Análises

John Carpenter’s Toxic Commando – Review

Ah, os anos 1980… tempo de um cinema B mais simples sem qualquer pressão de redes sociais ou coisas do tipo, com heróis brucutus e fanfarrões, ameaças absurdamente ridículas, explicações convenientes e um certo descompromisso nonsense. Se muita coisa criada e produzida nesta época envelheceu mal, alguns de seus maiores clássicos permanecem relevantes e divertidos, merecendo novos olhares mais generosos.

Um dos maiores realizadores oriundos desta efervescência criativa foi John Carpenter, mente por trás de alguns filmes que hoje são considerados verdadeiros clássicos da ação, do terror e da ficção científica, como Halloween (1978), Fuga de Nova York (1981) e Enigma de Outro Mundo (1982), dentre outros tantos originais ou adaptações de obras literárias, grande parte delas inspiradas nas muitas obras de Stephen King.

Não é à toa, portanto, que John Carpenter’s Toxic Commando traz consigo o peso e a responsabilidade desta marca tão icônica. Ainda que não seja uma criação direta dele, o jogo tem explicitamente todo o DNA de sua obra, e sua participação tanto ajudando na criação de mundo, no estabelecimento de algumas bases narrativas e na composição musical torna sua presença muito maior do que só os easter eggs de sua obra espalhadas por todos os lados em cada cenário, algo que certamente agradará muitos dos seus fãs das antigas.

Para se ter uma ideia sobre como exatamente é o jogo, imagine um FPS colaborativo que mistura de forma positivamente esquisita coisas como os já citados Fuga de Nova York e Enigma de Outro Mundo com Left 4 Dead e World War Z, outro jogo também sob a tutela da Saber Interactive. Traga para esta mistura um certo cinismo canastrão com arquétipos bonachões, e o resultado é uma aventura particularmente divertida cuja meta é, claro, salvar o mundo.

A trama nos apresenta um futuro próximo já tomado pela corrupção originada pelas ações de um cientista excêntrico e irresponsável, mas genial, que descobre uma forma de canalizar e se apropriar da energia do núcleo da Terra, provavelmente com boas intenções, mas que logo trazem consequências nefastas. No processo, ele liberta uma figura que chamou de Sludge God, criatura esta que inicia um processo de tomada e terraformação do nosso singelo planeta.

Ao corromper tudo o que toca, a praga torna o mundo um lugar bastante inabitável, transformando seres humanos em verdadeiros zumbis comedores de cérebros, além do desenvolvimento de monstros bizarros e igualmente mortais. Mas nem tudo está perdido, porque o cara que originou tudo isso tem um plano infalível para resolver o probleminha, e para isso ele só precisa que um esquadrão de elite invada áreas perdidas e recupere artefatos importantes. É aí que entra o grupo que, por motivos explicados logo no início da jornada, se torna o autointitulado (não sem alguma resistência de alguns membros) Toxic Commando.

Na pele de um dos quatro integrantes da equipe, nos aventuramos por diferentes cenários semi-abertos e autocontidos na companhia de outras três pessoas (ou qualquer combinação entre isso e bots) para o cumprimento de tarefas que envolvem extração e recuperação de itens, invasão e destruição de instalações e, claro, a eliminação de ameaças, como bases inimigas corrompidas e chefões nojentos.

Para tal, o jogo conta com mecânicas bastante estabelecidas de tiro em primeira pessoa, e nesse sentido, não há novidades muito significativas, o que em outras palavras significa que não há aqui grandes revoluções ou modelos de jogo que já não tenham sido vistas em produções recentes no mesmo formato PvE, como Back 4 Blood e coisas do tipo. Mecânicas de combate, seleção e gestão de personagem, evolução de arsenal e composição de time de acordo com classes são quase naturais para qualquer um que já tenha experimentado qualquer coisa do gênero.

A boa notícia é que, mesmo parecido com tantas outras coisas, John Carpenter’s Toxic Commando é extremamente eficiente naquilo que propõe e, na comparação com seus correlatos e dentro das suas limitações, é provavelmente uma das melhores e mais bem resolvidas produções já lançadas. Talvez até seu anacronismo, sendo lançado em um período posterior ao ápice do sub-gênero, tenha lhe oferecido o amadurecimento necessário para se destacar diante uma série de obviedades.

Um bom exemplo disso é o uso de apoio veicular, algo que recentemente teve seu apelo no Modo Zumbi do divisivo Call of Duty: Black Ops 7, mas que em Toxic Commando funciona de forma muito mais orgânica e integrada. Encontrar um pickup improvisada ou um veículo militar não só é um jeito mais rápido de se movimentar pelo ambiente como pode ser fator essencial para acessar recursos importantes e, não raro, cumprir as missões em sua totalidade.

Isso porque ferramentas importantes, com um arpão presente em vários destes possantes, são necessários para acessar passagens ou contêineres lacrados, o que torna a escolha, por vezes, obrigatória, mas com benefícios que vão para além do ônus, como cuidar da integridade do veículo e continuar abastecendo-o com combustível a ser encontrado por aí. Na dúvida, é sempre melhor estar sobre quatro rodas.

Outro recurso bastante explorado no jogo é o sistema de defesa de base, seja para proteger uma instalação importante ou para aguentar o ímpeto inimigo até que uma tarefa esteja finalizada. Se provando muito similar a World War Z, incluindo as hordas incrivelmente volumosas de inimigos, é necessário muitas vezes preparar o terreno com armadilhas, barreiras e obstáculos para conseguir segurar as pontas e sobreviver. É tão trabalhoso quanto uma batalha simples contra chefes únicos, mas sinceramente, é muito mais divertido pelo caráter caótico e alucinado da coisa toda.

