Esta análise será sobre Moss: The Forgotten Relic, um jogo de puzzle e plataforma que reúne dois títulos antes disponíveis apenas para aparelhos de realidade virtual e os converte para os meios convencionais, isto é, as telas planas. No entanto, permitam-me desviar para um preâmbulo sobre o principal tema estético que o jogo traz: fantasia de ratinhos.
Na ficção, os ratos são adoráveis. Ou melhor, os camundongos. Em português, não precisamos diferenciá-los com tanta firmeza, mas, em inglês, mouse (camundongo) and rat (rato) são animais vistos de maneiras bem diferentes e apenas os primeiros recebem o prestígio da fofura.

É verdade, veja bem: eles protagonizaram livros desde o século XX (Um Conto de Dois Ratos Levados, de 1904, a série de fantasia medieval Redwall, iniciada em 1986, e A História de Desperaux, de 2003), histórias em quadrinhos (Mouse Guard: Os Pequenos Guardiões, desde 2006) e filmes em animação (Bernardo e Bianca, de 1977, e A Ratinha Valente, de 1982, ambos baseados em livros, e ainda Fievel: Um Conto Americano, de 1986). Até os rats tiveram seu momento de brilhar em Ratatouille, de 2007.
É claro que os videogames não ficam de fora e têm belos exemplos, como o envolvente Ghost of a Tale, os brutais Tails of Iron e o encantador Winter Burrow (ainda espero que este último venha ao PS5). Para quem quer um RPG de mesa nesse tema, recomendo Mausritter, que é simples, acessível e gratuito em português.

Não, o camundongo mais famoso do mundo, Mickey Mouse, não se encaixa nessa mesma categoria porque ele é um caso do conceito “referente ausente”. Isto é: apesar da aparência de rato, ele é mostrado ao público como uma pessoa humana, com relações humanas, fazendo coisas humanas, não de rato.
É este o gancho para voltar a Moss: o jogo se trata de uma fantasia de ratinhos, e, assim como as obras que mencionei acima, conta não apenas com a aparência do bicho, mas também com as relações com outras espécies animais e as proporções de tamanho. No game, os camundongos são seres pequeninos em um mundo muito maior que eles. Eles construíram uma civilização da Europa medieval, com rei e castelo, mas ainda são minúsculos, menores que esquilos, pássaros, sapos e plantas, o que os mantém num ponto vulnerável da cadeia alimentar.

A graça do tamanho diminuto é que cada coisa que é comum para nós, os jogadores-leitores, ganha novos contornos e se torna grandiosa, misteriosa e perigosa: um matagal é quase uma selva, um laguinho é um pântano perigoso, enquanto ramos e espinhos são obstáculos ao nosso caminho.
Nossa protagonista é Quill, que se vê unida a uma entidade etérea chamada de Leitor e deve salvar o antigo reino roedor da ameaça dos autômatos dos Arcanos. Aqui entra uma dose de metalinguagem, pois o Leitor representa a própria pessoa que joga. Toda a história de Moss acontece dentro de um livro, contada para nós por uma narradora competente que também faz todas as vozes de personagens, assim como alguém que lê um conto para outra pessoa.

Nós olhamos para aquele mundo de cima, como quem vê as páginas de um grande tomo. A diferença é que, sendo um jogo, nós podemos interagir diretamente com o mundo. Controlamos Quill como em qualquer aventura tridimensional. Adicionalmente, controlamos com o analógico direito o cursor do Leitor, movendo certos objetos e dominando inimigos mecânicos para ajudar Quill em sua demanda épica.
Ela olha diretamente para o Leitor, isto é, para nós, demonstra sua satisfação e até pede um “toca aqui” na patinha quando quer comemorar. Assim, formamos com a pequena roedora uma dupla, como diz o Livro I, ou melhor, uma díade, como diz o Livro II (é uma pequena inconsistência cuja consequência única é nos transmitir uma falta de cuidado na coesão).
Essa relação foi pensada para o design original de Moss de realidade virtual, construindo uma dinâmica em que observamos e habitamos aquele mundo do ponto de vista do Leitor.

A principal mudança é que, agora, não somos livres para olhar ao redor. O ângulo da câmera muda automaticamente de acordo com a posição de Quill para facilitar a visualização do local. Na maioria das vezes, isso dá certo e o movimento casa organicamente com a composição do cenário.
Em outras, porém, sofre de efeito paralaxe, isto é, quando a perspectiva distorce a noção espacial e não conseguimos reconhecer distâncias e alturas com a exatidão necessária. Na prática, isso significa muitos pulos errados e quedas indesejadas. Como Moss é desenhado para ser primeiramente um game de puzzles com plataforma, a parte de “plataforma” da díade acaba sendo prejudicada pela falta de precisão.

Para somar a isso, a movimentação de Quill é um pouco pesada e a travessia dos cenários tem regras fixas, como o fato de que a ratinha só pode agarrar e subir em beiradas demarcadas. Portanto, devemos controlá-la com calma e alinhar os pulos direitinho.
Felizmente, a parte de “puzzles” é engajante e agradável, solucionando uma sala por vez enquanto progredimos. Nem sempre achei as interações e objetivos intuitivos, mas isso não chegou a ser um empecilho e não demorava até descobrir o que tinha que ser feito.

Além de uma adaptação, The Forgotten Relic é também uma coletânea, pois compila os dois jogos em um só. Ambos são acessíveis de imediato pelo menu principal, mas é fortemente recomendável começar pelo Livro I. É nele em que a história do mundo é estabelecida e a ratinha Quill se vincula ao Leitor e empreende sua jornada até se tornar uma guerreira.
O Livro II, por sua vez, resume os acontecimentos de seus predecessor e continua imediatamente de onde ele parou, aumentando as proporções da trama e trazendo até reviravoltas.
No fundo, os dois formam uma só aventura, anteriormente lançada em duas partes. Por mais encantador que deve ter sido jogar o primeiro Moss em realidade virtual, imagino a surpresa de quem chegou ao final e se deparou com um grande final em aberto. Uma decepção, talvez, mas também a promessa de que havia mais magia para o futuro.

Tanto por essa natureza inacabada quanto por suas limitações de escopo, o Livro I parece ter sido um experimento arriscado em um meio incerto e de nicho, a realidade virtual. Não deve ter sido nada legal esperar quatro anos para ter a continuação, em 2022, porém, vendo retrospectivamente, a divisão em duas partes parece ter sido uma escolha acertada, pois permitiu testar o público, o mercado e também ganhar experiência com a tecnologia e suas possibilidades.
O resultado é que o Livro II é mais robusto que o primeiro, tanto em quantidade, com mais ou menos o dobro da duração, quanto em qualidade. Ele aprofunda o que o primeiro trouxe, aprimorando o que era limitado no primeiro, como o combate pouco diversificado, por exemplo, e também os acertos, deixando o que já era muito bonito ainda mais exuberante e encantador.

Quem pode jogar os dois títulos de Moss na realidade virtual ficará melhor como está. O restante, como eu, tem muito a aproveitar, pois, embora perca o aspecto imersivo da tecnologia, o jogo é o mesmo e permanece cativante em suas quase dez horas de duração, que podem ser aumentadas ao rejogar os capítulos em busca dos colecionáveis que ficaram para trás.
Moss: The Forgotten Relic está disponível para PS5, Xbox One, Xbox Series, Switch, Switch 2 e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Polyarc Games.



