A série animada Avatar: The Last Airbender é, inapelavelmente, um verdadeiro marco da história da televisão mundial. Vencedora de prêmios mundo afora, seu legado vai além das técnicas de animação ou da história típica da jornada do herói, sendo uma das pouquíssimas obras ocidentais a conseguir lidar com temas pesados como imperialismo, dominação política, fé e redenção e, ainda assim, manter uma leveza acessível a diferentes públicos.
Criada por Michael Dante DiMartino e Bryan Konietzko e inspirada em uma diversidade absurdamente rica de culturas, povos e costumes, a franquia se mantém relevante mesmo hoje, mais de 20 anos depois da exibição de sua primeira temporada — o célebre Livro 1: Água — e parece mais viva do que nunca. Isso se materializa este ano tanto pelo longa-metragem de animação que continua a história da lenda de Aang (e que aliás está próximo de estrear), quanto por este novo jogo, Avatar Legends: The Fighting Game.
Como o título já deixa óbvio, trata-se de um jogo de luta ambientado no universo de Avatar, colocando personagens de diferentes eras frente a frente no bom e velho sistema 1v1. Desenvolvido pela Gameplay Group International e publicado pela Skydance Games, o título foi escrito por Tim Hedrick, um dos principais roteiristas da série clássica, com total aval de DiMartino, o que lhe confere um status de considerável respeito narrativo para com aquilo que já vimos, assistimos e lemos.
A trama, porém, possivelmente é um dos pontos menos interessantes da obra, e acaba apelando para uma certa distorção espaço-temporal (ou qualquer termo que sugira um cruzamento multiversal) para unir, na mesma linha do tempo, três Avatares de períodos distintos: Kyoshi, Aang e Korra. Além deles, outras figuras muito conhecidas da série original estão presentes, com histórias levemente diferentes daquela que tanto amamos.
![]()
O elenco geral da versão base do jogo, aliás, é relativamente restrito, contando basicamente com personagens da geração de Aang e o acréscimo das outras duas Avatares, ainda que seja importante destacar que parece haver um planejamento de longo prazo para a inclusão de vários lutadores de múltiplas linhas temporais. O Ano 1, por exemplo, já anunciou Iroh, Ty Lee, Lin Beifong e Bolin, e ainda colocou um quinto nome para votação popular.
Contudo, no momento atual, o jogo conta com o próprio Aang (com foco em mobilidade aérea e mixups); Korra (rushdown mais versátil e controle de espaço); Zuko (dedicado ao combate à média distância); Katara (controle de distância e armadilhas); Toph (uma tanque com golpes de armadura pesada); Sokka (focado em armas e abordagem tática); Azula (com variações de postura entre o controle e a agressividade explosiva); Kyoshi (com longo alcance e manipulação de ambiente); Zaheer (abordagem aérea extremamente veloz); Ozai (abusando da pressão agressiva); e as variações de Aang no Estado Avatar (versão bufada e focada nos quatro elementos) e Korra no Estado Avatar ou de pesadelo, mais potente e violenta que a normal.
![]()
Este elenco contido ganha um pouco mais de lastro pelo sistema de assistências, que não são bem ajudas literais como em outros jogos do tipo, mas sim variações que mudam certos aspectos da luta. Ao selecionar o tipo de suporte, escolhemos muito mais uma postura diferente (como visto, por exemplo, com suas devidas particularidades, em Mortal Kombat X) do que um parceiro em si, modificando habilidades passivas e golpes secundários.
Esta grande diversidade de estilos de combate consegue lidar muito bem com a essência de alta mobilidade que está no cerne de Avatar Legends. Com a configuração bastante confortável de três botões básicos de ataque, além de um dedicado a elevar o estado de fluxo do personagem (o que pode se traduzir no sistema de se carregar a barra de movimentos especiais e outras ações específicas), não demora para que jogadores experientes em fighting games contemporâneos comecem a arriscar combos mais sofisticados.
![]()
O ritmo acelerado vem acompanhado de janelas curtas e precisas para o encaixe de sequências mais elaboradas. Por mais que os movimentos de dobra mais complexos sejam confortáveis mesmo para os iniciantes — a grande maioria funciona arriscando instintivamente a dobradinha meia-lua para trás ou para frente e botão de ação —, o encaixe entre eles depende de um timing que demanda treino, resiliência e preparo, principalmente para quem pretende se aventurar nos modos mais competitivos.
Isso porque o segredo para um bom desempenho, mesmo com o foco na rápida movimentação, está no domínio dos controles defensivos, incluindo dashes em solo e aéreos, esquivas, rolagens em queda e mecânicas de glide mais sofisticadas, que parecem um tanto quanto obtusas no treinamento — e o sistema de prática do jogo não é dos mais amigáveis, embora seja completo, com direito a exibição de caixas de colisão e dados de contagem de quadros —, mas que tornam a experiência mais sólida quando aprendidas e, principalmente, quase automatizadas pelo nosso cérebro para uso instintivo.
![]()
Isso tudo escancara que Avatar Legends: The Fighting Game consegue flutuar bem entre ser amigável para quem o enfrenta de forma mais casual, e oferecer profundidade para os adeptos de um nível alto de competitividade, sem abrir mão da ambientação fiel ao material de origem. É divertido aprender que certos personagens, como Korra, por exemplo, ganham vantagens articulando golpes com diferentes dobras elementais executados na ordem em que ela os absorve em sua jornada original. Um detalhe simples, mas certeiro, que faz todo fã abrir aquele sorrisão.
