Há quase dois anos, Pacific Drive nos apresentou uma aventura inusitada somando os conceitos de jogos de sobrevivência a uma gameplay voltada à direção e gestão veicular. Fugindo dos princípios estabelecidos por outros jogos do gênero, trouxe, como bem destacou nossa colega Vanessa Ferreira em seu review original do game, uma certa ousadia a um formato surrado pelo tempo e por títulos genéricos.
A expansão Whispers in the Woods, portanto, carrega consigo uma responsabilidade importante, tanto para elevar a boa trama inicial a novas direções, como para explorar princípios distintos daquilo que já vimos para evitar cair em um mais-do-mesmo, algo que definitivamente não estaria à altura da marca tão bem estabelecida, mesmo recebendo menos atenção do que merecia.

Felizmente, a escolha por abordar um tom mais dedicado ao suspense se prova uma feliz decisão de design e de ampliação da mitologia criada. Ao ir além das melhorias e complementos protocolares lançados ao longo do seu ciclo de vida, os tais sussurros da floresta estabelecem uma nova dimensão de tensão constante e, consequentemente, de preocupação e atenção ao jogador.
Esta trama paralela envolve um culto esquisito, e não tem receio de mergulhar na fantasia sobrenatural. Diferente da tal ARDA que já vimos antes, não há aqui o propósito de se estudar ou combater as tais anomalias da zona, mas sim idolatrá-las como uma manifestação de um poder superior. É neste contexto que somos apresentados indiretamente a Jack, uma figura central que transita entre estes dois princípios – a compreensão e a fascinação – e que vai se fazer presente até resolução da nossa participação nisso tudo.

O maior problema aqui é uma certa fragmentação no estabelecimento de uma narrativa emergente de um tempo outro. Por mais que seja uma vivência cheia de intensidade, o uso de recursos como gravações e pistas incidentais para entendermos melhor o que se passa não deixa de fazer parecer que estamos aqui como espectadores de uma história cujo protagonismo é de outra pessoa.
Ao mesmo tempo que picota a compreensão do todo, é uma estratégia de enredo que nos retira a sensação de poder e controle sobre a nossa vida ou, pior, sobre a própria realidade. No final das contas, nosso improvável herói continua funcionando como uma mera ferramenta, uma engrenagem para um sistema bem mais complexo de mistérios nefastos siga funcionando.

A mão pesada no terror psicológico, porém, pode não ser do agrado de todo jogador que gostou da pegada perturbadora e intensa do jogo base. Ao se apoiar na construção da atmosfera bem mais assustadora, a DLC torna a experiência algo mais próximo de um terror de sobrevivência do que de um thriller convencional. Aqueles que tem alguma restrição com jogos de horror, portanto, precisam avaliar com parcimônia se adentram ou não nesta nova aventura.
Se não é uma mudança drástica a ponto de descaracterizar a obra, portanto, certamente há uma ampliação da percepção dos perigos e das ameaças que serão enfrentados. A parte oeste da Zona Olímpica de Exclusão do mapa é riquíssima no estabelecimento da contextualização em Whispers in the Woods, abusando, como o próprio título pede, de uma sonoplastia carregada de intenções e intencionalidades nada amistosas.

A trilha musical é igualmente brilhante, contribuindo para estabelecer os novos parâmetros da atenção permanente. Soma-se a este esmero sonoro bem realizado uma continuidade do belo trabalho de iluminação dinâmica, que se aproveita muito bem das nuances das parcas fontes luminosas para criar contrastes de pouca luz e muitas sombras e contornos, resultando em uma das melhores construções de mundo do gênero não pelo puro virtuosismo técnico, mas por uma direção artística certeira muito bem impressa na tela.
A nova região explorável não necessariamente demanda a finalização da campanha para ser desbravada, podendo ser acessada logo nas primeiras horas da jornada se o jogador assim quiser, funcionando de modo bastante integrado ao todo, salvo pelo desnível da dificuldade. A sensação opressiva, porém, se destaca, e se manter vivo passar também por tentar equilibrar a sanidade e o perigo que espreita atrás de cada arbusto.

A paranoia constante é alimentada pelo clima sombrio e pela sensação de que há algo sempre à espreita, além de se apropriar de elementos simbólicos e recursos semióticos já bem estabelecidos em nosso imaginário. O uso de ícones ritualísticos que remetem diretamente a seitas e mistérios no estilo A Bruxa de Blair é muito bem realizado, sem parecer um artifício raso ou gratuito.
A presença destes artefatos mágicos é parte de novas mecânicas pautadas pela relação entre risco e recompensa. Você pode coletar e carregar alguns deles em seu carro, algo que garante vantagens e melhorias, que não vem, entretanto, sem um custo. É difícil antecipar o quanto que o bônus supera os prejuízos, algo que acaba ficando mais claro quando se arrisca empiricamente. Por mais que se possa projetar os efeitos, somente a experimentação pode trazer certezas.

Outra adição importante é o conceito de harmonização da nossa máquina. Basicamente, é uma característica que leva em consideração a sintonia entre os diferentes componentes que adicionam uma variável para além de suas funções objetivas. Para quem joga games esportivos, são atributos que se parecem com o entrosamento de jogadores, por exemplo. Por vezes, é melhor usar itens que combinam melhor entre si, mesmo que a soma de suas individualidades seja menor do que outros arranjos.
O conjunto destes elementos adiciona camadas sofisticadas para cada escolha a ser feita pelo jogador. Saber quando arriscar a busca diante as ameaças e quando evitar o perigo iminente é o segredo para o sucesso. Considerando o nível elevado da dificuldade e o pouco espaço para aprendizagem, saber quando se retirar estrategicamente – ou fugir desavergonhadamente – é mais do que uma forma conservadora de abordagem, é uma necessidade de preservação. Não há espaço para heroísmos.

Exatamente por ser mais exigente do que aquilo que o game base pediu, a recomendação é só adentrar a nova área quando tiver a segurança de estar preparado para sofrer mais do que de costume. É uma discrepância que se justifica para quem quer algo a mais do que já recebeu antes, um tipo de pós-game desafiador, mas que pode ser agressiva demais para quem busca uma certa constância naquilo que já conhece, sobretudo se ainda não finalizou o linha base do enredo.
Ao exigir algo em torno das 11 a 13 horas, Pacific Drive: Whispers in the Woods não é um conteúdo extra rasteiro, e realmente faz jus ao investimento e ao retorno a este mundo nada convidativo, mas o ciclo de repetição entre a coleta de recursos e a melhoria do equipamento pode ser um tanto quanto cansativo para quem já o esgotou antes. Considerando que complecionistas e entusiastas devem passar das 30, quiçá 40 horas na aventura original, há que se pesar esta nova dedicação e o quanto os novos acréscimos valem o resgate.

Em resumo, a DLC fica no meio termo entre uma verdadeira expansão de tudo o que já conhecemos neste surpreendente game, e uma nova abordagem que reduz tudo o que (achamos que) já sabemos para nos provocar a algo diferente, em uma lógica renovada de exploração, coleta e aprimoramentos. Impactante e cheio de valor em si mesma, é uma forte recomendação para quem adorou a versão original, desde que o jogador esteja disposto a rever suas certezas e se permitir sair, de novo, da zona de conforto, se é que há algo de confortável nesta preciosidade de jogo.
Pacific Drive: Whispers in the Woods está disponível para PS5 e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão de PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Kepler Interactive.



