O início dos anos 1990 tem sido um dos períodos mais explorados para o relançamento de jogos clássicos, dos mais conhecidos a outros quase obscuros, mas mesmo com tantas obras revividas recentemente, a superfície está bem distante de sequer ser arranhada. Foi um período efervescente, em uma época onde o ciclo de produção e lançamento de um produto era muito menor, e em dois ou três anos, uma mesma marca poderia receber uma infinidade de obras, das mais aclamadas às menos, digamos, populares.
Antes da explosão de reconhecimento e notoriedade de suas principais propriedades pelo cinema, a Marvel tinha no videogame uma das mídias de maior potencialidade de alcance, e mesmo personagens até então menos conhecidos do grande público tinham seu espaço de protagonismo fora das páginas dos quadrinhos. E para relembrar destes bons tempos, em parceria com a Limited Run Games e a Konami, a gigante do entretenimento, com sua divisão própria para game, resgata uma coleção imponente, a qual chamou de Marvel MaXimum Collection.
São ao todo seis jogos, alguns deles com diversas versões para plataformas distintas, estrelando personagens como o Homem-Aranha, o Capitão América, O Surfista Prateado, os X-Men, e outros Vingadores menos celebrados em aventuras que, mesmo cada qual com suas particularidades, variam entre os bons e velhos beat ‘em ups e shoot ‘em ups, como é o caso específico da produção estrelada pelo arauto do Galactus.
A maior estrela da seleção, sem dúvidas, é X-Men: The Arcade Game (1992), cujo título não poderia ser mais direto. É um jogo para arcades que permitia que assumíssemos um de vários filhos do átomo disponíveis como personagens jogáveis para enfrentar mais uma investida de Magneto. É, dentre todos, o único que permite sessões multiplayer on-line para até seis jogadores via rollback, algo que não foi possível avaliar nesse período pré-lançamento por eu não ter conseguido encontrar sessões disponíveis.

Em sua versão tradicional off-line, é tudo o que se pode esperar de um jogo do gênero, com dezenas de inimigos prontos para serem espancados até o último deles cair, sempre com um chefão aguardando no final de fases lineares e não muito diversas, com ocasionais obstáculos e armadilhas. Seu maior pecado, contudo, segue sendo o combate raso com ataques simples e combos automáticos, saltos desengonçados, golpes aéreos imprecisos, e especiais que tiram parte da barra de vida do personagem.
Portanto, por mais prático e fluído que seja, seguindo um padrão bastante comum em seu tempo, é bastante repetitivo, não havendo grandes diferenças entre todos os bonecos selecionáveis, salvo detalhes na cadência de ataques e alcance dos especiais. É possível começar com qualquer um deles e, na ocasionalidade de se precisar acionar um “continue”, seguir com qualquer outro muda muito pouco na experiência.

Captain America and The Avengers (1991), por sua vez, é aquele que oferece três versões diferentes para atender todos os gostos, com Arcade, Mega Drive e SNES no cardápio. Por mais que o meu saudosismo pessoal seja com a versão do console de 32 bits da SEGA onde experimentei o jogo na minha infância, é inegável que, como de praxe, a versão de fliperamas é mais agradável, bonita e diversificada.
O jogo traz o escoteirinho da Marvel junto a Homem de Ferro, Gavião Arqueiro e Visão enfrentando seu arqui-inimigo Caveira Vermelha, aqui aliado a outros vilões clássicos da editora, e mesmo sendo visualmente inferior ao jogo dos Vingadores lançado no ano seguinte, traz mais diversidade de combate, com ataques especiais e diferenças mais notáveis entre os quatro selecionáveis. Ainda assim, é menos fluído e nada plástico, mesmo em sua versão mais vitaminada.

Já Spider-Man/Venom: Maximum Carnage (1994), o primeiro da lista protagonizado pelo cabeça-de-teia ao lado de Venon, o inimigo mais aliado que o Aranha já teve graças à popularidade que ganhou desde quando surgiu nos quadrinhos pela primeira vez. Juntos contra o Carnificina (como o título já sugere) em uma livre adaptação de um dos mais celebrados arcos das HQs, ambos precisam espancar bandidinhos de rua enquanto eventualmente escalam as paredes de Nova Iorque espalhando suas teias para todos os lados.
Com animações surpreendentes para a época e movimentos diversificados, se destacando em ambas as versões de Mega Drive e SNES, tem bons méritos no sistema de gameplay, como o arremesso de teia para prender ou laçar inimigos, e até para defesa. Robusto, é um dos mais divertidos dentre toda a coletânea, mesmo que não traga grandes inovações para além da capacidade de vez ou outra subir pelas paredes para se posicionar melhor ou, quem sabe, encontrar algum item escondido. A impossibilidade de se jogar em multiplayer local somada à dificuldade elevada acabam tornando-o mais restritivo para jogadores menos experientes.

