era apenas uma série menor dentro da franquia. O que poderia acontecer era uma entrega melhor de cenários em todos as regiões na mais alta qualidade como se vê em Azuria, com um exemplo sendo a tundra congelada um tanto quanto mais limitado nesse aspecto.

Com material para 50 a 60 horas de atividade, indo até mais do que isso caso queira investir mais tempo em desenvolver monstros, investir contra os dragões anciões e outra atividade de endgame e mais, Stories 3 consegue prender o jogador facilmente por um long período e, assim como a franquia principal, ser até usado em partes como um jogo recorrente ao testar novas combinações e batalhas.
Monster Hunter Stores 3: Twisted Reflection é um salto para os jogos anteriores e fecha uma primeira trilogia de forma excelente. Abre um leque de opções para o futuro, seja expandindo a fórmula atual ou mesmo evoluindo para algo ainda mais diferente e, assim como o nascimento de Stories, criar algo que apresenta passos mais arriscados numa IP que ainda pode crescer para outras áreas.
Monster Hunter Stories 3: Twisted Reflection está disponível para PS5, Xbox Series, Switch 2 e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 (no PS5 Pro) e foi realizada com um código fornecido pela Capcom.




