Análises

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties – Review

Yakuza 3 é, facilmente, um dos meus jogos favoritos da franquia. O anúncio do remake no final de 2025 gerou uma tremenda empolgação, uma vez que os remakes anteriores já haviam demonstrado todo seu potencial e qualidade. Dessa vez, os fãs são agraciados com um combo “dois em um”, que inclui também Dark Ties, um stand-alone focado no antagonista da trama.  

Tanto Yakuza 3 quanto Kiwami 3 buscam trazer um lado mais humano e sensível de Kiryu. A história nos leva à belíssima Okinawa, meses após os eventos de Kiwami 2, onde o Dragão de Dojima administra o orfanato Glória da Manhã. Contudo essa paz é abalada quando o terreno do orfanato se torna o centro de uma disputa política e imobiliária ligado a um plano de defesa nacional envolvendo figuras importantes do passado de Kiryu. Disposto a proteger sua nova família, ele deverá retornar para as ruas de Kamurocho a fim de confrontar os perigos que ameaçam seu lar.

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Para aqueles que ainda são novos na franquia, Yakuza 3 era comumente chamado de Blockuza, pois os inimigos passavam a maior parte bloqueando ataques normais. Logo nos primeiros minutos é possível observar que Kiwami 3 vem para acabar com essa fama. O combate beat-up segue o mesmo padrão visto em Like a Dragon Gaiden: The Man Who Erase his Name, sendo bem cadenciado e com pequenas novidades: os ataques críticos ao executar determinadas ações e o Reforço do Dragão que permite causar um poderoso ataque especial. Kiryu conta com dois estilos de luta: o Dragão de Dojima Kiwami com seu moveset clássico e ótimo para lutas um contra um; e o estilo Ryukyu que consiste em ataques com oito tipos de armas diferentes que variam conforme o golpe que executamos. Esse novo estilo, além de ser simples de masterizar, também se mostra muito eficaz ao lidar com inimigos armados ou com grupos grandes.

Também é possível comprar novas habilidades e para isso serão necessários Pontos de Treinamento facilmente adquiridos ao cumprir objetivos da Lista de Treino – a boa e velha Complete List. Por último, a opção de treinar com diversos mestres em prol de conseguir técnicas especiais foi substituída pelo Rank de Treinamento do Dojo Miyazato. Fazendo uso dos mesmo pontos mencionados acima, ao elevar seu rank, Kiryu poderá realizar provas especiais que ao serem concluídas recompensam os jogadores com tais técnicas poderosas.

Além das habilidades e técnicas, Kiryu também pode se beneficiar de acessórios que deixam as lutas ainda mais fáceis, tudo isso através de um telefone celular. O dispositivo é completamente personalizável desde a parte visual como cor, adesivos e ringtones a até chaveiros, antenas e telas de bloqueio que trazem os mais variados efeitos. Se você jogou Like a Dragon Pirate Yakuza in Hawaii seria o equivalente aos anéis do Majima.

No entanto, junto dele vem uma das mecânicas mais desnecessárias de Kiwami 3: a LaLaLa Loveland na qual fazemos amigos pela cidade. Essas amizades possuem níveis e a única recompensa que geram são novos acessórios de celular para compra. Espalhados pela cidade há vários outros acessórios que possuem efeitos semelhantes, portanto focar nas amizades acaba não tendo tanta importância. Acredito que teria sido mais interessante fazer uso do telefone para trazer de volta as Revelations, um dos recursos mais divertidos do Yakuza 3 original e que se encaixaria muito bem com a mecânica de aprendizado de novas técnicas. 

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Um dos pontos que mais gostava na obra original eram os momentos em que a história principal dava espaço para desenvolver a relação de Kiryu com as crianças do orfanato, humanizando ainda mais o personagem. A trama principal era importante, mas essas pequenas pausas focando nos dramas delas ajudavam a trazer ainda mais peso para a jornada de Kiryu em querer proteger seu lar. Isso era uma das coisas que mais estava curiosa para ver em Kiwami 3 e que foram diluídas em um conteúdo secundário chamado Ranque do Papai.

