007 é uma franquia que sobreviveu a gerações. Num mundo pós-Guerra Fria, conseguiu se adaptar com os filmes de Pierce Brosnan e Daniel Craig. O que o futuro nos reserva para o cinema com o personagem é difícil de saber no momento.
Nos games, James Bond conseguiu um sucesso estrondoso por causa de GoldenEye 007 no Nintendo 64. A obra-prima da Rare deixou o espião em evidência no mundo dos videogames e, apesar de vários jogos nos anos seguintes, poucos realmente se destacaram (com exceção de Everything or Nothing que é excelente). Após a licença passar pelas mãos da Activision, chegou a vez da IO Interactive, conhecida por Hitman, mexer (perdão, bater, não mexer) com o clássico agente secreto. E, sinceramente, conseguiram produzir um ótimo título.
007 First Light é uma aventura furtiva cinematográfica em terceira pessoa, resumidamente. A ideia é que temos uma história de origem de James Bond, quando ele ainda não era um agente 00 e dava os seus primeiros passos na MI6. Apesar de ser algo inicial, vários personagens clássicos dão as caras, como Moneypenny, Q, M e outros. Além das “bondgirls”, é claro.
Em questão de enredo, First Light é excelente. A história realmente parece um filme de Bond, com vilões memoráveis, uma trama de espionagem adaptada aos tempos modernos e algumas reviravoltas interessantes. Fãs do personagem vão gostar do que está aqui.
No entanto, há algo nessa parte do desenvolvimento da história que chega a ser cansativo: as partes “walking simulator” digamos assim.
Como dito, 007 First Light é uma aventura cinematográfica. A campanha é linear (não há nada de mundo aberto), com várias cutscenes e gameplay com algumas partes “mais abertas” para você explorar, mas limitadas (pense numa festa; você pode andar por todo o ambiente ou ir direto ao objetivo, mas não pode sair do local). Há momentos de furtividade e de combate, os quais falaremos mais adiante. Mas o que existe também são partes em que Bond segue um NPC amigável que vai falando pelos cotovelos, principalmente quando está na MI6.
Na primeira vez que isso acontece, a conversa é interessante, porque leva a história adiante. Mas imagino que, numa segunda vez que jogar a campanha, isso se tornará irritante, pois não há como avançar (ao contrário das cutscenes).
A campanha single-player é dividida em capítulos e, como dito, segue uma história linear. Ao longo dela, em vários momentos, Bond precisa infiltrar em um local. É nesses momentos que 007 First Light brilha.
Vamos exemplificar: Bond precisa entrar num local específico que valoriza o silêncio, mas está cheio e só quando alguém sair é que você pode entrar. O que você pensa em fazer? Ao ativar as lentes Q com L1, você verifica todas as opções de objetos que podem ser interagidos. Uma opção é ligar o rádio e esperar alguém sair. Outra é lançar um dardo que faz uma pessoa passar mal e sair do local também. E provavelmente há outras formas ainda.
Cada situação possui inúmeras formas de abordagem e cabe a você decidir qual adotar e como tentar fazer. É realmente muito divertido isso, porque o jogo valoriza a sua criatividade.
Em relação ao gameplay dessa parte de furtividade e análise do ambiente, é algo simples – R1 corre e coloca você no cover (cobertura), R3 agacha e como dito, L1 ativa as lentes Q, mas você pode usar alguns acessórios de Q que vão desde aos dardos citados a um laser que cega temporariamente alguém ou uma bomba de fumaça. De novo, cabe ao jogador escolher o que mais gosta de usar.
Mas e a parte de tiroteio? Existem e são divertidas, mas não são a prioridade. Durante a jornada, Bond recebe diferentes avisos no topo da tela: no mais simples, o nosso agente é pedido para sair do local se for pego e nada mais que isso. No segundo nível, ele começa um combate corpo a corpo se for visto. Já no “reforços a caminho” é que, no nível anterior, alguém ativou um alarme ou conseguiu pedir reforço no rádio. Por fim, licença para matar é o combate com armas de fogo e só acontece quando um NPC inimigo tem a intenção clara de matar Bond.
Ou seja, as armas de fogo só são usadas em último recurso – a história deixa isso claro e o jogo segue à risca. Bond precisa depender mais de seus acessórios, de seus blefes e de seus golpes físicos do que a sua clássica Walther PPK.
A parte de tiroteiro não tem muito o que comentar: Bond pode carregar duas armas (uma pistola e uma arma maior que pode ser coisas como rifle ou shotgun) que são pegas dos inimigos caídos. Conforme elimina inimigos, você ganha “instinto”. Se apertar L3, o jogo fica lento para poder mirar com calma e que gasta esse instinto. O ambiente é altamente destrutível, então há várias opções para eliminar os inimigos, desde os clássicos barris explosivos a até estruturas inteiras que podem ir abaixo.
