Análises

Avatar: Frontiers of Pandora – Das Cinzas – Review

A mais nova parte da trilogia cinematográfica de Avatar, intitulada Avatar: Fogo e Cinzas (ou Fire and Ash, no original) criou oportunamente uma janela bastante promissora para que o game da Ubisoft baseado neste universo lançado há pouco mais de dois anos também ganhasse sua própria expansão que aborda o Povo das Cinzas, uma organização dos Na’Vi conhecida como o Clã Mangkwan.

Os paralelos entre o jogo e os filmes da franquia bilionária criada por James Cameron foi, desde o princípio, um dos seus maiores trunfos narrativos. Toda a concepção transmidiática da obra, compondo um todo bastante coeso mesmo que suas tramas não se cruzem diretamente para além de referências e citações. O trabalho é cuidadoso, bem amarrado e se prova um verdadeiro deleite para quem aprecia um bom universo compartilhado. E este novo fragmento valoriza tal característica de forma ainda melhor do que o terceiro longa-metragem.

Ambientado meses após o fim do jogo base e também algum tempo após os acontecimentos do filme mais recente, a RDA retornou com ainda mais poder de fogo e influência à Floresta Kinglor, apoiados por essa liderança nativa que, diferente dos nossos protagonistas, acredita na purificação por meio da destruição. O elemento fogo (diferente da terra na história inicial ou da água na continuação) é, em todos os sentidos, o maior dos símbolos do ciclo do fim para um novo começo.

So’lek, uma das figuras de mentoria mais importantes do jogo original, se torna o personagem central deste enredo depois de eventos que quase tomaram a sua vida e tudo o que ele tem. Estamos diante de uma nova jornada de redenção, de busca pelo significado da vingança e da eterna luta entre os donos daquele lugar e seus usurpadores. Porém, diferente do que fora visto antes, a coisa aqui é muito mais objetiva, direta e pessoal.

Como é característico dos conteúdos complementares anteriores, este novo epílogo da aventura primordial economiza tempo nas apresentações, primeiro porque já considera que sabemos tudo o que há pra saber daquele mundo, e segundo porque não há grandes adições mais significativas na jogabilidade com a qual estamos acostumados pelas dezenas de horas anteriores, salvo um ou outro comando mais pontual devidamente apresentado já na introdução.

Isso significa que, mesmo com alguns rápidos tutoriais e diálogos contextuais nos trazendo de volta à Pandora, vale a pena resgatar o save antigo para quem já tiver vivenciado as Fronteiras de Pandora e, assim, retomar algumas mecânicas básicas de sobrevivência, crafting e exploração a pé ou sobre montaria, porque tudo isso será bastante útil e não há muitos momentos de respiro ou readaptação por aqui.

Este resgate não é uma obrigatoriedade, entretanto. Diferente das DLCs anteriores, presentes na versão mais recheada do jogo base, From The Ashes pode ser acessada diretamente por um metamenu que, curiosamente, é independente (e espelhado) da interface conhecida e já tradicional dos jogos da Ubi. Isso significa que mesmo que seja aconselhável dar aquela relembrada (principalmente para quem está há meses ou anos afastado), não há qualquer impedimento por jogar Das Cinzas depois, antes ou mesmo durante a campanha do jogo original.

Na prática, é quase que um game menor à parte, e mesmo obviamente não podendo ser considerado um conteúdo stand alone, é bastante independente. O conteúdo extra considera o save anterior muito mais para caracterizar nossa Sarentu em entradas pontuais, mas a aventura funciona em outro espaço-tempo, e dá tranquilamente para alternar entre ambos sem que o progresso de um interfira no avanço do outro e vice-versa, aproveitando-se da distinção entre os avatares sob nosso controle.

A nova região, conhecida como As Gargantas (ou The Ravines) é isolada e significativamente menor em escopo de território, reforçando o caráter mais pontual e emergencial da aventura. Ela tem algumas das mesmas características físicas do que já vimos antes, com mata fechada, biodiversidade aflorada, espaços verticais bem evidentes, bases inimigas para infiltração e desmonte, e outros ciclos dinâmicos com os quais estamos acostumados. Sua maior diferença está nos incêndios significativamente presentes que não só mudam a paisagem já bastante machucada pela presença humana, como também traz novos perigos e missões paralelas.

Não é só do desastre ambiental e narrativo que a DLC trata, contudo. Há algumas novas adições pontuais que lhe trazem um certo respiro, começando pelo embate com outros Na’Vi, que por si carregam diferenças importantes em relação aos humanos. Nossos conterrâneos são mais ágeis e resistentes, funcionando quase sempre – tanto nas missões centrais como nas secundárias – como combates contra sub-chefes, além de serem bem mais espertos ao utilizarem a vegetação e a geografia como elemento de posicionamento estratégico.

