Análises

Kamikaze Lassplanes – Review

Em um primeiro momento, Kamikaze Lassplanes pode ser objetivamente descrito como uma mistura entre visual novels de traços típicos de mangás e animações orientais — com certo fetiche erotizado — e os clássicos jogos de “navinha” (ou shoot ‘em up, para quem prefere um termo mais formal) de progressão lateral. Em certa medida, esta definição não estaria errada, ainda que esteja longe de transmitir as sutilezas surpreendentes da obra.

Na trama, assumimos o papel de Walter, um piloto de prestígio que tem a responsabilidade de manejar (na falta de um termo mais adequado) as tais Lassplanes que batizam o título: a principal arma secreta do Reino de Velestia em um período conturbado de conflitos intermináveis e uma sensação de que tudo o que há de mais belo parece estar desmoronando.

Estas máquinas de combate são mulheres que se transformam em aviões (em um processo chamado de sincronia mecano-orgânica) quando se faz necessário. O conceito pode parecer difícil de aceitar, mesmo considerando este universo steampunk que mescla fantasia com tecnologia retrô, mas, graças a uma condução sensível da narrativa, a história nos convence pouco a pouco — principalmente pela construção de personagens cativantes com as quais verdadeiramente começamos a nos importar ao longo da campanha.

Isso ocorre porque o triângulo de amizade e romance estabelecido entre o protagonista e as jovens Hannah e Alba se apropria muito bem de artifícios que fazem o enredo alternar entre a comédia romântica e o drama existencial. A obra busca retratar a crueza da guerra e o efeito devastador que ela causa, e quando imaginamos que as escolhas feitas definirão apenas o destino amoroso destas figuras, elas nos levam a lugares mais profundos, muitas vezes sombrios e perturbadores.

Sem adentrar demais na trama para não estragar revelações impactantes, o roteiro é muito competente ao trazer questionamentos pertinentes para um momento onde discutimos os limites entre o natural e o artificial. O texto flerta com temas que misturam influências pouco ortodoxas, passando pelo horror corporal de A Substância e A Mosca, até as questões de crise de identidade de Ghost in the Shell ou O Homem Bicentenário.

O desdobramento da história em diferentes finais, aliás, valoriza os questionamentos éticos e morais que provocam o jogador em pontos-chave, ainda que carregue consigo a tradição de não oferecer tantos momentos de escolha relevante como gostaríamos. O objetivo não é estabelecer aquele velho maniqueísmo simplista de finais bons ou ruins, mas criar um verdadeiro “efeito borboleta” onde as decisões são mais complicadas — e por isso mesmo, mais interessantes — do que apenas ser herói ou vilão.

Claro que, por mais densa que seja a proposta de criar metáforas ou propor reflexões sobre a humanidade, a roupagem não deixa de resgatar o espectador com momentos de leveza e ternura. São doses de doçura temperadas com uma certa “pimenta” que certamente agradará ao público devido a uma direção de arte que mescla colorização vibrante e traços ousados.

O uso de uma estética reconhecidamente ecchi (um tipo de apelo sensual pautado muito mais pela sugestão do que pelo explícito) para representar as personagens que interagem conosco é um recurso que certamente não será unânime. Contudo, encontra aqui uma ótima representação artística, com ilustrações de grande qualidade, sobretudo nas figuras centrais em primeiro plano.

A composição dos cenários, porém, acaba brilhando menos, com a repetição de ambientes em cenas que vão e voltam para os mesmos pontos. Essa falta de variedade em locais internos e externos, públicos ou privados, acaba sobrecarregando a potencialidade de imersão dos diálogos e situações que, embora estejam acima da média do gênero, definitivamente não buscam reinventá-lo.

Curiosamente, é nas passagens de ação, quando assumimos o comando das aeronaves, que o mundo de Velestia se revela em todo o seu esplendor. Esta ambientação com profundidade pseudo-tridimensional traz regiões bem desenhadas que, com a ação em primeiro plano, parecem muito mais orgânicas que a composição em camadas dos trechos narrativos.

Em combate, tanto os efeitos de partículas quanto a pirotecnia intensa — artifícios que, em poucos, mas relevantes casos onde há muita coisa explodindo em tela, causam rápidas quedas no framerate — se unem a texturas mais palpáveis. Elas contrastam com os traços limpos das ilustrações convencionais, uma dicotomia que pode causar estranhamento, como se ambos os momentos não fizessem parte de uma obra coesa, mas à qual nos acostumamos ao longo das 4 a 5 horas de campanha.

