Análises

Call of the Elder Gods – Review

Desenvolvido pela Out of the Blue Games e publicado pela Kwalee, Call of the Elder Gods é o tipo de sequência que entende perfeitamente o que fez o jogo anterior funcionar, mas também sabe que repetir a mesma fórmula sem evolução seria um erro. Mesmo sendo um jogo mais ambicioso do que Call of the Sea, ele mantém aquela identidade muito específica de aventura narrativa focada em exploração, mistério e quebra-cabeças cerebrais, só que agora envolta numa atmosfera mais pesada, melancólica e psicologicamente inquietante. O resultado é uma experiência que parece misturar literatura lovecraftiana, filme de mistério sobrenatural e puzzle game em doses equilibradas.

Call of the Elder Gods

A trama acompanha Harry Everhart e Evangeline Drayton numa investigação ligada a desaparecimentos, artefatos misteriosos e eventos que desafiam qualquer compreensão lógica. Inspirado em “A Sombra Fora do Tempo”, de H.P. Lovecraft, o jogo tem como um dos pontos mais fortes da experiência a narrativa. Existe um cuidado na construção da atmosfera e dos diálogos, fazendo com que vários momentos pareçam mais cenas de um filme ou páginas de um livro do que propriamente um jogo tradicional. O ritmo é mais contemplativo, mas raramente cansativo, justamente porque Call of the Elder Gods não peca por exagero e sempre existe alguma descoberta interessante esperando logo adiante.

Harry funciona muito bem como protagonista porque carrega claramente o peso dos acontecimentos do primeiro jogo. Ele não é aquele personagem exageradamente dramático típico de histórias de horror psicológico; parece apenas cansado, alguém tentando seguir em frente depois de descobrir coisas que preferia nunca ter conhecido. Já Evangeline traz uma energia diferente, mais curiosa e inquieta, funcionando como um contraponto importante para Harry durante toda a aventura.

Call of the Elder Gods

Call of the Elder Gods também acerta bastante na forma como apresenta seus diálogos. Frequentemente você participa de conversas em que escolhe perguntas e aprofunda determinados assuntos, o que ajuda muito na imersão. E embora as cutscenes sejam praticamente estáticas na maior parte do tempo, isso não chega a prejudicar a experiência. Na verdade, combina bastante com a proposta mais intimista e narrativa do jogo.

Visualmente, Call of the Elder Gods talvez não impressione quem espera gráficos absurdamente detalhados, porque olhando de perto é possível perceber texturas simples e certas limitações técnicas. Mas isso importa muito menos do que parece. O grande mérito está na direção artística e na construção dos ambientes. Os cenários conseguem ser extremamente bonitos sem depender de hiper-realismo. A mansão na Nova Inglaterra transmite perfeitamente aquela sensação clássica de mistério lovecraftiano, enquanto os cenários congelados, desertos e cidades fora do tempo criam uma variedade visual muito forte ao longo da campanha. Existe personalidade em cada lugar visitado, e isso acaba tornando a exploração constantemente interessante.

Call of the Elder Gods

Mas é nos puzzles que Call of the Elder Gods realmente mostra sua força. Curiosamente, o jogo quase se vende mal nas primeiras horas, porque os desafios iniciais são simples demais e passam uma impressão equivocada sobre o restante da experiência. Durante a introdução, parece que os quebra-cabeças existirão apenas para complementar a narrativa sem oferecer qualquer dificuldade real, mas isso muda bastante conforme a campanha avança.

A complexidade dos puzzles cresce de forma gradual, mas muito perceptível. Em pouco tempo você começa a lidar com enigmas bem maiores, mais interligados e que exigem atenção constante aos cenários. Não basta apenas encontrar pistas espalhadas pelo ambiente; é necessário interpretar essas informações usando lógica e observação.

