Lançado primeiramente para PCs em 2024 e passando por diversas atualizações, Hollowbody, jogo de survival horror inspirado nos títulos de PlayStation 2 finalmente chega este mês nos consoles. Sua história se passa em um futuro distópico onde no ano de 2065, controlamos Mica, uma transportadora que decide invadir um local chamado Zona de Exclusão na tentativa de resgatar sua parceira desaparecida, Sasha, que sumiu há doze dias. A introdução cinematográfica do jogo tenta vender um conceito cyberpunk fascinante, com direito a carros voadores e uma estética tecnológica promissora. No entanto, essa ideia futurista se mostra uma enorme propaganda enganosa: ela fica restrita quase que exclusivamente a essa introdução. Assim que o hovercraft de Mica cai nas ruas da zona isolada, o gameplay se transforma em um survival horror genérico e descaracterizado.

A história começa chamando a atenção de que se desenvolveria de forma intrigante, mas perde o fôlego e o rumo com o avançar do jogo. O roteiro tenta inflar o universo jogando informações através de arquivos (files) espalhados pelos cenários, como fazem os diversos jogos do gênero, mas muitos deles não conversam bem entre si. Na teoria, eles deveriam aprofundar o world-building; na prática, essas notas criam tramas paralelas que não levam a lugar nenhum e são simplesmente largadas pelo caminho. Você continua avançando sem entender direito o que o jogo quer contar sobre aquela cidade e aquelas pessoas. No terço final, o sentimento de homenagem dá lugar a um incômodo: o jogo passa a fazer cópias descaradas e ruins de elementos de história de Resident Evil e, principalmente, do gameplay de Silent Hill, abandonando qualquer tentativa de ter uma identidade própria. Para fechar o arco narrativo de forma melancólica, tanto os múltiplos finais quanto o epílogo são extremamente decepcionantes. Terminei a história me questionando “é isso?”.

Se a narrativa falha em amarrar suas próprias pontas, o combate e o ritmo da jogabilidade também não ajudam a injetar adrenalina na experiência. Para um jogo focado em horror e sobrevivência, falta o mais importante: a sensação de perigo iminente. Não fiquei tenso nem assustado em momento algum. O jogo oferece uma variedade aceitável de armas brancas (como uma guitarra) e de fogo (pistolas e espingardas), mas usá-las não traz emoção. O impacto dos golpes é fraco e a jogabilidade carece de polimento tátil. Não senti necessidade de usar a espingarda em momento algum. Não há desafio em momento algum da campanha. Os monstros comuns vagam pelas ruas e corredores com designs genéricos de humanoides cinzentos que parecem não ter sentido nenhum dentro do contexto da história. Falta algo como um inimigo mais forte obrigatório, de um perseguidor pelas ruas ou de batalhas de chefes ao fim de alguma sequência de uma forma que quebrassem a monotonia de apenas explorar. Como as criaturas normais são lentas e previsíveis, você passa boa parte do tempo apenas correndo livremente pela cidade, já que é perfeitamente possível ignorar qualquer ameaça e passar direto por elas sem disparar um único tiro. Terminei o título com muita munição e itens de cura de sobra.
Os enigmas, que costumam ser a alma desse gênero, sofrem com uma visível falta de equilíbrio em Hollowbody. O jogo transita sem meio-termo entre puzzles extremamente bobos e óbvios e outros absurdamente obtusos, onde você precisa praticamente adivinhar informações do além ou apelar para tentativas e erros exaustivos para decifrar um código. Não existe aquele meio-termo saudável onde você se sente inteligente ao desvendar um mistério; ou é um obstáculo chato ou uma barreira sem lógica. O HUD do mapa é algo que também me incomodou, pois tenta emular o visual tecnológico cyberpunk de forma tão exagerada que se torna horrível de enxergar e confuso de entender.

A câmera padrão dinâmica, que altera os ângulos automaticamente, falha drasticamente nas transições. Quando a perspectiva muda abruptamente, os comandos de movimento do analógico não se adaptam à nova direção da tela de forma fluida. É um problema clássico de inversão de comandos que até mesmo os jogos originais do PS2 conseguiam contornar melhor em suas devidas proporções.
Mas para mim o ponto mais inacreditável para a atual geração de consoles foi apenas um: telas de carregamento. Presenciar telas de loading demoradas ao transitar entre os mapas no hardware do PS5 é inadmissível. E não era para fazer uma homenagem aos Resident Evil clássicos como se tivesse uma porta ou algo assim. Não. Era apenas um carregamento de 5 segundos ao sair de um apartamento para a cidade. Em determinados momentos, a transição passou dos 10 segundos de espera, algo difícil de aceitar em 2026, quando até grandes produções AAA de mundo aberto extremamente pesadas conseguem eliminar essas pausas por completo.

Com uma campanha curta que pode ser liquidada em menos de 4 horas, o jogo se apoia fortemente na boa vontade do público órfão do início dos anos 2000. É um título feito sob medida para quem tem uma tolerância muito alta para mecânicas antigas propositais e sente falta daquela atmosfera sombria dos títulos da época. No entanto, se você pertence às gerações mais novas, ou busca um jogo de terror moderno polido, o título vai parecer apenas um passeio ultrapassado e vazio. Vale a pena pela curiosidade de prestigiar um projeto feito com baixíssimo orçamento, o que pode compensar em uma boa promoção (existem indies pelo mesmo preço que terão um tempo de jogo maior, por exemplo). Ao menos, para os caçadores de troféus, a platina é extremamente fácil, rápida e exige poucas repetições, podendo ser conquistada em menos de 10 horas de dedicação.
Hollowbody está disponível para PS5, Xbox Series e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Headware Games.



