Nos mais de 50 anos dos videogames amplamente acessíveis comercialmente, muito já aconteceu e alguns eventos sempre ficaram marcados como pontos de destaque na história. Seja pelas decisões de fabricantes, nascimento e morte de consoles, experimentos e aceitação do público, mas principalmente, o que moveu a indústria até hoje foram os jogos e as experiências que esses proporcionam.
Quando a Microsoft decidiu entrar na indústria, talvez nem a mesma esperava que boa parte do seu sucesso inicial se deveria a um título que teve um impacto imenso na indústria como um todo: Halo. Pelas mãos da Bungie e acontecendo de forma revolucionária para os jogos de tiro em primeira pessoa de mais de 20 anos atrás, a aventura do soldado Master Chief criou uma legião de fãs praticamente de imediato, mas acima de tudo catapultou o lançamento do primeiro Xbox como um passo importante para a época.
Décadas depois, uma quantidade de jogos de todos os formatos dentro da franquia já lançados, o mais incrível acontece. Seguindo as últimas decisões e mudanças dentro da divisão Xbox, o que parecia quase impossível acontece e um dos maiores exclusivos de peso de um console é lançado para um concorrente. Halo Campaign Evolved é a segunda revisão do primeiro jogo, com uma tendo chegado antes ao Xbox One, e traz uma experiência visualmente atualizada, com controles modernizados e até mesmo conteúdo inédito em 2026.
Longe no futuro, o governo da Terra explora o espaço em busca de recursos e novas moradias pelo braço do comando espacial de guerra (UNSC), mas encontra uma espécie de seita composta de várias raças alienígenas que surge como inimigos, os Covenant (Irmandade). Com anos de guerra, um evento que escalona a disputa passa a ser a descoberta de um Halo, enorme anel artificial com atmosfera e terreno próprio para a vida. Sendo uma incógnita para ambos os lados do conflito sem saber o poder que poderia ter para mudar o futuro da guerra, adentrar ao Halo e descobrir seu propósito passa a ser de interesse imediato.

Nesse ponto entra o soldado John-117, resultado do programa de aprimoramento Spartan-II e munido de equipamento de combate de última geração, uma lenda entre as operações de guerra espacial e com a patente de “Master Chief”, tem como objetivo enfrentar os Covenant e acelerar a descoberta do Halo junto com a IA Cortana, a fim de tentar conseguir um passo a frente para as forças da UNSC no confronto.
A apresentação básica para Halo seria essa, fora o impacto do personagem principal que já é de conhecimento geral de vários hoje em dia mesmo que nunca puderam experimentar o jogo antes. A grande intenção com Campaign evolved, talvez, seja reintroduzir e apresentar novamente a franquia com o primeiro capítulo em sua forma mais completa hoje em dia, revisando não só os aspectos técnicos e visuais, mas também ajustando o que é possível e expandindo com uma nova parte antecedente a campanha.

Com uma campanha que dura de 8 a 9 horas, o jogador adentra no universo como Chief e na exploração do Halo e seus segredos. Já ambientado numa guerra duradoura, sem precisar explicar ou expandir muito com motivos ou explicar cada inimigo, o foco nunca foi mostrar mais disso, mas sim o ponto principal que se torna a mudança de chave na disputa já com anos de existência. Se ambos os lados se deparam com algo novo sem saber o impacto disso, a corrida para descobrir sua função e seu posterior uso para cada lado é o principal motivador da história.
Master Chief sempre foi e continua ainda na versão atual sendo o clássico exército de um homem só quase silencioso. Na doutrina de seguir ordens e questionar depois, a batalha contra os Covenant vira apenas rotina a cada vez que o mesmo é acionado para a função, mesmo que agora já surja com boas novidades. Enquanto carrega Cortana pelo Halo para descobrir mais, auxilia as outras tropas da UNSC e, por fim, se vê como uma das últimas esperanças de salvação do universo, o soldado sisudo e de aparato militar perfeito é muito mais descrito e explicado pelos atos de combate do que por uma possível falação qualquer.

Ainda que a história de Halo seja bem desenvolvida dentro das suas limitações, principalmente já sabendo hoje após vários outros jogos que serve muito mais como trampolim de eventos posteriores, o trabalho de manter a experiência quase intacta é uma vantagem se pensando como entregar a experiência de 20 anos atrás para os dias de hoje, sem muita alteração e ainda sendo divertidamente proveitosa. O maior ponto positivo talvez, que já era antes e continua agora, é a diferenciação do jogo de tiro fora do convencional militar moderno que o mercado parece estar saturado em questões de narrativa.
O primeiro jogo servia muito mais como inovação para sua época, sem nunca ter se aprofundado no que poderia ser em outros termos quando falamos de história. Isso é algo que só foi desenvolvido depois, principalmente quando chegamos em Halo 3 e Halo: Reach, os melhores nisso para mim e também onde parei de acompanhar a franquia quando os próximos jogos chegaram no Xbox One em diante. Mesmo assim, o primeiro passo é de fundamental importância para criar uma base na qual as novas histórias vão sendo desenvolvidas e isso é trazido praticamente da mesma forma aqui.