Já o combate corpo a corpo possui mecânicas que lembram um Batman: Arkham. Ou seja, quadrado é soco (podendo variar a sequência ao segurar um botão nos combos que existem), X desvia de ataques indefensáveis (o inimigo brilha vermelho quando isso acontece) e O é a defesa (de golpes na coloração amarela). Ao defender corretamente, logo surge a oportunidade de contra-atacar. Por fim, R2 agarra o inimigo que defende muito, podendo até mesmo jogá-lo de alguma beirada.
O combate é muito divertido, mas existem pequenos problemas nele. O primeiro defeito são as animações: todas são muito boas, mas são poucas e você verá as mesmas frequentemente. Chega até a ser bizarro que um mercenário realiza um “roundhouse kick” e, logo em seguida, você vê um cientista fazendo a mesma coisa.
Já outro defeito do combate é pegar os itens pelo cenário para jogar nos inimigos. Quando está em modo furtivo, é fácil: aperte R2 e pronto. Mas no meio do combate, você vai ver o prompt na tela e, ao invés de pegar o item, Bond tentará agarrar o inimigo, o qual provavelmente já está atacando você. Chegou a um ponto que larguei mão de pegar item no combate, porque não conseguia. Tinha que ser outro botão para isso.
Um pequeno problema que provavelmente vai ser consertado é os erros de conexão. Não sei se é porque joguei antes do lançamento oficial (mas de forma autorizada pela IO Interactive, é claro), mas em toda a campanha aconteceram erros de conexão com os servidores – provavelmente uns dez ou mais.
Não se engane: 007 First Light pode ser jogado offline sem problemas, mas se estiver conectado e inclusive criar uma conta IO Interactive, há alguns bônus e por isso é interessante fazer isso online. Meu receio é que, com o jogo público, ocorra esses problemas de conexão com muita frequência – principalmente no lançamento. No meu caso, era algo pequeno: a mensagem aparecia, pressionava X, o jogo reconectava e pronto, não perdia nada e continuava jogando normalmente no mesmo local. Por isso é um problema “pequeno”.
Ainda sobre o online, podemos falar sobre um modo extra chamado TacSim. É basicamente um “Arcade”, com trechos da campanha pensados para você jogar com um sistema de pontuação. Você evolui nesse local e tem acesso a mais equipamentos e itens cosméticos, como diversos trajes. É um modo que tem bastante potencial e parece que vai receber conteúdo novo com frequência – a própria IO Interactive promete algo em breve que não foi visto na campanha, por exemplo.
007 First Light é um jogo com uma duração ideal: finalizei em cerca de 15 horas, aproveitando a história e sem muita pressa em terminá-lo. O modo TacSim aumenta esse número significativamente, assim como a busca pelos vários colecionáveis e os diversos Desafios. Os Desafios são basicamente conquistas in-game que pedem ações muito específicas e, na maioria dos casos, são caminhos diferentes do que você optou quando avançou na campanha. Os Desafios não estão atrelados ao troféu de platina, então teremos dois tipos de jogadores nessa situação (os que se importam apenas com troféus e os que gostam de fazer 100% em tudo).
É inegável o valor da produção de 007 First Light. É um jogo redondo, com quase nenhum bug (não sofri nenhum travamento), um ótimo desempenho técnico mesmo no PS5 base (joguei em um monitor 1440p a 60 fps e não tenho do que reclamar) e os atores são, em sua maioria, sensacionais.
O jogo possui legendas em português do Brasil, mas essa parte tem pequenos problemas: há momentos em que apareceram prompts incompletos ou errados dos comandos, assim como traduções equivocadas por desconhecer o contexto (por parte do tradutor). Por exemplo, você notará que Bond fala algo como continuar no elevador (descendo) e a legenda diz que está subindo. Ou até mesmo o prompt de ir para o “cano” nas escaladas: imagino que “climb” ou algo do gênero foi traduzido para “subir”. Então toda vez que aparece um cano, aparece o prompt de “subir”, mesmo que ele esteja literalmente em seus pés para que você desça. É algo mínimo, mas que você acaba notando.
No fim, 007 First Light é excelente. Gameplay muito variado, com diferentes abordagens, situações e mecânicas, além de chefes muito bons, uma história digna dos filmes e uma parte técnica ótima, tanto nos gráficos quanto no desempenho.
São pequenos problemas, como as animações de combate repetidas e as conversas intermináveis com alguns NPCs, que não o tornam eterno como um diamante.
007 First Light está disponível para PS5, Xbox Series e PC (e em breve no Switch 2) com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela IO Interactive.












