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Legacy of Kain: Defiance Remastered – Review

Após um longo período trancafiado nas profundezas dos calabouços da Crystal Dynamics, a saga Legacy of Kain parece estar finalmente saindo das sombras.

Pouco mais que um ano atrás, recebemos Soul Reaver 1&2 Remastered, em uma empreitada conjunta da Saber Interactive e Aspyr Media, e os outros três jogos da série (Blood Omen 1 e 2, e Defiance) estavam disponíveis para PlayStation 4 e 5 através do catálogo de PlayStation Classics. Defiance, inclusive, havia sido adicionado ao catálogo recentemente, em setembro do ano passado, e isso só aumentou o elemento surpresa quando essa nova remasterização foi revelada.

Durante o último State of Play, Legacy of Kain: Defiance Remastered foi anunciado e, ainda por cima, com uma data de lançamento iminente, menos de um mês a contar daquela data. Mas não se engane, não se trata de um trabalho rápido ou caça-níqueis; muito pelo contrário, na verdade.

Legacy of Kain: Defiance Remastered

Antes de entrar em detalhes sobre a remasterização, gostaria de oferecer um breve contexto sobre o jogo original. Lançado em 2003 para PlayStation 2, este é o capítulo final da saga do espectro Raziel em uma história elaborada e repleta de narrativas que atravessam os tempos em sua busca por redenção ou vingança contra seu antigo mestre, Kain. Não à toa, a sua escritora, Amy Hennig, ainda considera a saga seu melhor trabalho, e arrisco dizer que é esse lore profundo e envolvente que consolidou o status cult dos jogos, mantendo uma base de fãs leais mesmo após todo esse tempo em torpor.

Defiance reúne, pela primeira vez, os protagonistas Kain e Raziel em um jogo mais linear, com uma estrutura similar ao então recente Devil May Cry. Dividido em treze capítulos alternando entre os dois personagens, cada qual com motivações e objetivos próprios, existem algumas áreas mais abertas que incluem elementos de exploração, plataforma, e até mesmo alguns enigmas — especialmente para Raziel, que ainda pode transitar entre o plano material e o espectral —, mas o foco do jogo está evidentemente em seu sistema de combate.

Nesse aspecto, a idade do jogo é visível. O sistema funciona no que se propõe, mas é bem simples e com baixa variedade, tanto de combinações de ataques como de inimigos, então infelizmente tende a cair na mesmice rapidamente. Apesar de uma grande diversidade em cenários e ambientes, existe uma área em particular (a cidadela vampírica, com seus corredores circulares) que é visitada com frequência, e as mudanças no design para comportar os diferentes elementos ou portais dimensionais são sutis demais para quebrar a impressão de “já estive aqui e já fiz isso antes”.

Legacy of Kain: Defiance Remastered

O que sustenta o jogo, com aproximadamente 12 horas de duração para uma partida às cegas e sem conhecimento prévio, sem dúvidas, é sua narrativa, mas arrisco dizer que requer um engajamento por parte do jogador, e uma familiaridade com os jogos anteriores certamente resultará em um melhor aproveitamento da história conforme ela se desdobra.

O jogo original usava um sistema de câmeras panorâmicas fixas, em ângulos “cinematográficos”, digamos, e esse é um aspecto que foi alvo de críticas na época pois acabava criando uma camada artificial de dificuldade, seja por inimigos fora do campo de visão ou pelas abruptas mudanças da direção em que você estava deslocando o personagem.

Entre as diversas novidades implementadas na remasterização está um novo e livre sistema de câmera, que por padrão segue o personagem em qualquer direção. Assim como tudo, é opcional — e com um simples pressionar de botão, você pode alternar entre a câmera clássica e a moderna —, mas é difícil de voltar para a visão original tendo experienciado a liberdade e a facilidade que a nova alternativa propõe.

Desta vez sob tutela do estúdio PlayEveryWare, a premissa inicial é basicamente a mesma dos trabalhos recentes da Saber e Aspyr. Aliás, cabe notar que diversos desenvolvedores que trabalharam em Soul Reaver 1&2 Remastered e, também, Tomb Raider I-VI Remastered são citados nos créditos. Ou seja, a fundação do jogo permanece inalterada, mas, além da já citada câmera, espere por texturas de alta definição, modelos de personagens e de entidades reconstruídos, e melhorias nos sistemas de iluminação. E o melhor, é tudo opcional, sendo possível alternar para os recursos originais com um simples apertar de botão, assim preservando acesso aos clássicos de outrora por mais algumas gerações.

