Marathon talvez seja o melhor e mais recente caso para o entendimento da comunidade de jogos ultimamente. Um jogo que por trás tem uma desenvolvedora especialista em títulos de tiro em primeira pessoa e com jogabilidade sempre refinada, a ressurreição de uma franquia há tempos inerte para o modelo de shooter de extração e com o apoio da da comunidade no refinamento da experiência já seria o suficiente para uma atenção positiva. Mesmo assim, a onda de ódio e negação contra qualquer coisa, seja via efeito manada ou não, tende a definir qualquer coisa antes mesmo da experimentação.
Sendo um lançamento que já precisa vencer essa primeira barreira e se provar mesmo contra um questionamento por vezes infundado, além da concorrência e o lançamento do excelente Arc Raiders meses atrás, Marathon é definitivamente uma experiência com as características e qualidade da Bungie. Queira você ou não, aqui se mostra um ótimo jogo com mais foco no PVP, culminando no sucesso do extraction shooter ainda que de uma perspectiva levemente diferente e entrega tensão e diversão para cada partida que o jogador se arrisca.

A expedição Marathon acontece num futuro distante quando as grandes empresas capitalistas da Terra se dirigem ao sistema Tau Ceti em busca de recursos valiosos. No planeta Tau Ceti IV, a exploração de tais recursos acontece até que eventos não controlados desestabilizam tudo e interferem na expedição toda. Nesse contexto e com toda uma estrutura valiosa ainda a ser explorada pelo bem financeiro da ambição futura, mentes humanas usam carcaças robóticas (armações) para saltar ao planeta e tentar extrair o máximo de valor possível, mas com cada um lutando apenas pela própria causa.
Assim como Destiny e até mesmo com a criação de Halo, com a Bungie ainda tendo inúmeros dos veteranos desde a sua concepção e criação de seus grandes projetos do passado, a lore e uso de seus jogos, principalmente os trailers de apresentação disso, são usados com maestria para a ambientação de seus jogos mesmo que partes disso nunca chegue de fato a história ou apresentação do jogador. Jogadores de Destiny vão se lembrar do grimório e a quantidade absurda de histórias apresentadas ali e que se não fosse a curiosidade do jogador essas jamais seriam levadas adiante.

O mesmo acontece aqui e, talvez junto com problemas menores de balanceamento, sejam meus únicos questionamentos negativos com o jogo. Há conteúdo de qualidade e em excesso que não é aproveitado e, ainda que não seja uma ideia ruim, deixa o jogo totalmente à mercê da sua jogabilidade para instigar o jogador. Isso fica claro ao explorar as empresas e facções com a qual você lida no jogo pelos contratos e recursos, suas histórias e relação delas tanto com a humanidade, a Terra ou até mesmo o tratamento com Tau Ceti IV. Talvez isso mude no futuro com atualizações e expansão do jogo, mas por enquanto é algo que facilmente poderia ser melhor aproveitado.
Já quanto à sua jogabilidade, Marathon é um jogo de tiro em primeira pessoa extremamente prazeroso, responsivo, que entrega tanto curva de aprendizado quanto profundidade de profundidade de melhorias e, acima de tudo, respeita e entrega o legado e qualidade que a Bungie sempre propõe no estilo. Acima de tudo, é importante frisar e aceitar logo que Marathon não será mais um tradicional extraction shooter como vários já lançados ou seguir o caminho de sucessos recentes e estratégias únicas, como Arc Raiders e uma profundidade maior em criações, cooperativo e outros. Marathon é um PVP direto, com pitadas de PVE e elementos do gênero de extração, mas acima de tudo um jogo que sempre vai te colocar contra outros jogadores.

Por mais que isso já possa afastar aqueles que queriam apenas apreciar progresso e a porção mais PVE, como muitos tentam fazer com o já citado Arc Raiders, a proposta aqui é que exista sempre o embate PVP e isso é excelente, insistindo para que o jogador experimente isso e se sobressaia quando possível a sua maneira. Entenda, tal embate não necessariamente é a trocação de tiros direto, mas até mesmo ficar na surdina e observar vai fazer parte do processo de disputa com outros jogadores. Procurar extrair seus recursos ou completar suas missões, se defender ou esconder, fugindo ou enfrentando, vai criar diversas situações das mais diversas no jogo. Em alguns momentos e jogando com meus amigos em equipe, a tensão ao encontrar outros jogadores e a reação dos mesmos ao nos encontrar criava praticamente uma atmosfera de um survival horror, com ambas equipes tentando agir na estratégia ou desespero para sobreviver.
Toda essa disputa de jogador contra jogador é o que cria a experiência única aqui. Não há opção do não enfrentamento mesmo que você use o chat de proximidade, gestos ou texto. O “Don’t Shoot” ou “só quero extrair e fazer missão” não vai funcionar já que a proposta é totalmente voltada à disputa de alguma forma e isso fica evidente pela forma como o jogo constrói suas armações, com equipamentos, melhorias, armas e mais, além das habilidades possíveis de cada uma e a sinergia disso funcionando numa equipe.
Descer a Tau Ceti IV, explorar, montar algum equipamento além daquele que você decidiu levar, se preparar para seu objetivo e enfrentar as aleatoriedades de cada corrida vai sempre ser uma experiência única. Pense que, mesmo assim e preparado, uma partida pode durar 40 segundos, com você sendo eliminado e perdendo todo seu equipamento de imediato antes mesmo de qualquer percepção do ambiente.