Para atender novas e velhas demandas, nosso inventário é notadamente diferente do original, tanto na disposição de equipamentos quando na progressão e melhoria deles. Mais do que buscar novas armas e armaduras mais poderosas como anteriormente, a ideia aqui é potencializar aquilo que já temos em mãos a partir de incrementos feitos com itens coletados na natureza ou como espólios das batalhas travadas. Funciona, é prático ao poder ser feito a qualquer momento desde que tenhamos coletado os requisitos, e evita que fiquemos carregando tralhas e mais tralhas descartáveis.

As novas animações de finalização são um espetáculo à parte, sobretudo nos confrontos aéreos, e mesmo no chão, quando somado à nova possibilidade de se jogar em terceira pessoa (atualização esta que independe da aquisição da DLC e está disponível para quem já tem o jogo, vale destacar), trazem uma nova dimensão da vivência naquele universo, o distanciando definitivamente da visão rasa de Avatar: Frontiers of Pandora ser basicamente um Far Cry tematizado. Felizmente, por mais que hajam semelhanças, ele é muito mais do que isso.

Avatar: From The Ashes é um conteúdo, no geral, mais intenso do que a aventura anterior. Não só pela temática mais pesada e, por vezes, até mais sombria, mas por não se agarrar ao deslumbramento costumeiro da franquia, artifício que já parece desgastado nas diferentes linguagens. Pandora segue sendo uma projeção de uma natureza dos sonhos, mas as feridas e as cicatrizes causadas pelo conflito nunca foram tão cruas.

Sim, ainda teremos uma ou outra cena onde a paisagem se abre, a música em coral solene sobe e as coisas parecem exuberantes, quase que como um vício difícil de superar, mas tudo isso dá lugar rapidamente à ação constante, à urgência e ao sentimento de revide do nosso herói perturbado. O background que So’lek traz consigo é muito mais denso que grande parte dos personagens de Avatar vistos anteriormente em qualquer que seja a mídia.

Para os veteranos da jornada ou para quem já conhece bem o modelo Ubisoft de mundos abertos, entretanto, é importante destacar que não há aqui uma reinvenção completa da roda, mas sim um refinamento de arestas. O formato de progressão, a nova árvore de habilidades, a dinâmica de ir até o ponto A para pegar a pista B, chegar lá e arrasar com as tropas inimigas, ouvir alguém no rádio e repetir o processo segue sendo o que há de mais constante na campanha.

A alternância entre arcos leves e pesados, armas de fogo e apetrechos também está mantido, e mesmo que o novo protagonista seja forjado principalmente para o uso da força, a abordagem furtiva ainda é uma das mais importantes recomendações, já que a dificuldade escala rapidamente não só pelo malditos traidores da nossa espécie como também pelas novas unidades robóticas mais agressivas e resistentes.

Por outro lado, não há como evitar dizer que Das Cinzas é o que há de melhor (ou pior, dependendo das preferências do jogador) naquilo que Avatar: Frontiers of Pandora já oferecia, tal como os filmes tem significado um para o outro. A exploração continua eficiente, aquela lua é belíssima enquanto conjunto, mas fora dos pontos de interesse, as andanças à esmo valem só pela coleta e pela caça repetitivas; o combate é confortável e funcional; e a navegação por terra ou pelo ar são incríveis, à exceção do parkour que, particularmente, me incomoda mesmo com bons artifícios para escalada.

É, por fim, um complemento que valoriza a obra principal, sem descaracterizá-la e sem redundâncias que parecem não sair do lugar. Ainda assim, oferece um mais-do-mesmo para quem já andou bastante por este mundo de metáforas, principalmente se jogou a campanha completa e os complementos anteriores. Vai valer a pena para quem busca uma boa desculpa para voltar àquele universo, mas certamente não vai mudar a ideia de quem não se conectou com o que havia visto até então. Fico feliz por ser parte do primeiro caso porque, mesmo em chamas, Pandora segue sendo incrível.

Avatar: Frontiers of Pandora – From The Ashes (Das Cinzas) está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC  (via Ubisoft Store, Epic Games Store e Steam) e também é parte da assinatura Ubisoft+, com dublagem e legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão de PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Ubisoft.

Veredito

Sem surpresas ou grandes inovações criativas, Avatar: Frontiers of Pandora – Das Cinzas é coerente com o que o jogo original havia estabelecido, adicionando uma nova área totalmente conectada à temática do terceiro filme e elevando um novo personagem ao status do protagonismo. Com alguns ajustes de interface, adições bem-vindas dentre inimigos nativos e estrangeiros e alterações sutis no gerenciamento de equipamentos, a campanha mantém a mesma estrutura sólida já conhecida, e Pandora, mesmo incendiada, continua sendo um lugar incrível para se explorar.

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