Se o subtítulo Grand Bazaar soa familiar para você, não é por acaso. Muito antes de adotar o nome Story of Seasons, a franquia era conhecida como Harvest Moon, e Grand Bazaar foi um dos títulos lançados originalmente para o Nintendo DS. Anos depois, seguindo a mesma premissa já vista com Friends of Mineral Town e A Wonderful Life, a Marvelous lançou o remake de Grand Bazaar. Inicialmente lançado para Nintendo Switch e PC em 2025, o título faz sua estreia nos consoles PlayStation apenas agora, em 2026.
As novidades já podem ser notadas logo nos primeiros minutos com o excelente criador de personagens, que permite customizar nosso protagonista com as mais variadas opções — indo desde o básico, como cabelo, olhos e tipo de corpo, até a escolha de pronomes e voz. Sim, desta vez nosso fazendeiro possui uma voz personalizada, embora, infelizmente, ela só se faça presente enquanto trabalhamos na fazenda ou ao cumprimentar os moradores pela cidade. Em contrapartida, pela primeira vez na série, todos os eventos e cutscenes da história contam com voice acting (com opções em inglês e japonês), trazendo mais personalidade a cada habitante da pacata cidade de Zephyr.
Cidade essa que outrora abrigava um dos maiores bazares da região, acabou caindo no esquecimento e enfrentando um longo período de decadência. É nesse cenário que nosso protagonista encontra o anúncio de uma fazenda disponível na região e decide tentar a sorte. A partir daí, assumimos o papel do grande responsável não apenas por cuidar da terra, mas por trazer o bazar local de volta aos seus dias de glória. E esse é, sem sombra de dúvidas, o grande diferencial do game quando comparado ao restante da franquia. Longe da tradicional dinâmica de simplesmente depositar toda a nossa produção em uma “caixa mágica” para receber o dinheiro na manhã seguinte, aqui a experiência ganha uma nova camada: seremos os verdadeiros responsáveis por comercializar nossos produtos diretamente no bazar da cidade.
Caso a falta de dinheiro seja um problema durante a semana, ainda é possível ir até a mercearia da cidade vender alguns produtos. No entanto, se sua meta é avançar na história e conseguir altos lucros, o bazar é a opção certa. Nele, além de comercializar tudo o que você produz e coleta – como minérios e flores – também é possível customizar sua barraca. À medida que o rank do bazar aumenta, novos estandes são desbloqueados, o que permite colocar ainda mais produtos à venda. Comprar decorações proporciona pequenos buffs, alguns deles voltados justamente para o aumento do valor pago por suas mercadorias.
Para finalizar, o bazar também conta com o Cheer Time, mecânica onde os icônicos espíritos da natureza surgem para agilizar o atendimento e garantir bônus. A dinâmica funciona através de uma barra especial que se preenche a cada venda realizada; ao subir de nível, mais espíritos se juntam à força-tarefa. A grande estratégia, portanto, é gerenciar o tempo de funcionamento do bazar — você poderá abri-lo todo sábado, duas vezes ao dia — , encher essa barra o máximo possível e ativá-la no momento certo para extrair o maior lucro daquela rodada.
O looping de gameplay de Story of Seasons não tem muito segredo. Cada ano é dividido por quatro estações, compostas por trinta dias cada. A partir daí, fica à escolha do jogador decidir o que fazer, podendo focar no manejo das plantações, cuidado com os animais, na coleta de minérios e materiais de construção ou apenas em visitar os moradores da cidade. Além disso temos também as datas festivas que ocorrem em dias específicos e os de Grand Bazaar não decepcionam. Como já mencionado, o voice acting presente nesses momentos torna tudo ainda melhor. As vozes casam muito bem com os moradores e suas personalidades e espero que isso se torne padrão nos futuros títulos da série.
Fazer amizade com os habitantes de Zephyr ficou ainda mais fácil neste remake. Além de poder conversar e dar presentes também é possível cumprimentá-lo com o botão L2 — uma ação que substitui a necessidade de iniciar um diálogo completo todos os dias. Conforme seu nível de amizade vai aumentando, os moradores irão fazer pedidos que funcionam como missões secundárias, normalmente envolvendo a entrega de produtos ou a busca por itens perdidos.
Um detalhe importante é que, enquanto essas solicitações não forem atendidas, a barra de amizade ficará travada. Evoluir esses vínculos libera cenas especiais que nos permitem conhecer mais da história daquele personagem. Para ajudar, o mapa da cidade sempre irá exibir quando um desses eventos ficar disponível evitando que o jogador perca momentos importantes. Além disso, ele também sempre irá mostrar onde cada NPC está em tempo real, um excelente recurso de qualidade de vida tornando mais fácil investir em um determinado morador.