A profundidade, entretanto, não é garantia de longevidade, e a vida útil do jogo está praticamente toda sob a perspectiva do multiplayer, já que o conteúdo solo segue a tradição do gênero, mas se esgota rápido. O modo História, que traz a narrativa original que justifica o embate das diferentes eras de Avatares, parece longo em um primeiro momento, com 27 capítulos divididos nos tradicionais três livros, mas bastam poucas horas para ser vencido de forma completa e sem muitos incentivos para o replay.
![]()
O indispensável modo Arcade faz pouco para se sustentar, trazendo encadeamentos com algum contexto, mas praticamente nenhum clímax que realmente justifique completá-lo com todos os personagens, ou ao menos com os nossos favoritos. Há, sim, os chamados finais individuais, mas, sinceramente, nenhum deles parece interessado em aprofundar a jornada dos lutadores ou torná-los protagonistas de suas próprias vidas. São rápidos e dispensáveis.
Sem a escolha de dificuldade para elevar o desafio a novos patamares em qualquer dos modos para um jogador, restam o multiplayer de sofá para quem desafia aquele amigo ou parente em uma tarde preguiçosa, e o online, este sim bastante caprichado, funcionando muito bem com um sistema de netcode via rollback robusto e suporte a um cross-play sólido, com disputas ranqueadas, casuais e por lobby que, se não reinventam a roda, fazem-na girar perfeitamente.
![]()
O adjetivo da perfeição também pode ser aplicado à fidelidade artística da obra, com modelos, sprites e ações bidimensionais de construção artesanal, permitindo uma fluidez de movimento impressionante dentro do combate, incluindo efeitos visuais de geração de partículas, microexpressões e outros recursos que fazem cada luta parecer uma cena cuidadosamente animada.
Destaca-se, em igual escala, o design de som que consegue capturar precisamente a sensação dos diferentes elementos, com golpes de água e ar soando mais fluídos e naturais, enquanto terra e fogo são mais ríspidos e potentes. Esta mixagem fica ainda mais apurada com os avatares que encadeiam diferentes poderes, e ao lado de uma trilha musical competente e um bom trabalho com vozes, o jogo está muito bem servido no aspecto sonoro.
![]()
Este mesmo apuro técnico pode ser visto também na concepção dos cenários, bastante reconhecíveis e localizados em regiões bem marcadas dos quatro reinos, ainda que a qualidade cenográfica, com figuras animadas e profundidade de campo, fique abaixo do que está acontecendo em primeiro plano. O uso de cores e efeitos de partículas nem sempre parece coexistir com o todo, e a mixagem de técnicas pode desarmonizar e criar um certo estranhamento.
O uso de poses e gestos feitos originalmente para estados de batalha nas cenas de corte do modo narrativo tem o seu charme nostálgico, mas acaba cansando e tornando momentos de diálogo um tanto quanto travados e arrastados, mesmo quando a produção tenta criar dinamismo por meio de variações nos enquadramentos e nos movimentos laterais do ponto de vista.
![]()
Ainda mais evidente é ver os poucos personagens que não estão dentre os jogáveis aparecendo como meras ilustrações que mais parecem totens ou displays de papelão. Isso não chega a atrapalhar a experiência, mas transmite o escopo reduzido no investimento nessas cenas, principalmente porque partimos de uma base, mesmo que em outra mídia, com padrão elevadíssimo de animação e direção cinematográfica.
O peso desses elementos contextuais (bem como o de uma galeria de arte grande e recheada, mas que demora em seu desbloqueio completo), felizmente, tende a ser baixo e influenciar pouco no entendimento geral da produção. Olhando para aquilo que importa — que são os combates e o refinamento de cada sistema —, Avatar Legends: The Fighting Game se prova surpreendentemente bem-acabado, sobretudo se lembrarmos ser uma produção licenciada de menor orçamento.
![]()
Buscar nele a expansão deste rico universo não é, que fique claro, um bom motivo para investir o pouco tempo que ele leva para contar uma história de cruzamento de linhas narrativas; há pouco aqui que vá além de desculpas esfarrapadas para colocar frente a frente personagens que não conviveram entre si ou que são aliados originalmente.
Por outro lado, se a ideia é enfim poder se deleitar com a mecânica de dobra de cada elemento em sua essência, Avatar Legends é possivelmente a melhor experiência nos videogames a adaptar o mundo de Aang e Korra. Basta saber se aquilo que está por vir se mostrará criativo o suficiente para trazer diferentes abordagens no uso dos mesmos elementos, ou ainda se investirá nas sub-dobras para oferecer graficamente diferenças substanciais do que já temos aqui.
![]()
O potencial para crescimento é quase exponencial dado o material de origem e, considerando este ponto inicial, expectativas boas foram criadas, nos dando boas esperanças para o futuro do jogo. Afinal, como bem diria o Tio Iroh: “… o destino é uma coisa engraçada. Você nunca sabe como as coisas vão se desenrolar”.
Avatar Legends: The Fighting Game está disponível para PS5, Xbox Series e PC (via Steam), com a promessa para uma versão para Switch para depois. Esta análise é da versão de PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Skydance Games.



