Análises

Mixtape – Review

Algumas questões universais vêm, vão e voltam sem aviso, e fazem parte das fases da nossa constante construção de identidade diante de um mundo caótico, nem sempre simpático a nós, mas em constante transformação. “Qual é o sentido da vida?” ou “o que vem depois da morte?” são alguns destes clichês existenciais, mas nenhuma dessas indagações dá conta da pergunta fundamental: “o que faz um jogo ser indefectível?”

Filosoficamente, claro, partimos do pressuposto de que nada é perfeito, mas a cada novo ciclo que iniciamos diante de uma obra, a cada vez que baixamos, instalamos e rodamos um game pela primeira vez, algumas certezas nos são claras, principalmente quando já temos alguma familiaridade com a franquia, seus produtores ou suas referências, mas nem sempre ele responde às expectativas, sejam as boas, sejam as ruins. Mas o quanto cada uma de suas características responde ao que se propõe, o quão bem-sucedido ele é, só se pode saber vivenciando-o.

Mixtape é um daqueles casos que chega sem muito alarde, mesmo tendo aparecido vez ou outra em peças de divulgação e, por isso mesmo, estava no radar de muitas listas de expectativas para este ano. É um título, afinal, que trata da transição da adolescência para a vida adulta, da eterna construção do “eu” a partir das pessoas de quem gostamos, das coisas que nos encantam, e das referências que colecionamos ao longo deste processo de descoberta.

E por mais que não faltem obras da cultura pop que buscam retratar este período muito peculiar da vida — e talvez a mais notória dos últimos tempos seja a excelente série Euphoria — poucas delas conseguem dialogar com os diferentes públicos que realmente almejem uma perspectiva passional, quase inocente deste recorte onde temos certeza de quase tudo, inclusive de que todos os demais estão errados.

No jogo, ambientado em algum momento dos anos 1990, em uma era pré-digital quando o CD ainda era uma novidade duvidosa, acompanhamos um instante muito particular na vida de Stacey Rockford, quando ela decide se mudar para a cidade grande em busca do sonho de uma carreira na indústria musical. Seu último dia na pequena Blue Moon Lagoon está todo planejado e será uma despedida inesquecível ao lado de seus dois melhores amigos, Van Slater e Cassandra Morino.

O problema de todo bom planejamento é, claro, que nem tudo sai como se idealizou, e o enredo nos leva pelos encontros e desencontros pelos quais os três passam, revisitando de modo não linear suas lembranças, seus conflitos pessoais e os fatos que marcaram esta amizade, sempre guiados pela cuidadosamente escolhida trilha sonora que compõe a tal mixtape do título, organizada e gravada pela nossa heroína.

Não à toa, o objeto materializa a essência da obra, não só temperando as desventuras que virão com ritmo, mas principalmente nos transportando para a mente de Stacey e toda a sua capacidade de dizer pelo não dito, de se comunicar e de estabelecer seus laços a partir do compartilhamento das músicas que lhe são tão importantes. Por mais que tenhamos personagens centrais apaixonantes, a música co-protagoniza esta jornada com maestria.

Com tamanha responsabilidade, a seleção das faixas presentes no game merece um cuidado todo especial, e a sensibilidade das escolhas é simplesmente magistral, mesmo que uma ou outra faixa não atenda particularmente no topo das preferências de cada um de nós. Pessoalmente, foi-me impossível segurar a emoção quando sobe o som em More Than This, de Roxy Music, mas a curadoria como um todo é muito bem tratada para cada momento.

Na mixtape de Rockford cabem canções como Candy, de Iggy Pop e Kate Pierson; Plainsong, do The Cure; Love, do The Smashing Pumpkins; e Freak, do Silverchair, além de outras tantas que prefiro não entregar aqui para que mantenham o efeito catártico que proporcionaram para mim. É possível que o game converse melhor com quem viveu a adolescência no mesmo período em que se passa, mas provavelmente tem algo a dizer para qualquer um que já vivenciou ou que esteja vivenciando esta fase complicada e deliciosa da vida.

A quebra da quarta parede e o próprio tratamento leve da narrativa, mesmo quando se apropria de temas nem tão confortáveis assim, também se ancoram em referências muito presentes no final do século passado, sobretudo em filmes como os de John Hughes, a exemplo de O Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985) e obviamente o eterno Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, 1986). Alguns deles são visualmente citados e homenageados no jogo, aliás.

