Quase três anos após seu lançamento no PC, Hunt the Night finalmente chegou aos consoles. Desde que foi anunciado, a proposta de combinar elementos de clássicos RPGs de ação da era dos 16 bits com um combate mais acelerado e uma ambientação inspirada em Bloodborne foi suficiente para me deixar ansioso para jogá-lo.
No entanto, a demora para o lançamento, somada a algumas análises pouco otimistas da versão de PC, acabou fazendo com que eu me esquecesse um pouco do título. Agora que finalmente pude conferi-lo, devo admitir que muitas das promessas em relação à sua ambientação foram cumpridas. Por outro lado, algumas mecânicas de combate deixaram esse aspecto bem abaixo da qualidade esperada.
A história se passa em Medhram, uma terra onde a humanidade vive em um ciclo constante de luz e trevas. Após cada período de luz, a escuridão retorna, trazendo consigo criaturas das mais assustadoras. Para combater esse destino inevitável, a humanidade funda a ordem dos Espreitadores — caçadores que utilizam os próprios poderes da escuridão para lutar contra as forças que ameaçam sua existência.
A protagonista desta história é Vesper, uma dessas guerreiras que carrega consigo uma marca decorrente de uma traição ligada ao passado de sua família. Sua jornada começa quando um novo ciclo de trevas ameaça mergulhar o mundo em uma destruição definitiva.
A partir daí, a campanha acompanha sua missão de enfrentar as criaturas da noite, descobrir a origem dessa corrupção, investigar seu próprio passado e tentar quebrar o ciclo que aprisiona a humanidade. Embora a narrativa não seja das mais originais, os diálogos com NPCs, os documentos encontrados e as descrições de itens ajudam a expandir o universo do jogo de maneira satisfatória.

Essa ambientação é um dos aspectos mais marcantes de Hunt the Night. Os gráficos em pixel art apostam em uma paleta de cores mais escuras, mas sem deixar de apresentar cenários variados que ajudam a construir uma identidade visual bastante sombria. Entre esses locais estão florestas amaldiçoadas, ruínas abandonadas, vilarejos destruídos, castelos e templos. Essa característica da direção de arte reforça a inspiração em elementos góticos, o que inevitavelmente remete ao universo de Bloodborne.
A trilha sonora acompanha essa proposta com composições que alternam entre momentos melancólicos e trechos mais intensos durante os combates, principalmente nas lutas contra chefes. O resultado são músicas que mantêm o jogador constantemente em alerta, como se algo ameaçador pudesse surgir das sombras a qualquer momento.
A progressão pelos mapas segue um formato semiaberto, no qual novas áreas são reveladas à medida que o jogador avança na história. Há também uma boa quantidade de segredos a serem descobertos — o que, muitas vezes, exige revisitar algumas regiões. Nesse sentido, a ausência de um mapa de orientação acaba dificultando lembrar exatamente onde esses segredos ficaram para trás. Até há um sistema de viagens rápidas para encurtar trajetos de volta, mas ele não permite viajar para todos os pontos de controle.

Essa falta de um sistema de orientação também prejudica a progressão na campanha como um todo, já que há poucas indicações sobre qual caminho seguir. A ideia é que o jogador explore e descubra as coisas por conta própria, mas ficar vagando sem rumo pode acabar sendo frustrante em alguns momentos. Por outro lado, os puzzles encontrados pelo caminho, mesmo não sendo dos mais difíceis, são bastante criativos e ajudam a reforçar ainda mais a ambientação do jogo.
Outra mecânica que acaba atrapalhando um pouco a navegação é a esquiva, já que ela se torna necessária para superar alguns obstáculos e atravessar seções de plataforma. Ao longo da campanha, que pode se estender por 15 horas, ter que ficar tentando descobrir a melhor forma de passar por determinadas plataformas enquanto é atacado por inimigos acaba se tornando cansativo.

É no combate que Hunt the Night apresenta o que deveria ser seu grande diferencial. O sistema lembra bastante os RPGs de ação clássicos inspirados em The Legend of Zelda, com visão aérea, mas com a proposta de ser uma experiência muito mais frenética.
Vesper possui um arsenal variado de armas e itens, que inclui desde espadas e lanças até granadas, armas de fogo e poderes mágicos. Alternar entre essas ferramentas é essencial para lidar com diferentes tipos de inimigos. Alguns adversários são mais vulneráveis a ataques físicos, enquanto outros exigem o uso de armas à distância, efeitos elementais ou habilidades especiais.
O combate exige precisão e reflexos rápidos para esquivar no momento certo, manter uma distância estratégica e entender o padrão de ataques dos inimigos. Não é incomum que, durante os principais encontros, a tela fique repleta de projéteis e golpes vindos de diferentes direções.

Nessas situações, surgem novamente alguns problemas relacionados à mecânica de esquiva. Um deles é a sensação de atraso ao executar um novo comando logo após realizar um desvio, o que dificulta encaixar um contra-ataque ou até mesmo usar um item de cura no momento certo.
Outro problema que frustra bastante em Hunt the Night é que as hitboxes dos ataques inimigos são bastante inconsistentes. Isso faz com que o jogo, principalmente nas lutas contra chefes, pareça um processo em que o nível de dificuldade é determinado muito mais pela aleatoriedade dos ataques inimigos e, consequentemente, por sua sorte em conseguir desviar deles, do que pelas próprias mecânicas dos bosses.
Mesmo com esses empecilhos, as lutas contra os chefes são bastante variadas e podem ser destacadas como uma das melhores características do jogo. Em contrapartida, os inimigos básicos acabam se repetindo em excesso ao longo da campanha, o que pode levar o jogador a simplesmente ignorar confrontos não obrigatórios a partir da metade da jornada.

Outro fator que contribui para essa falta de vontade de participar das batalhas é a ausência de um sistema de evolução de nível para Vesper. Algumas poucas missões secundárias, itens adquiridos com vendedores e de baús, além de bônus passivos podem ser obtidos ao longo da campanha, mas, fora isso, não há muitos incentivos para quem decide eliminar todos os inimigos pelo caminho.
Outra forma de progressão envolve as caçadas, que devem ser aceitas na taverna da cidade para depois serem acessadas por meio de portais específicos espalhados pelos mapas. Esses desafios podem apresentar ondas de inimigos ou confrontos contra chefes e acabam sendo quase obrigatórios para quem deseja avançar até o final da história com mais facilidade, já que a recompensa é sempre um item que aumenta a vida máxima de Vesper.

Por fim, o título também não está livre de problemas técnicos na versão de PS5. Além dos já citados atrasos após a esquiva, há pequenos engasgos em algumas lutas contra chefes, trechos de texto que não foram legendados e até situações em que o inventário de um vendedor simplesmente desaparece.
De forma geral, Hunt the Night acerta na ambientação e funciona como uma boa homenagem aos RPGs de ação do passado, mas peca ao exigir um nível de precisão em algumas lutas que não está bem equilibrado com a progressão da personagem e com os problemas presentes em algumas de suas mecânicas de jogo.
Hunt the Night está disponível para PS5, Switch, Xbox Series e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 (no PS5 Pro) e foi realizada com um código fornecido pela DANGEN Entertainment.