Nele Kiryu poderá realizar uma série de atividades e minigames que vão desde ajudar suas crianças com a lição de casa, participar de competições de captura de insetos, costurar, pescar, disputar partidas do jogo de tabuleiro Reversi Dragão e cozinhar os mais variados pratos elevando seu vínculo com elas e liberando os Eventos de Tempo em Família. Eles correspondem às histórias das crianças que eu havia mencionado anteriormente. Porém aqui elas passaram por algumas mudanças e certos momentos que eram icônicos no original, não estão mais presentes no remake. Foi algo que me decepcionou bastante uma vez que considero esse conteúdo fundamental para o desenvolvimento do personagem e aqui ele é apenas algo completamente opcional. Ainda no orfanato também é possível cuidar de uma horta e de animais que produzem ovos e leite, e administrar uma pequena venda focada em atender às solicitações dos habitantes locais. 

Em Yakuza Kiwami 3, além de Kamurocho será possível explorar as ruas de Okinawa. Ambas as cidades estão lindas na Dragon Engine, cheias de vida e recheadas de atividades. Vale notar que no momento em que esta review está sendo escrita a iluminação, que estava problemática, foi devidamente corrigida no patch mais recente.  Os minigames que são uma marca registrada da franquia seguem presentes – cassino, mahjong, karaokê, sinuca, máquina de garra, entre outros – porém com pequenas novas adições como o retorno do boliche pela primeira vez na Dragon Engine e a cabine de fotos. Novos jogos também foram adicionados nos fliperamas e é necessário parabenizar o trabalho de preservação que é realizado aqui. Recomendo muito que os experimentem principalmente Magical Truck Adventure e Emergency Call Ambulance.

 Cada cidade conta com suas próprias histórias secundárias porém em um número muito menor quando comparadas com o original. Embora algumas tenham sido bem readaptadas, outras foram removidas, deixando o conjunto como um todo bem mediano. Senti muita falta de clássicos como Murder at Cafe Alps

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Ainda como parte de seu conteúdo secundário somos apresentados ao Dragão Marginal que funciona como uma sub-trama paralela. Nela Kiryu aceita se tornar presidente de uma gangue de motoqueiras de Okinawa chamada Haisai Girls. O objetivo é proteger a ilha de uma invasão de gangues de Tóquio, os Tokyo Night Terrors. Caberá a nós recrutar novos integrantes, elevar o rank da gangue e comprar melhorias. Neste modo há dois tipos de conflitos: Aniquilação Total em que Kiryu e seus aliados enfrentam hordas de inimigos; e as Guerras de Território um modo mais estratégico em que dividimos nosso time para capturar todas  as bases inimigas até enfrentar o líder daquela área.

A ideia é legal, mas é algo que já vimos nos títulos anteriores. E é aqui que começa a se acender um alerta. Uma das grandes qualidades da franquia foi sempre conseguir manter a mesma fórmula, mas ao mesmo tempo trazendo pequenas novidades. Quando paramos para observar os últimos jogos lançados é notável que não há grandes evoluções. Sinceramente o conteúdo secundário de Kiwami 3 me lembrou muito mais algo que veríamos em um Gaiden do que num título numerado. O Coliseu, por exemplo, segue presente, porém em uma versão muito mais simplificada. Com um Kiryu bem upado você não passará mais do que uma hora nesse modo dando a impressão que ele foi colocado apenas pró-forma. 

Completando o pacote temos Dark Ties um jogo stand alone focado em Yoshitaka Mine que conta como após perder tudo, ele decidiu entrar para a yakuza mostrando sua ascensão até se tornar presidente do clã Hakuho. A ideia é que esse jogo funcione como uma espécie de Gaiden, apresentando eventos que antecedem a trama principal de Kiwami 3, mas na verdade sua estrutura e duração lembram muito mais um Kaito Files, DLC de Lost Judgment. É interessante ver e entender como funciona a mente de Mine, a construção de sua relação com Kanda, um soldado da família Nishikiyama, e como ele passa a ter tanta estima e respeito por Daigo Dojima, sexto presidente do Clã Tojo. A campanha principal é relativamente curta e enquanto acerta em alguns pontos, erra em outros. Enquanto jogava tive a impressão que a relação entre Mine e Daigo poderia ter sido melhor desenvolvida, era uma das partes que mais me interessavam e que ao terminar me deixou com a sensação de “é só isso?”.

