Análises

CULTIC – Review

O sentimento nostálgico é uma ferramenta poderosa para o universo do entretenimento. Para a indústria dos videogames, sobretudo, o retorno de certos formatos que marcaram a história é certeiro quando foca em uma parcela do público-alvo, compreendendo que, mais do que emular características gráficas e de jogabilidade, é importante extrair o que fazia daquelas experiências clássicas algo realmente único.

O desenvolvedor Jason Smith – que trabalhou no desenvolvimento praticamente sozinho – parece compreender bem o que os jogos de tiro em primeira pessoa da segunda metade da década de 1990 tinham de tão sedutor e, como um artesão, moldou uma obra de arte à imagem e semelhança dos grandes clássicos para além da obviedade de Doom, tal como Quake II e, principalmente, Blood. Com a dose certa de atualizações para as exigências do mercado atual, CULTIC já nasceu especial.

Lançado originalmente para os PCs em partes separadas com anos de diferença, o jogo chega completo aos consoles com o desafio de se adaptar aos controles, algo que suas principais fontes de inspiração demoraram a conseguir, e algumas nunca o fizeram satisfatoriamente. A boa notícia, logo de partida, é que esta primeira barreira foi superada e o game, um boomer shooter por excelência, parece nativamente idealizado para se jogar com os controles analógicos do DualSense.

Ambientado na década de 1960 em uma cidadezinha conhecida como New Grandewel, o enredo nos coloca na pele de um ex-detetive da polícia que caíra em desgraça depois de ser acusado de algumas transgressões enquanto investigava casos obscuros de desaparecimentos misteriosos, túmulos violados e outras evidências bizarras.

Desacreditado e humilhado, ele decide seguir as pistas macabras que surgiam pelo caminho, o que o leva a ser capturado por sequestradores desconhecidos que o espancam até dá-lo como morto, descartando-o em uma vala comum para apodrecer. Entretanto, o sujeito — que parece renegado até pela morte — sobrevive e escapa da pilha de cadáveres só para se ver em território hostil, de onde precisa fugir enquanto se vinga de seus algozes pelo caminho.

Sem explicações fáceis ou diálogos expositivos, a trama se desvela por meio de documentos espalhados pelo cenário, bilhetes no corpo de cadáveres e gravações de áudio contextualizadas, criando um quebra-cabeça narrativo que nos apresenta as entranhas de uma seita fanática — o culto que dá nome ao jogo —, que, dentre outras bizarrices, conduz rituais profanos, viola sepulturas e invoca monstruosidades para atingir suas aspirações nefastas.

A escalada da narrativa nos guia para uma história tenebrosa com claras referências ao horror cósmico de H.P. Lovecraft, flertando com aspectos como a loucura, o ocultismo e o sobrenatural. Mais do que pelas informações objetivas, a própria construção do espaço cênico estabelece uma ambientação emergente e muito bem orquestrada, capaz de nos transportar para este mundo desgraçado e criar uma sensação constante de desconforto e opressão.

O modelo de condução também é bastante eficiente em nos permitir progredir pelos cenários relativamente lineares com um ritmo constante, sem apelar para a obviedade rasa de corredores únicos ou labirintos simplórios. Seja dentro de instalações e ambientes fechados, seja percorrendo as sombrias florestas da cidade, o equilíbrio do level design entre a exploração e a linha objetiva funciona a contento, nos provocando a percorrer cada canto em busca de suprimentos e recursos.

O intervalo entre o lançamento original de cada um dos capítulos (além de um interlúdio) transparece uma mudança marcante de tom entre a primeira e a segunda metade da campanha. Enquanto na parte inicial há mais pontos de ação ininterrupta e tiroteio constante, a outra se encarrega do terror profundo e do recurso de puzzles um pouco mais sofisticados, o que pode representar uma quebra significativa na cadência do game.

Em uma campanha que dura em torno de 15 horas para aqueles que, como eu, gostam de fuçar em todos os cantinhos possíveis, CULTIC está o tempo todo nos incentivando à ação e ao movimento, sobretudo por conta de um sistema de combate onde trocar tiros ou porrada de forma franca com os inimigos não é das melhores opções. Contando com slides e dashes, a ordem é estar o tempo todo em deslocamento, evitando o confronto de peito aberto e usando o espaço cênico a nosso favor.

O arsenal que temos à disposição, acessível por uma roda de opções para alternância em tempo real (com direito a slow motion para a troca), nos possibilita carregar uma infinidade de armas distintas e úteis em diferentes situações, que podem, no melhor estilo The Last of Us, ser melhoradas em bancadas de trabalho por meio de sucata recolhida pelo cenário.

