O cinema de Paul Verhoven se caracterizou por algumas peculiaridades muitas vezes subestimadas, com obras que conseguiam tanto atender quem buscava a ação bem filmada em tramas suficientemente complexas quanto para tratar de temáticas em camadas bem aprofundadas que refletiam problematizações sobre a sociedade e a organização norte-americana do final do século passado.
Destacam-se questões trabalhistas, corporativas e da violência em Robocop: O Policial do Futuro, até hoje um marco da ficção científica, e também o menos aclamado, mas não menos incrível Tropas Estelares (ou Starship Troopers, no original) que trazia uma discussão pertinentemente ácida sobre a cultura da guerra e a lógica bélica da invasão ao território alheio, bem como e o convencimento da opinião pública sobre a importância do apoio irrestrito aos esforços de guerra.

Starship Troopers: Ultimate Bug War! não é exatamente uma continuação desta franquia que, nos anos seguintes ao inesperado sucesso do longa original, teve sequências no cinema ou em vídeo por demanda um pouco menos inspiradas que a produção original. É uma trama paralela que se passa no mesmo universo, e se desenha não só como um relato de missões ocorridas com uma personagem em especial, mas também ele mesmo uma propaganda militar.
Logo de início, as cenas em FMV (full motion video) estabelecem um tom satírico, trazendo de volta o ator que interpretara John Rico agora como um importante general, estabelecendo uma relação narrativa e emocional com o que já se conhece deste universo. A canastrice da atuação dele e de outros personagens que aparecem entre uma fase e outra é um dos maiores acertos do game, e um aceno para um contexto atual cuja discussão é ainda mais presente na mídia e, claro, na arte.

Nosso ponto de vista do eterno conflito com estes artrópodes superdesenvolvidos é pelos olhos e pela experiência da Major Samantha “Sammy” Dietz, em um jogo diegeticamente produzido pela FedDev, uma desenvolvedora de softwares bancada pela própria Federação dos Cidadãos Unidos e, portanto, uma peça de publicidade (e treinamento) com um viés altamente dedicado a construir uma visão heroica do que se vende como um esforço para defesa da galáxia.
No mundo real, Starship Troopers: Ultimate Bug War! se configura como um jogo single player de tiro em primeira pessoa organizado em fases desenhadas em espaços relativamente abertos, cada qual com uma série de missões independentes que se encadeiam até um conflito final. Ao lado de outros soldados treinados (e descartáveis) como nós, encaramos os malditos insetos em locais como Klendathu, seu planeta natal, além de colônias humanas destruídas pelos conflitos contínuos.

A aparente liberdade de movimentação em cada nível é orquestrada por um level design bastante funcional, mas sem grandes inspirações criativas mais evidentes. Os pontos de interesse são distribuídos por um mapa normalmente denso, mas ao mesmo tempo vazio de conteúdo, salvo encontros com monstros espalhados, um ou outro segredo complementar, e a busca por recursos de reposição de munição e armadura. É uma navegação adequada, mas lhe falta o carisma de seus personagens.
Por outro lado, as boas mecânicas de combate são precisas, com um charme peculiar que se assemelha muito a um estilo clássico, mas com base em sistemas mais recorrentes nos tempos atuais de movimentação, mira e uso de recursos complementares, como granadas e outros apetrechos de suporte. É como um encontro orgânico entre o modelo grosseiro e direto de um boomer shooter com as modernidades estruturais mais contemporâneas de FPS modernos. Sem grandes revoluções, é um modelo muito bem ajustado e, pelo lado humano, eficiente.
Há méritos em contar com um arsenal parrudo que conta não só com metralhadoras, escopetas e fuzis característicos do gênero, muito bem adaptados ao universo de Tropas Estelares, como também o uso constante de recursos disponibilizados em pontos estratégicos, como explosivos, pontos de convocação de reforço aéreo, torretas estratégicas e mechas poderosos. Não faltam opções para mandar nossos inimigos pelos ares.
Pelo ponto de vista contrário, porém, a ideia é mais interessante que a execução. Isso porque as fases, assim que vencidas, permitem que as adentremos pelo outro lado do embate, o que significa incorporar um inseto tendo que lidar com essa escória bípede chamada humanidade. É um estilo mais caótico de se jogar, com opções como a invocação de aliados para ataques coordenados, a metamorfose que nos permite percorrer o espaço voando, dentre outras especificidades típicas destes seres tão especiais. Mesmo assim, é desajeitado, impreciso e desconfortável, e a diversão fica muito mais no plano das ideias do que na coisa em si.