Sua sequência direta, porém, chamada de Venom/Spider-Man: Separation Anxiety (1995), coloca ambos os personagens contra a Fundação Vida e o que sobrou do legado do Carnificina, e este sim já permite enfrentar os perigos ao lado de outra pessoa no sofá. O jogo ainda permite um sistema interessante de suporte de outros personagens cultuados, mas é claramente uma versão requentada, pouco inspirada e tecnicamente inferior ao seu antecessor.
O amigão da vizinhança encontraria os super-heróis mais poderosos da Terra em Spider-Man/X-Men: Arcade’s Revenge (1992), game com o maior número de versões de toda a seleção. São adaptações de SNES, Mega Drive, Game Boy e até do Game Gear, cada qual com suas próprias limitações, sendo as de portáteis obviamente as menos poderosas, válidas muito mais pelo elemento de preservação histórica e eventual nostalgia para quem já as conhecia do que pelas qualidades técnicas.

Dotado de fases tematicamente ligadas a cada um dos heróis, é certamente um dos mais diferentes e desafiadores jogos da coleção, com elementos de plataforma, puzzles e labirintos que vão muito além da pancadaria pura das outras obras citadas. Com a customização do ambiente, as habilidades únicas são melhor exploradas e, mesmo sem a liberdade de escolher qualquer um dos heróis, é o mais criativo em termos de level design dentre todos, mesmo que alguns comandos imprecisos e o alto nível de desafio despertem aquele desejo de jogar o controle na parede.
Por fim, Silver Surfer (1990) não é só o jogo mais antigo da seleção, como também o mais simples deles tecnicamente falando, sendo o único deles exclusivo da geração 8 bits. É basicamente um jogo de navinha com progressão variável entre a lateral e a vertical, e permite que exploremos, na ordem de nossa escolha, mundos compostos por três fases cada, sendo a última um embate contra o chefão.

É inequivocamente a mais difícil e punitiva dentre todas as produções da lista, não pelo domínio dos controles bastante objetivos, mas pela distribuição de inimigos com padrões assombrosos de ataque e de movimento, bem como pelo design das fases apertado e, não raro, opressor. É visualmente assombroso considerando as limitações do console, mas a exigência beira a insanidade. É tão bonito quanto frustrante.
Seja pelos padrões de dificuldade ou por um comodismo, todos esses jogos ganham qualidade de vida com o salvamento a qualquer momento – não sendo possível criar vários pontos de save como em coletâneas similares, entretanto – e a função de rebobinar o tempo para correção de erros para novas tentativas, ambas possibilidades inevitáveis para os dias atuais em coleções assim.

Completam o pacote algumas opções cosméticas, como o filtro para emulação de telas de tubo, a inserção de planos de fundo temáticos dos jogos, e opções de alteração no formato de tela, permitindo que mantenhamos o aspect ratio original ou forcemos a adequação ao formato 16:9, o que, cá entre nós, deforma tudo a ponto da opção ser praticamente inútil. Tudo isso já se tornou praxe para estas versões resgatadas de tempos antigos, e aqui, por mais que sejam inferiores ao que já foi feito antes pela quantidade limitada de alternativas, cumpre o seu papel e torna tudo um pouco mais palatável para padrões mais modernos.
Outra melhoria ao alcance de um único toque é o menu de trapaças, que varia de um jogo para outro e nem sempre está disponível em todas as suas possibilidades. A maioria, porém, permite que se apele para barras de vida infinita ou vidas e continues infinitos. Somado ao controle de dificuldade complementar também customizável antes de se entrar no jogo, bem como o fato de adicionarmos quantos créditos desejarmos às versões oriundas dos arcades, a coleção se torna mais acessível para quem só quer conhecê-la ou relembrá-la de forma descompromissada.

Como material complementar, a coleção compensa a ausência de algumas novas funcionalidades com um arquivo histórico dos mais ricos e interessantes, trazendo artes originais de cartazes, publicidade e capas das plataformas para as quais eles foram lançados. A seleção musical também é impecável, valorizando ótimas composições criadas especialmente para estes games, e o cuidado com a curadoria aqui é exemplar.
No final, Marvel MaXimum Collection resgata do esquecimento algumas das produções baseadas no panteão da Casa das Ideias mais interessantes da geração de ouro da era bidimensional. Diferentes entre si, mas com uma certa coesão temática, são games com valor histórico e nostálgico que podem, inadvertidamente, conquistar e entreter até mesmo gerações mais jovens, mesmo que apresentem, sem qualquer maquiagem, os traços de sua idade.

Aproveitando a esteira do ainda recente Marvel Cosmic Invasion e segurando o hype para o vindouro Marvel Tōkon: Fighting Souls, esta coleção de jogos clássicos certamente é um capricho para os fãs mais antigos destes personagens tão icônicos, e por mais que não traga melhorias visuais em jogos esteticamente defasados e, principalmente, não corrija limitações de jogabilidade típicas do seu tempo, é uma recomendação relativamente certa sobretudo para os entusiastas de retrogames em geral.
Marvel MaXimum Collection está disponível para PS5, Xbox Series, Switch e PC sem localização de vozes ou textos originais, mas com novos menus traduzidos para o português do Brasil. Esta análise foi produzida jogando no PS5 padrão e realizada com um código fornecido pela Limited Run Games.