Halo segue uma estrutura muito padrão e até engessada para sua época, com os tradicionais corredores e disputas contra os inimigos, objetivos intercalados a cada nova área, eventos da história e narrativa acontecendo no processo e depois reiniciando todo esse ciclo. Solo ou com até outros 3 jogadores cooperativamente, aproveite qualquer opção de um vasto arsenal disponível e se divirta atirando e explodindo, usando veículos, enfrentando inimigos desafiadores e variados, trace estratégias para avançar em áreas complicadas enquanto desvenda mais do Halo.
Halo: Campaign Evolved é vendido mais como uma modernização do jogo original e não como um remake mais direto para os termos de hoje com diversas mudanças. Com isso, fica destacado que partes já datadas e mesmo aquilo que não era tão evoluído assim para sua época tendem a se manter. A principal observação nisso de forma negativa é o level design que hoje não é mais usual. Datado e sem muitas mudanças, o jogador vai se encontrar em boa parte do jogo no ciclo de “corre, atira e aperta botão”, seguindo pontos de marcação e atravessando corredores. Ainda que haja algumas variações aqui e ali, isso já era um problema no original e nada foi tratado aqui.

O que destaca bem isso como problema é exatamente o conteúdo inédito que vem junto, trazendo Chief numa missão anterior ao encontro do primeiro Halo e que pode engatar novidades para o futuro muito além do que é visto aqui. Nos 3 capítulos dessa parte, conhecida como Operação: METEORITE, temos um level design muito mais abrangente, com bastante verticalidade, caminhos, outras estratégias, combates mais variados e mesmo cenários que vão mudar mais constantemente com algumas novidades.
O fator replay é um ponto aprimorado aqui. Ainda que as novas missões adicionem de 2 a 3 horas de conteúdo ao jogo, reaproveitar todo o conteúdo disponível com diversos modificadores via aquisição das caveiras, em cooperativo e ainda com as clássicas variantes de dificuldade e os desafios que essas propõem é algo que aumenta a longevidade do jogo para algo entre 20 a 30 horas. Os fascinados por completar tudo e platinar jogos terão trabalho aqui e uma quantidade boa de horas a investir.
Vendo o trabalho dado para expandir essa parte com boas melhorias comparado a campanha original me faz pensar que ao menos algumas mudanças poderiam ter sido feitas em pontos mais cansativos, principalmente perto do fim na campanha principal. Infelizmente não é o caso e, para qualquer tipo de jogador, essas partes mais datadas ficarão bem evidentes ao jogar, junto também de alguns checkpoints instáveis e uma falta de coerência do jogo em salvar seu progresso.

As mudanças na jogabilidade são mais de impacto aos que conhecem a franquia de longa data, mas novatos ainda podem achar algumas coisas estranhas. Não existe ADS (aim down sights ou a mira de ferro) em Halo. Isso acontecia apenas com a luneta em armas específicas e foi introduzido algo vindo dos jogos mais recentes, com uma mira do capacete simulando isso. Corrida ou Sprint é algo adicionado e que não tinha no original, assim como a modernização da interface como um todo e se assemelhando também aos títulos mais modernos da franquia.
Quanto ao resto é um jogo excelente e um ótimo trabalho de modernização, principalmente comparado ao original e com o uso agora da Unreal Engine 5. Mesmo mostrando alguns gargalos em partes mais abertas, a engine é bem usada e o visual entrega um ótimo salto. Mesmo assim e com performance estável em boa parte, alguns momentos com grande quantidade de inimigos apresentam engasgos consideráveis e também problemas de renderização.

Para alguns, Halo sempre foi sinônimo de uma experiência multijogador e bastante famoso por isso. Mesmo que você nunca tenha jogado sabe dessa fama, mas isso só surgiu a partir do segundo jogo e da integração com a Xbox Live. O primeiro Halo funcionava com um pvp via lan, precisando de vários controles e 4 Xbox originais ligados na mesma rede para disputas de até 16 jogadores, o que já era difícil para a época. Hoje já temos ambientes online robustos e seria interessante uma versão multijogador online do primeiro jogo com o material próprio dele.
Infelizmente não é o caso e pode até mesmo ser tratado como uma oportunidade perdida aqui, principalmente com a franquia tendo alguma relevância nisso hoje com Halo Infinite e de forma não tão abrangente como antes. Numa estrutura clássica e sem muito além das partidas padrões, sem precisar se preocupar com passes de batalha e cosméticos a esmo, talvez seja exatamente uma opção que deveria ter sido levado em conta para os dias de hoje.

Um dos principais pontos, principalmente para os novos fãs do jogo que agora chega ao PlayStation, é o quanto mais poderemos ter no futuro com a Microsoft mudando de estratégia a cada semestre. Um sucesso estrondoso pode mudar isso e talvez mais jogos possam chegar, mas com um primeiro capítulo tão bem entregue é de se esperar que mais jogadores possam ficar aguardando outros remasters, pacotes, ports ou até mesmo sequências no futuro.
De toda forma, a chegada de Master Chief, repaginado e modernizado anos depois do seu primeiro vislumbre, é uma oportunidade sensacional que vale a pena para que muitos possam conhecer uma nova franquia. Mesmo com alguns deslizes, principalmente na falta de alternativas ao design de missões e os recorrentes problemas de jogos na Unreal Engine, ainda é uma recomendação totalmente válida por agora.
Halo: Campaign Evolved está disponível para PS5, Xbox Series e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 (no PS5 Pro) e foi realizada com um código fornecido pela Xbox Game Studio.