Isso fica evidente não só pela força da trilha musical no plot, mas também pelo retrato do jovem disfuncional e sua busca um tanto quanto rebelde pela identidade diante da sociedade suburbana norte-americana, algo que facilmente pode ser sua relação mais próxima com produções mais contemporâneas, destacando-se a similaridade com a franquia Life is Strange. Contudo, longe do peso de decisões essenciais, o foco em Mixtape está na forma como as memórias, mesmo de coisas cotidianas e aparentemente pouco importantes, enraízam este lugar de conforto para o amadurecimento.

E se o trabalho do aspecto sonoro é excepcional também pelo belíssimo desempenho de vozes e pela sonorização delicadamente bem mixada, os gráficos do jogo não ficam para trás. A direção de arte brilha com modelos tridimensionais muito bem texturizados que remetem às matrizes analógicas das fitas VHS de época e que fazem uso de aberrações cromáticas e contrastes de modo não menos do que magnífico.

A escolha por usar material de arquivo em live action para ilustrar certas cenas é inusitada, e também um outro acerto estético que cria conexões não só com o que está sendo retratado, mas com a própria linguagem de recortes aqui adotada. Soma-se a tudo isso uma direção certeira, que aproveita bem recursos cinematográficos como a câmera lenta e uma taxa de quadros explicitamente variável que, por vezes, emula de leve uma animação em stop motion. Em síntese, o jogo é um deleite visual em todas as suas dimensões, sobretudo ao tratar de afetos e lembranças.

Revisitar o passado e vivenciar o presente aqui não exigem, entretanto, um foco no desafio, e jogar Mixtape é uma experiência muito mais sinestésica do que especialmente exigente. Cada passagem é marcada por mecânicas únicas, mas bastante simples e quase infalíveis, como fugir por uma rua movimentada ou descer uma ladeira em cima do skate. A maior dificuldade, se é que ela existe, está em cumprir alguns requisitos para troféus, como completar uma tarefa em um certo tempo ou sem errar. Isso para quem está preocupado, claro, em buscar uma platina, e mesmo assim, esta é das mais fáceis de se conseguir depois de ver a lista.

Quem, portanto, busca um jogo com minigames desafiadores provavelmente irá se decepcionar quando encontrar passagens onde a meta é andar embriagado por uma locadora ou atirar pedrinhas no lago. Com ações variadas, inusitadas até (como a já icônica cena do primeiro beijo), Mixtape está propondo uma mistura de sensações catárticas e definitivamente não está nem um pouco disposto a provocar ou punir o jogador.

Possivelmente seja por isso que a curtíssima duração da campanha seja apropriada. Em menos de três ou quatro horas os créditos sobem, e não é difícil que venham junto com uma ou outra lágrima que possa escorrer dos olhos de quem acabou de se colocar na pele destes jovens tão irritantes quanto cativantes. Suas histórias, obviamente, não cabem nesse tempo, e não existe qualquer pretensão em apontar para um final em si. O que acontece com cada um deles depois daquele dia inesquecível jamais será conhecido e, sinceramente, a busca por um desfecho assim seria irrelevante.

Se tudo isso não fosse suficiente, o tratamento temático e a surpreendente profundidade alcançada em tão pouco tempo de tela já seriam motivos para uma recomendação máxima de Mixtape, mesmo para aqueles que possam torcer o nariz para a temática, a falta de uma jogabilidade realmente desafiadora ou a sua curta duração. Tem-se aqui um jogo autêntico e com o coração no lugar certo, com uma escrita afiadíssima que consegue transitar pelo emocional sem qualquer risco de pieguice apelativa ou de atalhos fáceis.

Não acredito que o jogo seja uma unanimidade máxima, como nada o é. Porém, isso não me impede de dizer que, se o nobre (e quase injusto) trabalho da análise é verbalizar criticamente os principais pontos positivos ou negativos, certos jogos transcendem a tarefa. E a filosofia que me perdoe, mas desprendo-me dela para, sem qualquer receio do exagero, afirmar que sim, Mixtape é perfeito.

Mixtape está disponível para PS5, Xbox Series e PC com vozes originais em inglês e com menus e legendas localizados para o português do Brasil. Esta análise foi produzida jogando no PS5 padrão e realizada com um código fornecido pela Annapurna Interactive.

Veredito

Mesmo que quisesse me esforçar em busca de uma pretensa ponderação, este jogo não daria brechas para qualquer “senão”. A conjunção de imagem e som é um verdadeiro espetáculo, a narrativa une história, ritmo e condução de forma mágica, e a experiência se prova uma catarse da qual é difícil se desvencilhar. Mixtape é simplesmente, sem vírgulas ou asteriscos, uma obra-prima de grandeza maior.

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