E Call of the Elder Gods entende muito bem como transformar observação em mecânica. Às vezes o detalhe importante não está escondido, apenas posicionado num ângulo que você ainda não percebeu. Isso faz com que vários quebra-cabeças tragam uma sensação genuína de investigação, onde o jogador realmente precisa analisar o ambiente ao redor em vez de apenas seguir marcadores objetivos.

Call of the Elder Gods

Claro que isso também significa momentos de frustração ocasional. Existem puzzles em que provavelmente você ficará preso mais tempo do que gostaria, especialmente quando deixa passar alguma informação aparentemente pequena. Mas, felizmente, a maioria dos desafios faz sentido dentro da lógica do próprio jogo. Quando a solução finalmente aparece, geralmente existe aquela satisfação de perceber que todas as pistas estavam ali desde o começo.

O sistema de diário ajuda bastante nesse aspecto. Conforme encontram informações importantes, os personagens registram automaticamente detalhes relevantes que podem ser revisitados a qualquer momento. Dependendo do puzzle, muitas vezes basta abrir o diário e reorganizar mentalmente as informações para enxergar a solução. Ao mesmo tempo, Call of the Elder Gods oferece opções para quem prefere uma experiência mais desafiadora. É possível desabilitar certas assistências, incluindo anotações automáticas e dicas. Isso muda completamente a dinâmica da exploração, porque você passa a depender muito mais da própria memória e percepção dos ambientes.

Call of the Elder Gods

A alternância entre Harry e Evangeline também ajuda bastante na variedade do jogo. Além de trazer perspectivas narrativas diferentes, isso permite que os puzzles explorem abordagens distintas ao longo da campanha. Os dois personagens lidam com o desconhecido de maneiras muito diferentes, e isso se reflete tanto nos diálogos quanto no ritmo das seções protagonizadas por cada um. Em alguns momentos, inclusive, você precisará controlar ambos quase que simultaneamente, alternando entre os dois quando necessário, o que deixa tudo ainda mais dinâmico.

No fim, Call of the Elder Gods entende perfeitamente o público que quer atingir. Ele não tenta ser um jogo de terror focado em ação ou sustos constantes, nem busca impressionar apenas pelo espetáculo visual. Toda a experiência gira em torno de atmosfera, mistério, exploração e quebra-cabeças inteligentes. E mesmo quando certas limitações técnicas aparecem ou alguns puzzles passam um pouco do ponto na dificuldade, o conjunto continua envolvente. Existe uma identidade em tudo aqui, desde os cenários até a escrita dos diálogos.

Call of the Elder Gods

É aquele tipo de jogo que constantemente desperta curiosidade. Você sempre quer descobrir mais uma pista, abrir mais uma porta, entender mais um símbolo estranho ou ouvir mais uma conversa entre os personagens. E quando uma obra consegue manter esse sentimento durante praticamente toda a campanha, significa que ela acertou exatamente no que se propôs a fazer.

Call of the Elder Gods está disponível para PS5, Xbox Series, Switch 2 e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Kwalee.

Veredito

Call of the Elder Gods consegue entregar uma experiência consistente dentro daquilo que se propõe: uma aventura narrativa focada em mistério, atmosfera e quebra-cabeças inteligentes. A escrita dos personagens, a ambientação lovecraftiana e a evolução gradual dos puzzles tornam a campanha constantemente envolvente, enquanto a direção artística e a trilha sonora ajudam na criação de sua identidade. Há certas limitações técnicas visuais e alguns momentos de frustração causados por puzzles exigentes, mas o conjunto final mostra uma sequência segura, madura e bem construída, especialmente para quem gosta de jogos mais contemplativos e investigativos.

84

Bruno Ribeiro

Jornalista por formação, professor de inglês por ocupação (e por amor), e escritor já há mais de 20 anos, mas que só agora tomou vergonha na cara e resolveu se dedicar mais a essa área, publicando alguns trabalhos e escrevendo sobre jogos, uma de suas grandes paixões.

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