Legacy of Kain: Defiance Remastered

Mas espere, isso não é tudo.

O motivo pelo qual eu suspeito que esse projeto ficou mais tempo no forno do que a gente imagina é simples: ele é oferecido, pela primeira vez, com localização integral em português brasileiro! Ao contrário do primeiro Soul Reaver, que havia recebido dublagem através de uma iniciativa da publisher nacional dos jogos para computador no início dos anos 2000, e que foi posteriormente resgatada para a remasterização, Defiance jamais contou com qualquer suporte do tipo, e, acertadamente, foi um ponto que não passou despercebido pelos fãs brasileiros quando a remasterização foi anunciada.

O estúdio responsável pela localização é o Rockets Audio Brasil, e embora o elenco não seja o mesmo que havia dublado Soul Reaver duas décadas atrás, os novos intérpretes não deixam a desejar e transmitem bem a sofisticada eloquência dos vampiros. Ademais, o jogo permite combinar legendas em português com o áudio original, que conta com vozes e performances impecáveis de Michael Bell e Simon Templeman, dubladores originais de Raziel e Kain, respectivamente.

Curiosamente, porém, embora a dublagem não apresente falhas, a quantidade de problemas nos textos beira o absurdo. Menus com algumas opções em espanhol ou caracteres cirílicos, seções inteiras de telas internas — principalmente as de teor enciclopédico, que não são poucas — com o texto intocado em inglês, legendas fora de sincronia, ícones ou descrições invertidas para identificar botões… Enfim, considerando o escopo do projeto, e também o que já vimos com jogos anteriores, tratam-se de problemas facilmente corrigíveis através de uma atualização de versão que, nos dias atuais, é uma prática rotineira.

Outro aspecto muito bacana da remasterização é a curadoria de extras. Sem dúvidas, é um deleite para os fãs, incluindo trilha sonora, incontáveis artes conceituais, vídeos de produção, bastidores das gravações originais, skins extras para os personagens jogáveis, e uma coletânea de “Fases Perdidas”: na verdade, pequenas e simples áreas de teste, sem qualquer elemento de gameplay, e algumas delas simplesmente reciclam a arquitetura de forjas da Ceifadora existentes nos jogos anteriores.

Legacy of Kain: Defiance Remastered

Entretanto, a outra face da moeda também se apresenta nessa curadoria. Por algum motivo, alguns extras estão restritos à Edição Deluxe do jogo, entre as quais está o chamado “protótipo” de The Dark Prophecy. É uma ideia descartada para um sexto jogo da série, que foi cancelado antes de sequer ser anunciado, mas, na prática, é apenas mais uma “Fase Perdida”, com menos de 5 minutos de duração e que reusa exatamente as mesmas mecânicas e criaturas de Defiance. Além disso, três histórias em quadrinhos também foram adaptadas para facilitar a leitura no console, uma das quais é em alemão mas que conta com legendas em inglês (e, em tempo, nenhum dos extras possui legendas em português).

Legacy of Kain: Defiance Remastered é uma excelente adição ao crescente rol de restaurações de jogos de outrora, e as novidades, em especial no sistema de câmera, ajudam a torná-lo uma experiência ainda mais agradável, tanto para fãs de longa data quanto para potenciais novos jogadores ingressando nesse universo.

Legacy of Kain: Defiance Remastered está disponível para PS4, PS5, Xbox One, Xbox Series, Switch, Switch 2 e PC com dublagens e legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Crystal Dynamics.

Veredito

Legacy of Kain: Defiance Remastered reanima o último capítulo da saga estrelada pelo espectro Raziel com novidades que vão além de uma simples camada de tinta, tornando a experiência muito mais acessível e agradável do que era originalmente. Em sua fundação, porém, ainda é o mesmo jogo de duas décadas atrás.

85

Lucas Metz

Desde meados dos anos '90, aquele cara obcecado que passa 90% do tempo falando sobre Tomb Raider, e espera que nos outros 10% alguém toque no assunto para continuar falando sobre Tomb Raider. Já no mundo real, apenas mais um joão na fila do pão.

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