A integração entre os longos diálogos com escolhas ramificadas e as fases de tiroteio aéreo se dá pelas pequenas bonificações que o enredo oferece ao combate, sobretudo quando ambas as Lassplanes estão disponíveis e conseguimos identificá-las por suas particularidades. Ignorar diálogos, se comportar de forma grosseira ou criar antipatia junto às suas companheiras, por exemplo, pode resultar em um funcionamento restrito e falho e suas versões de combate, um detalhe que pode passar batido por muita gente, mas se prova um dos grandes trunfos do jogo.

Para além desta característica prática, o ponto pacífico entre as duas facetas do jogo está na qualidade do áudio: tanto nos efeitos das passagens no ar quanto nas vozes bem interpretadas (mesmo com o uso questionável, mas evidente, de composições por IA) que, de outra forma, poderiam provocar cansaço mesmo para quem já está adaptado ao estilo dos romances visuais. Tudo isso é acompanhado por uma trilha musical comedida, mas assertiva.

Sobre o sistema de combate propriamente dito, este é outro dos grandes acertos pouco arriscados de Kamikaze Lassplanes. O modelo arcade de progressão consegue equilibrar a agressividade de batalhas intensas sem ser excessivamente repressor na dificuldade padrão, lembrando os melhores exemplos deste formato consagrado desde os anos 1980 e que teve seu ápice nos anos 1990. Agora, quem se arrisca nos níveis mais altos, vai compreender como singelos jogos de navinha podem ser brutais e, nada raro, injustos.

A variedade de inimigos exige adaptabilidade e atenção, em uma frequência praticamente ininterrupta até o inevitável chefe ao final da fase. Os padrões de ataque inimigo, todavia, são previsíveis; o maior desafio não é antecipá-los, mas sim reagir às investidas coordenadas. Para tanto, contamos com power-ups bem-vindos para aguentar o impacto, principalmente porque evitar danos ganha uma camada extra ao saber o que isso significa diegeticamente.

Entretanto, da mesma forma que na dinâmica dos trechos em visual novel, as mecânicas shmup pouquíssimo avançam no aspecto conceitual ou na profundidade de customização. Ao mesmo tempo que há um certo conforto por comandos familiares, a percepção evidencia que há pouca inovação em relação ao que veio antes, se apoiando em sistemas consolidados e protocolares.

As janelas e intervalos entre os projéteis inimigos são, mesmo nas dificuldades elevadas, generosas na comparação com clássicos punitivos. Isso significa mais maleabilidade para o jogador se desvencilhar da pressão, o que pode ser um alívio para novatos e entusiastas da metade narrativa, mas não é um alento no nível “Velestia em Chamas”, que compensa esta flexibilidade com volume, com muita – muita mesmo – coisa acontecendo na tela ao mesmo tempo, beirando a insanidade.

Há a possibilidade, aliás, de evitar o aspecto narrativo em um modo secundário que se resume às fases de voo. Ele nos leva diretamente à ação, mas retira do jogo tudo o que lhe é mais peculiar: as motivações do plot. Funciona como um passatempo complementar, mas perde a relevância contextual se considerado por si só. Algo que, por outro ângulo, não é um grande problema para quem prefere jogar ao lado de uma companhia de sofá, já que aqui é possível aproveitar o bom e velho multiplayer local para explodir pelos ares qualquer coisa que se mexer pela frente sem se preocupar demais com os porquês.

Como um todo, Kamikaze Lassplanes é um jogo onde a dualidade se torna seu maior trunfo, ainda que seja também a fonte de seus maiores desencontros. Alternar entre ação intensa e narrativa intimista pode parecer uma ideia balanceada, mas o ritmo de um fatalmente pode entrar em conflito com o do outro, não conseguindo desenvolver nenhum dos extremos (menos um do que o outro) a contento.

Se analisados como partes do todo, há um claro favorecimento para a parte visual novel, que mesmo sem quaisquer grandes inovações, consegue extrair de uma premissa quase esdrúxula uma história genuinamente envolvente, sensível, profunda e cheia de alegorias que podem alcançar o público de formas diferentes. Já o lado shooter da coisa é igualmente pouco inovador, mas mesmo considerando este aspecto, não consegue ser melhor que a grande maioria das melhores de suas principais referências.

Kamikaze Lassplanes está disponível para PS5, Xbox Series, Switch e PC (via Steam) sem textos ou vozes localizados para o português do Brasil. Esta análise foi produzida jogando no PS5 padrão e realizada com um código fornecido pela Crunching Koalas.

Veredito

Kamikaze Lassplanes faz da sua mistura inusitada entre visual novel e shooter de navinha seu maior ponto de atenção, mas acaba sofrendo as consequências por buscar conjugar gêneros de ritmos tão distintos entre si. Enquanto sua narrativa traz um pressuposto estranho, mas que consegue se sustentar ao longo da campanha, sua parcela de ação parte de boas bases sem contudo ir muito além disso, resultando em uma obra tocante e ousada, mas também inconsistente.

70

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