Análises

Dark Deity 2 – Review

Ao longo da última década (ou pouco mais que isso), com o crescimento dos jogos independentes, foi natural que o volume de RPGs de estratégia voltasse a crescer, quase sempre carregando um DNA muito fortemente inspirado em um dos grandes bastiões do gênero. E, por mais que seja a essa altura do campeonato, bem exaustivo falar do impacto e influência de Final Fantasy Tactics (algo que eu já fiz à exaustão no review do “remake” do ano passado) ou de Tactics Ogre (outro que também foi exaltado quando teve seu remake), um outro título bem importante sempre acabou passando um pouco batido nessas discussões.

Dark Deity 2, novo jogo da indie.io e da Sword & Axe, veste muito claramente as influências desse outro título (ou série): Fire Emblem. Trajando a estética e estilo de gameplay visto nos jogos mais clássicos da IP da Intelligent Systems com a Nintendo, especialmente os clássicos de NES, SNES e GBA como Fire Emblem: The Binding Blade e Shadow Dragon, o exato tipo de jogo que te desafia e exige tanto de sua habilidade intelectual quanto te recompensa pelos passos que você decide dar. E, por mais que eu tenha minhas críticas (e elogios rasgados) aos caminhos que a série da Nintendo seguiu, é inegável que, se alguém manteve o padrão de qualidade dos SRPGs sempre no alto mesmo com o sumiço da Square Enix do gênero, foi ela.

E essa inspiração estabelece, naturalmente, uma expectativa alta de Dark Deity como um todo. Eu acabei jogando o original quando saiu lá em 2022 para o Switch e, sinceramente, era um daqueles jogos que eu sempre quis que chegasse a todas as plataformas possíveis pelo quão incrível a experiência foi. Retornar agora para Dark Deity 2 no PS5, dado o quão bom o original era, também adiciona a essa expectativa. E, de alguma forma, o título consegue superar ela.

Dark Deity 2

Dark Deity 2 se passa 25 anos após os eventos do primeiro jogo, com o então protagonista tendo reconstruído o continente de Verroa junto à Eternal Order. Com Irving agora à frente do reino, todos os seus esforços para protegê-lo são testados quando o Holy Asverellian Empire decide partir em uma ofensiva para tomar território do continente para si. Com o antigo protagonista agora responsável por toda a Order of Eternals, encarregada de proteger toda a região de possíveis ameaças, cabe a uma nova geração de heróis assumir a linha de frente e fazer todo o possível para proteger Verroa e seu povo.

Como uma sequência que se passa no mesmo universo e em relativamente pouco tempo após o jogo anterior, é natural que se tenha alguma reserva de encarar um RPG sem conhecer a história de um título que não havia chegado ao PS5. A decisão por colocar o protagonismo ao redor dos três filhos do herói original e focar a história totalmente na jornada deles e desse novo grupo chamado de Eternal Delegation torna o jogo muito mais acessível, fazendo com que seja desnecessário esse conhecimento prévio para aproveitar o jogo. É claro, você pegará mais das referências da história e tudo e será algo realmente mais completo, mas não obrigatório, já que eles quase não ocupam tempo de tela.

A dinâmica entre os três co-protagonistas, Gwyn, Riordan e Arthur, é o cerne da aventura e grande parte do porquê ela funciona. Em meio a um mundo em gigantesca turbulência, no qual, além de todos os efeitos da guerra, todos os elementos mágicos também começam a enlouquecer e afetar a própria existência do mundo, eles precisam não só encontrar uma maneira de salvá-lo, mas lidar com o próprio peso das expectativas que sua linhagem traz. Todos os três são muito bem escritos, com cada um tendo seu próprio arco narrativo sendo construído aos poucos e entregando resoluções muito satisfatórias.

Dark Deity 2

Cabe aqui dizer que o jogo conta com um sistema narrativo bem derivativo no qual a rota que você irá seguir é influenciada pelas decisões que você tomar. Isso significa que você precisará jogar o título mais de uma vez para ver tudo. É de se questionar se elas mudam tanto assim a narrativa, já que, no geral, servem mais para definir quais personagens e facções irão trabalhar contigo do que afetar a resolução final da história. Ainda assim, é uma boa adição e traz um fator replay que é sempre algo positivo.

O lado negativo disso é que, talvez por alguns dos personagens não estarem presentes em determinadas versões dos capítulos finais, o jogo sofre um pouco na forma em que decide trabalhar seus personagens secundários. Muitos deles são bem legais e interessantes, mas acabam sendo deixados de lado após certos capítulos, sem grandes (ou quase nenhum) avanço em suas respectivas histórias, servindo basicamente só como unidades para serem usadas em combate. O jogo até tem um sistema de amizade entre os personagens, similar ao visto em Fire Emblem, mas ele serve só para trazer recompensas para o jogador e algumas interações menores entre os personagens, sem nada muito duradouro como o que tem sido visto ao longo da mencionada série.