Criar vínculos é recompensador em Grand Bazaar, mas restaurar o bazar de Zephyr à sua antiga glória também é o nosso grande objetivo, e uma das melhores formas de alcançar isso é dominando o sistema de crafting. A cidade conta com três moinhos, sendo que inicialmente apenas um estará disponível para uso. É através deles que transformaremos a matéria prima em itens manufaturados que trarão mais lucro do que a simples venda de legumes e vegetais.
No entanto, é importante se atentar aos ventos. Sim, os moinhos dependem do vento para criar os produtos solicitados, portanto, quanto maior a velocidade, mais rápido eles ficam prontos. Fazer uso das dicas de tendência da estação ajudará ainda mais nos lucros da semana. Por exemplo, durante minha jornada na primavera, foi informada que maionese e leguminosas redondas estavam em alta. Aproveitei para plantar nabo, batata e rabanete e, com o dinheiro da venda, investi em uma galinha. Com os ovos passei a produzir maionese, aumentando ainda mais meus ganhos no bazar. Conforme progredimos na campanha, novos moinhos ficarão disponíveis e, por consequência, novas receitas de produção, criando um looping viciante e recompensador.
Com tantas atividades disponíveis, é normal no começo querer aproveitar todas em um único dia, porém a passagem das horas é rápida e quando perceber a noite já estará chegando. O segredo é encontrar um equilíbrio e planejar em quais atividades focar em cada dia. Outro ponto que também pode acabar “atrapalhando” os planos do jogador é a barra de stamina. Cada ação consome energia, o que pode ser bem incômodo nas primeiras horas de jogo; muitas vezes recebia o aviso de que minha fazendeira estava ficando cansada, sendo que tinha cuidado apenas de metade da minha plantação.
Para contornar o cansaço, as alternativas consistem em tomar um banho (o que irá consumir trinta minutos do seu dia) ou consumir refeições. Como o jogo costuma dar refeições como recompensa por completar determinadas conquistas, sempre dei preferência para a segunda opção, além de que, ao consumi-los, automaticamente aprendemos aquela receita. Ainda é possível aumentar a barra de stamina comendo um power berry.
Para agilizar nossa locomoção pelo mapa e o tempo gasto com cada ação, nosso personagem conta com algumas habilidades extras como pulo simples e duplo — que permitem arar, regar e carpir áreas maiores de uma só vez, ao custo de mais stamina — e um paraglider que facilita nossa travessia pela cidade, além de permitir acessar algumas áreas extras conforme a direção do vento naquele dia. Já no manejo dos animais, contamos com a ajuda dos nossos bichinhos de estimação: os cães auxiliam com vacas, ovelhas e alpacas, enquanto os gatos pastoreiam galinhas. Dessa forma é possível tentar otimizar um pouco do nosso precioso tempo.
Um detalhe que, particularmente, me incomodou bastante no game foi a falta de espaço no inventário e armazém da fazenda. Rapidamente todos os meus slots ficavam cheios e eu precisava decidir o que fazer com meus recursos. Mesmo comprando os upgrades o mais rápido possível, ainda sofri com a falta de espaço. Isso acontece porque o game peca na organização básica: a ração dos animais consome slots comuns de inventário em vez de ter um depósito próprio, e o sistema de qualidade fraciona os itens (ter um iogurte de nível 1.5 e outro de nível 2.0 significa gastar dois espaços diferentes). Isso requer um certo micro gerenciamento que pode agradar alguns jogadores e desagradar outros.
Também senti falta de uma aba de receitas acessível a qualquer momento pelo menu principal. Infelizmente, só é possível consultá-las estando nos moinhos, na cozinha ou através da estante que fica dentro de casa. Apesar desses pequenos deslizes, nenhum deles afetam a diversão que o game proporciona. O grande defeito de Grand Bazaar é, realmente, a falta de localização para nosso idioma.
Story of Seasons: Grand Bazaar se consolida como um excelente remake. Ao mesmo tempo em que preserva a identidade que consagrou o jogo original no DS, o título se moderniza com recursos de qualidade de vida que tornam a experiência ainda mais gratificante. Seja pelos novos eventos e personagens ou pelas sutis mudanças em suas mecânicas principais, o jogo tem tudo para encantar tanto os novatos quanto os fãs de longa data.
Explorar a cidade de Zephyr é muito recompensador e nostálgico, com gráficos agradáveis, uma trilha sonora tranquila e um voice acting que traz ainda mais personalidade para esse capítulo da franquia. A Marvelous acerta mais uma vez, demonstrando que a marca Story of Seasons continua cheia de potencial para o futuro.
Story of Seasons: Grand Bazaar está disponível para PS5, Xbox Series, Switch, Switch 2 e PC via Steam sem legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Marvelous USA.








