Se você jogou o primeiro GRIME, já sabe que ele não era exatamente um passeio no parque. GRIME II, lançado pela Kwalee, pega essa base e expande praticamente tudo — escala, liberdade, variedade e até a paciência que o jogador precisa ter. Ainda assim, ele consegue transformar frustração em recompensa de um jeito que poucos jogos do gênero fazem hoje.
Você controla um Sem Forma, uma entidade capaz de absorver criaturas e assumir moldes inspirados nelas. Cada inimigo derrotado pode virar uma ferramenta, seja para combate ou exploração. E aqui já dá pra perceber uma das grandes evoluções do jogo: a liberdade absurda que você tem para decidir como jogar. Diferente do primeiro, onde em alguns momentos parecia que você precisava seguir um caminho mais engessado, em GRIME II os desenvolvedores da Clover Bite claramente quiseram abrir as portas. Você não é mais forçado a usar um item específico ou uma habilidade obrigatória para avançar — existem várias formas de resolver o mesmo problema, e isso muda completamente o ritmo da experiência.
Mas isso também traz um detalhe curioso: é totalmente possível avançar bastante no jogo sem usar tudo o que ele oferece. Em vários momentos, percebi que estava ignorando mecânicas importantes, principalmente por esquecer que essas mecânicas existiam. Quando finalmente lembrava de usar certos moldes, habilidades ou interações com o ambiente, vinha aquele pensamento inevitável: “isso teria facilitado tanto antes”. O jogo não te obriga, mas ele te recompensa muito quando você decide explorar melhor suas possibilidades.
Em relação ao combate, GRIME II abraça sem medo a filosofia de tentativa e erro. Os chefes parecem absurdamente difíceis no começo — ataques confusos, padrões difíceis de ler, dano alto. Você dá literalmente seu sangue pra tirar 5% de vida de um inimo, e ele te mada com dois golpes. É aquele tipo de luta que te faz pensar que talvez você não esteja preparado. Mas aí vem o clique. Depois de quinhentas tentativas, você começa a entender os movimentos, identificar as janelas de ataque e perceber que, na verdade, tudo estava ali desde o início. A dificuldade não some, mas você começa a enxergar uma luz no fim do túnel.
O sistema de aparar e agarrar também tem um papel importante nisso, e o uso dos tentáculos do Sem Forma não é só estiloso, mas essencial. Assim como o uso do ambiente: mais do que desviar de ataques ou encontrar plataformas escondidas, o cenário pode ser uma arma. Dá pra usar elementos ao seu redor para causar dano e criar vantagens estratégicas. E, novamente, entra naquela ideia de que o jogo te dá ferramentas, mas não necessariamente te obriga a dominá-las imediatamente. Se você negligenciar essas mecânicas, vai sofrer mais. Se abraçá-las, tudo começa a fluir melhor. E acredite: mais cedo ou mais tarde você entende isso.
A exploração é uma das melhores partes da experiência. O backtracking aqui é absurdamente bem trabalhado. Sabe aquela sensação de sempre ter algo pendente no mapa? GRIME II transforma isso em um ciclo viciante. Você desbloqueia uma nova habilidade, lembra de três lugares que não conseguia acessar antes, volta, descobre caminhos novos, encontra segredos, e de repente está completamente perdido. Uma dica: use sempre os ícones disponíveis no mapa para marcar os lugares ainda inalcancáveis, e volte depois para conferir se alguma habilidade recém-adquirida já pode te ajudar com isso.
GRIME II continua com aquela direção artística única: cenários feitos de elementos incomuns, criaturas bizarras e civilizações estranhas criam uma identidade muito forte. É o tipo de jogo que você reconhece só de bater o olho. Além disso, há uma boa variedade de locais e culturas, o que ajuda a manter a exploração interessante ao longo de tantas horas.
E falando nisso, GRIME II é significativamente mais longo que o primeiro. Eu, que tenho o hábito de explorar absolutamente tudo, já tinha passado das 40 horas e ainda sentia que estava longe do final. Isso pode ser ótimo para quem gosta de se perder no jogo, mas também pode ser um pouco cansativo para quem prefere experiências mais diretas. É claro, muitas áreas e até mesmo bosses são opcionais, mas cada item encontrado e ponto de tributo conquistado podem deixar sua aventura mais fácil no futuro, então na maioria das vezes vale a pena investir um pouco do seu tempo nisso.
Um dos pontos que pode dividir opiniões é a quantidade de diálogos. O jogo tem muitos NPCs, consequentemente muitos diálogos, e vários deles são longos. Para quem gosta de mergulhar na lore, isso é um prato cheio. Mas se você não estiver no clima, pode acabar ficando cansativo. A boa notícia é que a maioria dessas interações é opcional. Em muitos casos, basta não selecionar determinadas opções de conversa e seguir em frente.
Por outro lado, há problemas técnicos que incomodam mais do que deveriam. Durante a minha experiência, encontrei alguns bugs, como teleportes aleatórios que acontecem do nada e marcadores de missão indicando lugares onde simplesmente não havia nada. Mesmo após atualizações, esses problemas ainda persistiam até o momento em que finalizei essa análise. Não chegam a quebrar completamente o jogo, mas são o tipo de coisa que tira você da imersão e pode gerar frustração desnecessária.
No fim das contas, GRIME II é uma sequência que entende muito bem o que funcionava no original e decide expandir isso ao máximo. Ele é maior, mais ambicioso e oferece muito mais liberdade. Às vezes até liberdade demais, a ponto de o jogador acabar não aproveitando tudo que o jogo tem a oferecer. Mas isso também faz parte do charme — cada experiência pode ser diferente, dependendo de como você decide jogar.
É um jogo exigente, que pede paciência, atenção e vontade de experimentar. Mas em troca, entrega uma jornada rica e desafiadora. Mesmo com alguns problemas técnicos e certos excessos, ele consegue se destacar como um metroidvania extremamente sólido e memorável. Se você gosta de exploração profunda, combates exigentes e liberdade para construir seu próprio estilo, GRIME II provavelmente vai te prender por dezenas de horas.
GRIME II está disponível para PS5, Xbox Series e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Kwalee Gaming.