Dito isso, a alma da experiência aqui é o seu combate e nisso Dark Deity 2 entrega tudo e mais um pouco. Estruturalmente, ele é o que você já esperaria. Dividido em capítulos, com vários pedaços de história sendo contados entre batalhas nos quais o jogador tem algumas limitações sobre quantas e quais unidades pode escolher, além de alguns requisitos básicos, como um limite de turnos para vencer e condições de derrota. O jogador pode mover todas as suas unidades na ordem que quiser durante o seu turno, com o inimigo agindo posteriormente da mesma forma. Cabe ao jogador, então, não só pensar em atacar (inclusive porque inimigos, se estiverem vivos, têm direito a uma contra-ataque), mas saber quais possíveis movimentos os adversários poderão fazer, muito no estilo de um jogo de xadrez ou dama.

Dark Deity 2

Naturalmente, suas unidades possuem suas próprias limitações, só podendo se mover e agir uma vez por turno, além de Mana que é usada para usar habilidades ofensivas e defensivas. Planejamento é tudo aqui, já que você precisará atacar muitas vezes pensando mais na sua própria sobrevivência do que na destruição do inimigo. Perder unidades em combate não resultará em uma morte permanente, mas na inabilidade de usar a unidade pelo resto da luta e estatísticas reduzidas nas próximas lutas.

Outro ponto bastante estratégico está no lado de desenvolvimento das suas unidades. Ao subir de nível, tal qual em Fire Emblem, você receberá melhorias aleatórias para as suas estatísticas, o que torna o impacto exato de cada evolução nada previsível mas, à medida que você chega em certos níveis, as opções de customização vão se abrindo. A primeira delas é o sistema de mudança de classes em que você pode escolher uma entre várias opções de classe a cada novo tier que você alcança. Você poderá ainda equipar novas armas ou forjar runas em suas armas, modificando os bônus delas, e criar anéis que te permitem ajustar bastante o gameplay. É um sistema bem rico e que, para os jogadores mais dedicados, renderá por conta própria dezenas de horas.

Tudo isso, no entanto, pode ser relativamente controlado dadas as vastas opções que o jogador tem de customização da experiência como um todo. Não só o jogo traz quatro opções diferentes de dificuldade, com a possibilidade de fazer pequenos ajustes como randomizar os inimigos que você enfrentará, manter os ganhos de estatísticas como aleatório ou uma média das possibilidades, aumentar os ganhos de XP e dinheiro ou várias outras opções disponíveis. É algo que pode tornar o jogo extremamente acessível e quebrado para novatos ou insanamente desafiador para os veteranos mais calejados, sendo outro ponto muito bem-vindo de qualidade de vida.

Dark Deity 2

Por fim, sob o ponto de vista técnico, DD2 entrega exatamente o tipo de experiência que se imaginaria de um jogo com a sua proposta. Os cenários e modelos de personagem são de uma pixel art muito bem detalhada, com uma variedade até bem grande deles, as animações de combate, apesar de simples, entregam exatamente o sentimento de nostalgia dos FEs antigos que ele busca e as artes durante a parte narrativa, que é, essencialmente, uma visual novel, funciona muito bem. A trilha sonora também ajuda nisso e o sentimento de uma experiência retrô com sensibilidades modernas é exatamente o que você terá aqui.

No geral, Dark Deity 2 é um ótimo RPG de Estratégia/Tático que entrega uma narrativa muito boa e um combate excelente, acessível para novatos e desafiador para os mais veteranos na medida correta. Embora alguns problemas com o desenvolvimento dos personagens acabe atrapalhando um pouco, as opções de customização e todos os sistemas ao seu redor realmente se combinam para entregar no PS5 uma experiência digna do melhor que se viu em gerações passadas no gênero.

Dark Deity 2 está disponível para PS5, Switch, Xbox Series e PC. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Sword & Axe.

Veredito

Dark Deity 2 é um excelente RPG de estratégia que entrega um forte sentimento de nostalgia ao mesmo tempo em que traz novidades o suficiente para o seu gameplay a fim de manter a sensação de ser um jogo moderno. Seu combate brilha e a história, apesar de alguns deslizes, se sustenta muito bem ao longo de toda a jornada, tornando o título uma excelente pedida para quem gosta do gênero.

90

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