O saldo final, aliás, tem no fator da diversão seu ponto mais alto. Mesmo nas dificuldades mais elevadas que exigem uma melhor coordenação com os companheiros de equipe, as missões, por mais trabalhosas que sejam, nunca se tornam um peso, um fardo a ser carregado. Ao contrário, o ritmo é muito bem estabelecido, a distribuição de pontos de interesse pelo mapa é agradável e o combate é satisfatório o suficiente para sempre seguirmos em frente, mesmo em missões relativamente alongadas.

Se há algo que poderia ser um pouco menos sisudo é o modelo de level design cheio de acidentes e obstáculos geográficos que, por vezes, acaba tornando algumas travessias amarradas demais, com menos liberdade para abordagens mais criativas. Em muitos casos, explorar a pé é catártico, mas no final há apenas um caminho possível sem muitas possibilidades de escolha.

A campanha, na dificuldade padrão, tem algo em torno das sete a dez horas dependendo do desejo dos jogadores em cumprir missões secundárias e acumular um pouco mais de experiência para si e para as armas que carrega. Há um bom fator de rejogabilidade pela possibilidade de se elevar cada armamento ao máximo, aproveitando principalmente o bônus mais generoso no nível mais extremo de perigo.

Esta longevidade do jogo está atrelada, porém, ao se ter ou não companhia para as missões, principalmente as mais avançadas, da segunda metade da campanha pra frente. Isso porque, sendo um jogo pautado pela colaboração em quatro pessoas, a versão single player fica abaixo no que tange a experiência, com seus parceiros controlados pela CPU agindo de forma autônoma, mas sem brilho. A IA do jogo não é das piores, e eles até se viram relativamente bem por conta, mas são bastante limitados quando é necessário algum protagonismo. Ou seja, eles reagem bem ao ambiente, mas são péssimos no quesito pró-atividade, dependendo demais de comandos para ações simples.

O que lhes falta de atitude sobra no carisma, entretanto. Como dito no início do texto, há todo um esforço para estabelecer estes personagens dentro de um conceito similar ao que Carpenter fazia em seus filmes, criando figuras incompletas e cheias de defeitos, mas ainda assim passíveis de nos relacionarmos com elas. O roteiro tem suas preferências e há mais destaque para uns do que outros, mas no geral, funciona muito bem.

Esta narrativa ganha pontos pelo belo trabalho gráfico do jogo, que flerta com a mistura entre um realismo exagerado e uma certa caricatura de si mesmo. São traços fortes e um bom uso de cores dentro de um escopo obviamente sombrio, que abusa do trabalho de iluminação para criar cenários isolados e com rastros da destruição pregressa por todos os lados. Postos de gasolina, galpões industriais ou casinhas modestas no meio do mato são exemplos de uma ambientação preocupada em trazer um passado emergente.

A parte sonora é um espetáculo à parte, com destaque para composições certeiras que abusam do eletrônico catártico e que se adaptam bem à dicotomia entre a exploração mais cadenciada e os momentos de batalha ininterrupta. É inevitável não prestar atenção também no trabalho de vozes tipicamente afetado, cheio de piadocas mal intencionadas e da galhofa calculada em uma ótima interpretação da equipe de atuação. Os efeitos de combate também se provam eficientes, mesmo que sem muito apelo ou inovação, compondo uma mixagem bem encaixada e competente.

Tudo isso só valoriza o bom desempenho do jogo, mesmo compartilhando a partida online com conexões distintas. Exceto por um desencontro ou outro, John Carpenter’s Toxic Commando surpreende ao conseguir segurar a estabilidade mesmo com dezenas – quiçá centenas – de inimigos em tela, explosões, tiros e outros efeitos dinâmicos acontecendo ao mesmo tempo. A Saber Interactive sabe, de fato, lidar bem com multidões.

Como um quarentão desajeitado sem medo do ridículo, John Carpenter’s Toxic Commando não tem qualquer intenção de reinventar a roda ou revolucionar o mercado de games, da mesma forma como os filmes do diretor que empresta seu prestígio ao título jamais foram reverenciados por elementos de inovação ou questionamento da linguagem cinematográfica. Colocar as expectativas no lugar certo, nos dois casos (tanto cinema quanto game) é a chave mestra para o melhor proveito da experiência proposta.

Com um combate intenso e bem resolvido; mapas interessantes para tarefas regulares que levam a história adiante; e personagens com carisma e identidade que nos transportam para o estilo oitentista de se criar boas aventuras, o jogo aposta em uma receita de sucesso para que, sem afobação ou ganância, possa encontrar um lugar de muito respeito entre entusiastas de uma boa jornada de heróis desajustados. Nem sempre queremos assistir, pois, um clássico da sétima arte, e muitas vezes só queremos nos esparramar no sofá e ver alguns malucos com humor duvidoso esfarelarem uma horda de canalhas. O mesmo vale para um os videogames.

John Carpenter’s Toxic Commando está disponível para PS5, Xbox Series e PC sem localização de vozes, mas com legendas em português do Brasil. Esta análise foi produzida jogando no PS5 padrão e realizada com um código fornecido pela Focus Entertainment.

Veredito

Talvez John Carpenter’s Toxic Commando esteja longe de propor qualquer novidade em um mercado já bastante saturado de shooters cooperativos para até quatro pessoas contra inimigos demoníacos. Mas possivelmente esta seja também a sua maior virtude, pois o jogo refina tudo aquilo que veio antes e, como resultado, oferece uma aventura leve, equilibrada e absolutamente divertida de se vivenciar, principalmente jogando ao lado de bons amigos.

80

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