Lovish vai na onda dos “contos de fadas às avessas”: jogamos com um cavaleiro que, acompanhado de três heróis da luz (uma clériga, um monge e um mago negro), parte do reino de Cornelius para salvar a princesa raptada.
Acontece que o protagonista de armadura azul não tem nada de herói: é um mesquinho egocêntrico com um elmo mágico que faz com que qualquer um o ame. Querendo a princesa apenas para si, ele sabota o caminho dos outros e adentra sozinho o castelo maligno para prosseguir com seus próprios objetivos.
Não é apenas o clichê de conto de fadas que é subvertido aqui. Se você curte JRPGs antigos, talvez tenha percebido a semelhança ao primeiro Final Fantasy, de 1987, no qual quatro heróis da luz de diferentes classes devem salvar o reino de Cornelia.
Lovish adora fazer referências a jogos retrô, sendo algumas apenas piadinhas nos interlúdios entre fases e outras mais elaboradas, partindo de eventuais batalhas de turnos simplistas até uma dungeon no estilo de Zelda em uma espécie de clone do Game Boy de tela verde.

Digo “eventuais” porque elas realmente surgem em meio aos eventos aleatórios que acontecem sempre que completamos uma fase. Esta é uma das ideias interessantes com as quais o jogo brinca e faz sua aventura divertida, cômica e inofensivamente cínica. Na maioria das vezes os eventos consistem em duas ou três telas narrativas de comédia, como se fossem uma tirinha de quadrinhos.
Por exemplo: o cavaleiro pode encontrar um poço e dele surgir a sinistra Samara, de O Chamado, fazendo-o fugir. Por outro lado, pode encontrar outro poço e surgir a opção de pular nele para descobrir o que tem no fundo, correndo o risco de se espetar em espinhos. Pode encontrar um baú vazio ou com cinco moedas, acompanhadas da narração irônica que diz: “agora você acha que é rico”. Pode até encontrar uma dica de segredo de alguma fase anterior, e por aí vai.

O maior diferencial de Lovish, porém, está na estrutura: temos 70 fases sequenciais, divididas em grupos de 10, sempre culminando em uma luta contra um chefe. Cada fase acontece dentro de uma tela única (ou será que há telas secretas?) e todas são sempre muito curtas, levando em torno de 30 segundos para serem concluídas (e muito mais tempo quando morremos repetidas vezes até passar delas, é claro).
No começo, essa descrição acima parece muito normal, remanescente da era 8-bits na qual o jogo inspira seu visual, mas não demora a percebermos que cada fase tem uma coroa secreta para ser encontrada. O truque na manga é que as fases podem ser revisitadas mais tarde para cumprirmos novos objetivos nelas e ganharmos ainda mais coroas para abrir certas portas. Ou seja: Lovish quer que joguemos suas fases várias vezes.

Darei um exemplo prático: na segunda metade do jogo, um dos eventos me deu um anel que concede uma coroa pacifista para cada fase que terminarmos sem atacar qualquer inimigo. Essa simples diferença nos faz ver o design de níveis com outros olhos, criando desafios alternativos que fazem a repetição valer a pena sem ficar cansativa. A brevidade das fases também ajuda muito nesse quesito, assim como a música vibrante de chiptunes das antigas.
Além disso, gradativamente ganhamos itens com efeitos diversos e também temos à disposição uma lojinha para comprar equipamentos que provêem habilidades como o dash, rendendo mais motivos para revisitar fases com locais antes inacessíveis.

Somadas, essas ideias dão um bom ritmo à campanha, dando a sensação de que estamos sempre avançando e tendo novos segredos a descobrir se resolvermos rejogar trechos já passados. Essa qualidade dura pelo menos até derrotarmos o chefão final pela primeira vez. A partir daí, as surpresas diminuem e a caça às coroas continua.
Em minhas quatro horas para fechar a campanha, coletei apenas 101 das 276 coroas, mas o único incentivo real para continuar é a completude, sem grandes surpresas na gameplay. Ou seja: a aventura é razoavelmente breve e satisfatória para quem só quer curtir plataforma de ação, chegar ao final e rejogar um pouco, mas pode ser prolongada para os que desejam se desafiar e espremer o máximo que Lovish tem a oferecer.

Lovish é o segundo jogo da LABS Works, mesma desenvolvedora do excelente metroidvania Astalon: Tears of the Earth (disponível no PS4). Não cabe a uma análise descrever outro jogo, mas deixo aqui uma forte recomendação a Astalon, que traz uma estrutura ímpar e muito eficiente em exploração e progresso. Lovish, no final de tudo, é um jogo diferente e menos ambicioso que seu predecessor, mas quem gostar de um deles tem grandes chances de apreciar o outro.
Lovish está disponível para PlayStation 5, Xbox Series, Switch 2, PlayStation 4, Switch e PC via Steam com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela DANGEN Entertainment.




