É sempre muito bom ver um jogo vestir suas influências com orgulho como ocorre com Motorslice. Desenvolvido pelo estúdio brasileiro Regular Studio, que havia trabalhado anteriormente em Togges, ele chega com uma proposta bem legal focada muito mais em parkour e movimentação do que em seu combate e um universo bem único, com uma personalidade e estética bem singulares.
Citando como parte das suas influências jogos como Prince of Persia e Mirror’s Edge, o jogo te coloca no papel da jovem P, uma Slicer, basicamente uma exploradora que consegue se mover pelo mundo (e derrotar inimigos) usando uma motosserra, que, logo após resgatar um estranho drone chamado Orbie, recebe logo no comecinho da narrativa a missão de se infiltrar na Megaestrutura e destruir todas as máquinas existentes ali dentro. Como ela vai fazer isso? Bom, essa parte fica por conta dela (e do jogador) descobrir.
Ao longo da sua jornada, vários pequenos pontos de lore vão sendo encontrados e que vão expandindo a sua jornada junto com Orbie, com P descobrindo mais sobre a Megaestrutura, sua existência e funcionamento à medida em que vai subindo por ela. Nada aqui é jogado na sua cara por longos diálogos expositivos, com o jogador recebendo o suficiente para lhe deixar intrigado pelos próximos momentos e seguir explorando o mundo.
O primeiro ponto que irá te cativar em sua jornada são os cenários de Motorslice. Embora seja um jogo linear de Plataforma e Ação em 3D, vários dos seus cenários são bem amplos e te dão múltiplas alternativas para decidir como lidar com seus desafios. Com a verticalidade sendo um ponto fundamental para a jornada, você verá sempre grandes estruturas subindo a perder de vista e quedas gigantescas, estruturas industriais suspensas por guindastes que podem (e devem) ser usadas para se movimentar e todo tipo de grande obra arquitetônica que puder imaginar.
É tudo muito grandioso e o estilo mais low-poly que o jogo adota, ele usa bem a engine para compensar isso justamente nessa grandiosidade dos cenários e expansão do draw distance que se combinam muito bem e, apesar de tecnicamente você estar sempre na mesma estrutura, há uma variedade bem legal à medida em que você vai avançando pelas diferentes áreas que compõem o lugar. Isso ajuda a fechar a ideia do fim de cada capítulo e um novo grande desafio a ser vencido.
Toda essa estética ajuda a reforçar o principal elemento do jogo: sua mobilidade. A movimentação é o cerne do gameplay do jogo, com desafios bem complexos de plataforma ficando progressivamente mais desafiadores à medida em que você vai avançando pelas mais ou menos 10 horas de duração do jogo. Pode parecer simples falar que o básico é ir de A para B, mas não só é bem desafiador descobrir como você fará isso (o que o torna muito divertido), mas a própria forma de fazê-lo, com o jogo trazendo várias mecânicas diferentes para isso, incluindo wall jump, wall running e a própria motosserra que pode ser usada para se movimentar vertical ou horizontalmente.

O único ponto que talvez demande um pouco de adaptação é que a movimentação do jogo tem uma responsividade um pouco mais lenta, o que acaba exigindo uma certa adaptação do jogador, mesmo que isso venha com um pouco de frustração também. Não é nada que torne o jogo impossível de se jogar ou nada nem perto disso, mas ele não tem a mesma resposta acelerada que parece mais comum nos jogos atuais. Não que perder colecionáveis ou algo assim por uma queda que parece não ter sido sua culpa seja legal, mas realmente vai se tornando menos comum com o tempo.
Nem só de plataforma vive Motorslice e o jogo traz algumas sessões de combate também. Embora sejam algo bem menor e menos frequente do que o parkour, você encontrará algumas máquinas ao longo da sua jornada que precisam ser destruídas com a sua motosserra. Para isso, o jogador tem à sua disposição ataques rápidos e um ataque carregado, além da possibilidade de, entre outras coisas, dar um parry em discos e arremessá-los de volta contra os inimigos. É um combate funcional, mas que é a parte mais frustrante do jogo graças ao timing que exige uma precisão que nem mesmo no parkour se vê.
Um último ponto importante é que, ao final de cada área, você enfrentará um chefe gigantesco que traz à tona o que parece ser outra das grandes inspirações do jogo: Shadow of the Colossus. Aqui seu trabalho será todo focado em escalar o chefe até encontrar o ponto de vulnerabilidade dele para dar o golpe final. É, sinceramente, onde tudo parece se encaixar perfeitamente, trazendo alguns dos melhores e mais recompensadores desafios de plataforma do jogo e com uma inventividade cada vez maior para os desafios que você enfrentará.

No geral, então, Motorslice é um jogo que, apesar de alguns problemas, como a responsividade dos controles e o combate que é suficiente mas nada muito memorável, é bem satisfatório. Você sairá das 10 horas que o jogo dura em média feliz de ter investido seu tempo nele, especialmente se você, como eu, viveu os tempos áureos do PSX. A trilha sonora, aliás, é outro ponto que contribui bastante para enriquecer a atmosfera do jogo e merece muitos elogios também.
Então, se você gosta de jogos de Plataforma e Ação e jogos com uma ambientação mais no estilo de um Shadow of the Colossus ou Mirror’s Edge, Motorslice é o jogo perfeito para você. É o tipo de experiência que nos deixa bem feliz de ver um estúdio brasileiro desenvolvendo, já que ocupa um lugar muito pouco visitado mundo à fora e mostra que nossos jogos não tem deixado em nada à desejar quando comparados com jogos similares feitos ao redor do globo.
Motorslice está disponível para PS5, Xbox Series e PC. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Top Hat Studios.