A sensação de impacto, aliás, é das mais satisfatórias do gênero, criando uma identidade palpável para cada equipamento, e se torna condizente com o nível de violência explícita adotado pela produção. O controle de mira, por sua vez, traz uma dimensão nova para o sistema, onde a precisão é valorizada. Uma sequência perfeita de headshots instaura uma espécie de multiplicador de dano, criando janelas mais generosas e permitindo sequências avassaladoras diante de hordas.

Ao mesmo tempo, a interação com objetos cênicos, como cadeiras e lampiões, oferece uma infinidade de possibilidades que mesmo shooters mais modernos não conseguem entregar, que vão desde distrair inimigos desavisados até criar aberturas e dano em área para controle de multidões. Por mais que tenha como espinha dorsal o bom e velho tiroteio, CULTIC oferece modos distintos de abordagem que se adequam bem ao estilo do jogador.

A grata surpresa é que estas atualizações modernas não maculam os princípios da referência aos clássicos FPS, sobretudo pelo caráter artístico único da obra. Partindo de uma estética retrocontemporânea, o jogo mescla muito bem sprites 2D para inimigos e outros elementos de interesse com uma estrutura de navegação tridimensional preenchida por texturas de voxels aparentes e degradês marcados.

O uso de uma paleta de cores suja, que abusa dos tons de marrom e cinza, é sempre perigoso, principalmente em jogos que emulam gráficos da geração 32 bits, mas aqui funciona muito bem — mesmo que possa cansar pela repetitividade em algum ponto — em contraste com laranjas e azuis pontuais para criar uma atmosfera densa de decadência perdida em um tempo esquecido. Tudo isso é potencializado por um modelo de iluminação dinâmico, muito bem pontuado pelo uso do isqueiro como artifício de iluminação e outras fontes destacadas, como lamparinas e os já citados lampiões a óleo.

Esta escolha artística transborda também para um design de som que aposta em ruídos e efeitos lo-fi, abafando tiros, passos e principalmente os sussurros arrepiantes dos cultistas sempre que nos aproximamos. As passagens de maior conflito, por sua vez, trazem uma trilha musical sintética com fortes referências ao eletrônico industrial, que pontuam a ação diante do silêncio claustrofóbico dos momentos de reconhecimento do ambiente.

CULTIC, em resumo, é um jogo que sabe aproveitar suas características intrínsecas ao estilo retrô nostálgico, mas em momento algum se furta de recursos modernos – incluindo uma ótima compatibilidade aos gatilhos adaptativos e à vibração háptica do DualSense – para criar uma experiência única e bastante singular na comparação com outras opções atuais no mercado, sobretudo no que se refere à jogabilidade — aqui bastante refinada e surpreendentemente precisa — e no design de ambientes, que não tenta ser mais complexo do que deveria, mas se permite caminhos alternativos, espaços de exploração e estruturação de quebra-cabeças ambientais que desafiam o jogador sem, contudo, atravancar o progresso artificialmente.

Isso não significa, porém, que seja um jogo fácil, e mesmo as dificuldades intermediárias apresentam um certo desafio que impede que banquemos o Rambo inconsequente o tempo todo, principalmente por uma inteligência artificial robusta que faz com que inimigos sejam astutos, joguem explosivos para nos desentocar de esconderijos, flanqueiem quando possível, recuem quando em desvantagem e outros comportamentos que superam até mesmo adversários de produções de máxima escala.

É importante destacar que, todavia, há um certo desequilíbrio em pontos específicos onde a encrenca apresenta picos discrepantes da média, o que garante que a atenção precise ser sempre redobrada e evita que fiquemos confortáveis, mas ao mesmo tempo pode frustrar e causar enroscos desnecessários. E se a exigência alta ainda não for o suficiente, não há com o que se preocupar, porque o modo Sobrevivência, recomendado para quem busca mais encrenca depois do fim do jogo, vai cobrar ainda mais caro.

A sugestão, portanto, seja na campanha ou no quem vem depois, é não se acomodar, manter o foco na melhoria das armas mesmo quando elas parecem suficientes e aprender bem os recursos complementares, como explosivos e combate corpo a corpo, porque, acredite: em algum momento, tudo isso será necessário. Afinal, são poucos os que podem enfrentar um culto com tamanho alcance e ainda sobreviver para contar a história.

CULTIC está disponível para PS5, Xbox Series, Switch 2 e PC via Steam. Esta análise é da versão de PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Atari.

Veredito

CULTIC vai para muito além do que uma simples homenagem ao estilo retrô de jogos de tiro em primeira pessoa, e se mostra certeiro em criar uma experiência que inegavelmente é cheia de boas inspirações, mas ainda assim também é única e diferente daquilo que o mercado atual (ou o passado) oferecem. Mesmo com alguns desequilíbrios no estilo artístico e no ritmo da narrativa, não se contenta em ser “só” um ótimo boomer shooter, e certamente é uma aposta segura para todo aquele que aprecia uma excelente mistura entre ação, horror cósmico e uma boa dose de violência gore.

85

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