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Na pele de Mine é possível explorar Kamurocho e realizar as mais diversas atividades através do Controle de Dano do Kanda, que nada mais é do que um grande compilado de conteúdos secundários. Ele é composto por Missões de Boa Ação que são o equivalente às substories; Ajudando o Povinho, tarefas mais simples espalhadas pela cidade e que envolvem desde entregar um item ou atingir uma determinada pontuação num minigame a até sair no soco com encrenqueiros; e, por último, o Desafio de Controle de Dano que corresponde à Complete List. Tudo isso gera pontos que irão elevar a reputação de Kanda desbloqueando episódios da Hora do Mano, pequenos momentos que desenvolvem ainda mais a relação entre Mine e seu aniki. 

Assim como temos o Coliseu na história de Kiryu, aqui temos a Arena Infernal dividida entre Inferno de Sobrevivência e Brigas Infernais. Na primeira somos jogados em uma espécie de dungeon, ao derrotar inimigos vamos adquirindo dinheiro e coletando itens até encontrar o chefe final de cada nível. Se formos derrotados, perdemos tudo, lembrando bem vagamente um rogue lite. Nesse modo também é possível recrutar mercenários que irão nos ajudar em combate facilitando bastante o progresso em fases mais avançadas. Já a segunda seria o equivalente aos torneios do Coliseu. Mine conta com apenas um único estilo de combate e o recurso dos Corações Acorrentados que uma vez preenchidos podem ser ativados para liberar o modo Despertar das Trevas que deixa os golpes de Mine ainda mais fortes e violentos. 

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties

Por fim, a experiência final de Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties é um tanto agridoce. Ao mesmo tempo que acerta em algumas escolhas, ele também erra em outras e acende um alerta muito importante. Talvez esteja na hora da RGG parar e refletir sobre os jogos que estão entregando. Ele não é ruim, longe disso, porém a sensação de mais do mesmo é um ponto negativo que precisa ser tratado com cuidado. Yakuza é uma das minhas franquias favoritas e o sentimento que fiquei ao terminar o jogo foi quase de decepção.

Quando você joga o primeiro Yakuza e depois vai para o Kiwami, que é seu remake, você é envolvido por uma empolgação resultante das novidades e boas decisões adicionadas ao roteiro. É aquele tipo de remake que cumpre seu objetivo.  Infelizmente o mesmo não pode ser dito de Kiwami 3 & Dark Ties. As cenas da trama principal estão ali incluindo os momentos cômicos, lutas de chefes e QTEs o que é um ponto extremamente positivo, mas nem todas as novas adições ao roteiro são boas, algumas deixando muito a desejar.

Infelizmente, o corte excessivo de conteúdo do Yakuza 3 original, que poderia ter dado lugar a novidades reais, acabou substituído por mecânicas repetitivas que já se tornaram genéricas nos títulos recentes da franquia fazendo com que esse remake carregue apenas uma pequena essência do que um dia foi a obra original.

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties está disponível para PS4, PS5, Xbox Series, Switch 2 e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela SEGA.

Veredito

Yakuza Kiwami 3 & Dark Ties é um remake que carrega apenas uma pequena essência da obra original. Apesar de ser bem fiel à história, algumas decisões de roteiro deixam a desejar e os conteúdos secundários, com exceção do rank do papai, passam de algo novo a apenas um mais do mesmo. Dark Ties é uma adição interessante, mas que também poderia ter uma história mais bem desenvolvida. Em contrapartida, a gameplay de ambos títulos continua fluída e com novos estilos de combate divertidos de masterizar. A experiência final é um tanto agridoce, sendo um remake bem abaixo do original, mas que traz boas horas de diversão.

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