O maior ponto é que, mesmo perdendo e sendo frustrante a princípio, a primeira reação após isso é o “vamos de novo”, o que pode culminar num sucesso e talvez uma ótima extração, ou mesmo outro fracasso e, novamente, a mesma fala. A questão é que como o loop de jogabilidade é acertado e você sempre vai ver algum progresso ainda que seja derrotado, toda corrida pode te entregar algo e fazer valer a pena ainda que seja apenas XP e avanço do seus status com as facções.
Algo extremamente positivo aqui é como o jogo se simplifica em aspectos que em outros títulos partiram para uma profundidade imensa e complexa. Sem sistema de criação ou gestão de recursos básicos, mesas de criação e mais, Marathon vai sempre te entregar o básico caso você não tenha nada e vai te dar opção em troca de alguns recursos principais caso queira melhorar. Ao invés de rastrear e acompanhar materiais que vão desde castanha do pé de flor do penhasco distante ao núcleo de processamento mais refinado do mapa X, aqui você vai se preocupar em acumular créditos e recursos básicos de cada mapa, com um certo nível de raridade, para adquirir equipamentos extras.

Vale lembrar também que possuir o maior nível de raridade de equipamentos ainda tem um peso, principalmente contra a UESC e seus robôs autônomos que compõem o PVE, mas não é um fator definitivo no PVP. Digo já que em equipe e todos usando kits gratuitos, já conseguimos eliminar uma equipe inteira repleta de itens de raridade especial ou maior, o que acabou sendo um achado imenso numa corrida.
Marathon faz bem em dar opção, mas sem punir por você ter que ficar preso em busca apenas disso. Sempre há uma forma de jogar e competir, mesmo que em alguns momentos parte disso seja só esconder e rezar. Com o inesperado e a aleatoriedade, a chance de a maré virar para o seu lado sempre vai acontecer, como uma equipe ficar presa lutando contra a UESC e você apenas esperar que gastem boa parte dos recursos ali para depois dar um ataque surpresa.
Algo que precisa ser comentado, ainda mais após a acusação já resolvida de plágio no passado, é como a direção de arte torna o jogo algo único. Talvez a primeira impressão é de extrema estranheza e nada condizente, mas mesmo a aposta futurista em cores vai se pagando ao longo do tempo. A diversificação do jogo através da paleta e imagem visual forte se torna cada vez mais interessante em cada novo passo nesse universo, seja um novo mapa, estilo das facções e mais. E sim, o jogo é impecável em todos seus aspectos técnicos e uma experiência primorosa nisso. O único ponto que ainda precisa de ajuste são as telas de loadings durante o matchmaking, tanto a mudança visual e no cansaço de ver mariposas e larvas após 100 corridas, quanto na demora em algumas partidas para a construção do lobbie.

Apesar de tudo, ainda há ajustes a se fazer no jogo e muito na questão de balanceamento. Alguns já ocorreram nessas primeiras duas semanas e mostram um empenho maior da desenvolvedora em acelerar suas correções, o que antes demorava semanas em Destiny para eliminação de um exploit, por exemplo. Com o melhoramento contínuo e suporte pós jogo sendo bem demonstrado até agora, além das novidades programadas, é esperado que ajustes pontuais sejam entregues num ritmo maior já que modos ranqueados, como exemplo, demandam um jogo acertado para melhor funcionamento. Mesmo menus e inventários, que a princípio parecem uma bagunça impossível de se reconhecer algo e que com algumas horas ficam intuitivos e práticos, já tiveram pontos principais melhorados e bem recebidos pela comunidade.
O certo é que mais do jogo deve vir e uma comunidade interessada realmente aprovou a proposta. O foco maior em PVP deve sim afastar uma parcela de interessados e talvez mais por ser um jogo pago. Mesmo que ainda tenha microtransações e todas apenas cosméticas, a interferência disso na experiência como ponto negativo é quase nula. Ainda assim, numa época em que amar odiar tem se tornado moda até entre os que nunca usam tal vestimenta, é deplorável ver pessoas simplesmente odiando parte do hobby que participam sendo que é mais fácil escolher, dentro desse mesmo meio, apenas aquilo que te interessa. Marathon pode sofrer disso, mas é uma proposta inteligente e de qualidade, que com certeza vale boas horas e vai entregar exatamente o que uma desenvolvedora de qualidade consegue fazer: diversão!
Marathon está disponível para PS5, Xbox Series e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 (no PS5 Pro) e foi realizada com um código fornecido pela Bungie.