São passagens que valem a pena tanto serem jogadas em formato alternado à campanha principal quando depois, como um modo independente, e o jogo permite ambas as abordagens sem quaisquer burocracias. Aliás, poder adentrar trechos já vencidos a qualquer momento, em qualquer ordem, na dificuldade que quisermos, é um aspecto de liberdade de ação e longevidade da produção que, por mais convencional que possa parecer, aumenta sua vida útil ao permitir mais escolhas a todo momento. Simples, mas por isso mesmo bem-vindo.
Outro aspecto cujo conceito é muito mais interessante que a sua aplicação é a escolha estética da obra, que busca o estranhamento com personagens intencionalmente mal definidos, com visuais que remetem diretamente a shooters de décadas atrás, como Doom, Quake, Duke Nukem e outros. São personagens compostos por voxels evidentes e poucos pontos de posicionamento, algo que contrasta com a fluidez da movimentação da nossa protagonista.

Tanto humanos quanto inimigos acabam visualmente deslocados de cenários bem mais arredondados e relativamente bem definidos, mas com texturas mal acabadas, arestas grosseiras e um certo desleixo proposital em ambientes outros, por mais que algumas paisagens tenham sim o seu brilho especial. A mistura tem um claro propósito de emular uma produção barata feita como peça de marketing por um órgão ligado ao aparelho de guerra, e não é só uma aparente incapacidade técnica real, mas o resultado desta emulação é arriscado e afeta a experiência.
A maior evidência desta escolha está no uso de animações de baixíssima qualidade no plano de fundo, quando por exemplo vemos enxames enormes de inimigos quando sobrevoamos uma área, ou quando vemos outros pontos de conflito como contexto de fundo. Os adversários em PNGs ridiculamente animados são toscos, esquisitos e hilários, mas ao mesmo tempo, o jogo acaba se provando uma sopa de técnicas esquisitas que servem ao propósito conceitual, mesmo que em sacrifício de si mesmo.

Esta talvez seja a maior diferença entre a Starship Troopers: Ultimate Bug War! e as obras que o inspiraram. Sutileza não é exatamente uma marca do cinema de Verhoven, mas o filme original se permitia, pela qualidade do ritmo narrativo e da cinematografia, ser aproveitado por quem não era alcançado pelos temas entrelinhas, por quem não se importa com elas ou até por quem discorda da crítica. Tropas Estelares pode ser apreciado “só” como um ótimo filme de ação.
Já o jogo depende da compreensão destes propósitos mais escancarados para ser bem degustado em suas pretensões. O público que não estiver pré-disposto a compreender, aceitar e embarcar no tom de sátira ácida para com o tema e também em relação à própria indústria dos videogames e seus propósitos nem sempre dedicados somente à arte certamente não terá aqui grandes incentivos, já que sem o comentário político-social, Starship Troopers: Ultimate Bug War! é um game comum, com elementos de FPS tecnicamente inferiores a quaisquer outras opções no mercado.

Ainda assim, se não é exatamente genial e se não vai estabelecer um novo paradigma para o gênero, é um game bem resolvido em suas mecânicas de combate em espaços quase abertos e com uma diversidade de ambientação que vai para além do esperado. Longe de ser sisudo e de se levar a sério demais como grande parte dos jogos (e dos filmes) atuais, seu diferencial é saber lidar com temas pesados da forma mais leve possível, provando que não é preciso ser chato para tratar de assuntos difíceis.
Todo o exagero no tom é algo tão intrínseco a ele que é impossível separar uma coisa da outra, e pode até ser que eu não tenha me esbaldado com uma experiência memorável e nem esteja disposto a entrar para o exército, mas com certeza fiquei com vontade de rever o filme original pela vigésima vez toda que adentrava esse mundo novamente. E são poucos produtos inspirados em outras mídias que tem esta capacidade de valorizar e potencializar aquilo que veio antes.
Starship Troopers: Ultimate Bug War! está disponível para PS5, Xbox Series, Nintendo Switch 2 e PC (via STEAM) sem localização de vozes, mas com legendas em português do Brasil. Esta análise foi produzida jogando no PS5 padrão e realizada com um código fornecido pela Dotemu.




