Análises

Terminator 2D: NO FATE – Review

É impossível começar esta análise sem relembrar que o primeiro jogo que eu experimentei alugar assim que coloquei a mão no meu poderoso Master System 3 lá no início dos anos 1990 foi RoboCop Versus The Terminator, um marco para aquele tempo em vários sentidos, sobretudo no gênero de tiro e ação por progressão lateral no auge de sua popularidade. Já naquele momento, para aquele modelo de jogo, ficou no imaginário a pergunta: e se eu pudesse controlar o Exterminador? Três décadas depois, finalmente veio a resposta.

Não é uma coincidência, portanto, que assim que vi o anúncio de uma adaptação em estilo retrô de um dos melhores filmes de ficção científica de todos os tempos, eu tenha ficado bastante empolgado com cada sprite, cada referência fiel em todos os materiais de divulgação. Terminator 2D: NO FATE é, em todos os sentidos, uma projeção perfeita de tudo o que os fãs de longa data do estilo e do lendário filme dirigido por James Cameron sempre quiseram.

Na prática, os anseios se realizam quase em toda a sua plenitude. Sem grandes revoluções em termos da jogabilidade típica de um ótimo Run and Gun, tem-se aqui um verdadeiro deleite na mistura entre um combate satisfatório com a exploração na medida certa. Arrasar com tudo aquilo que aparece pela frente enquanto se avança por cenários cheios de fan service pode ser uma verdadeira catarse tanto para os veteranos do formato quanto para novos entusiastas, desde que as expectativas estejam no lugar correto.

Há aqui um verdadeiro compilado de tudo aquilo que já se tornou característica essencial do gênero, e atirar enquanto buscamos um domínio do campo de batalha é, de modo geral, bastante agradável e preciso. Usar os gatilhos para mirar enquanto se está fixo ou praticar o tiro livre  enquanto se movimenta é uma solução dupla bastante elegante para as limitações que podem causar estranhamento quando retornamos para clássicos como Contra ou Sunset Riders. Os controles deste jogo unem a simples execução, a fácil adaptação, mas um domínio que demanda esforço e resiliência, a combinação mágica de um bom game design.

O maior tropeço aqui, porém, está na absoluta simplicidade como tudo acaba se desenvolvendo, sem qualquer progressão real das habilidades de jogo ou nas capacidades de nossos personagens. Ainda que seja fiel às raízes de suas inspirações, como a inoxidável franquia Metal Slug, parece que Terminator 2D: NO FATE se contenta em manter-se na superfície, sem jamais se arriscar no aprofundamento dos sistemas de combate e movimentação.

Isso não significa, porém, falta de diversidade. Durante a campanha central, graças a um modelo de alternância entre os três protagonistas centrais da aventura em diferentes épocas, precisamos nos adaptar a formas distintas de avançar. Com Sarah Connor, ágil e letal, enfrentamos bandidos no deserto, precisamos cuidar da furtividade ao fugir de um hospital psiquiátrico, ou até, mais velha, aproveitar de um arsenal futurista para enfrentar máquinas avançadas no pós apocalipse.

John, por sua vez, pode ser controlado ainda adolescente na adaptação de uma das melhores cenas de perseguição sobre rodas do cinema, naquelas típicas passagens de descanso do tiroteio e, ao mesmo tempo, tensão na resposta rápida; ou já adulto, também no futuro, liderando a resistência destruindo tudo o que se mover pela frente. O Exterminador, claro, também tem seus momentos, incluindo a entrada ousada e triunfal no bar em busca de roupas e de uma moto, e em outros trechos importantes.

Do trio, porém, o T-800 é aquele que menos se destaca, se mostrando praticamente um coadjuvante de luxo na trama, centrada principalmente na sua maior heroína. A linha narrativa central, aliás, simplesmente deixa o personagem originalmente interpretado por Arnold Schwarzenegger de escanteio, restando a ele uma ou outra fase de transição. A coisa melhora em ramificações alternativas, mas não muito. Não poder encarna-lo é, sem dúvidas, uma das maiores lamentações do jogo, porque Terminator 2D: NO FATE, no final, não tem quase nada de Terminator, restando um sabor meio agridoce àquele desejo de infância do qual falei no início desta análise.

Aproveitando que citei as variações de enredo, o jogo me surpreendeu positivamente em não se limitar só aos eventos retratados no cinema, mas também expandir a trama para outros momentos importantes. A fase inicial ou os níveis no futuro são uma preciosidade, mesmo que possam tirar o foco da emergência e do perigo da presença sufocante do T-1000, que acaba se mostrando pouco ameaçador pelo confronto quase sempre indireto.

Porém, é evidente que aqui também faltou equilíbrio e solidez. Mecânicas aprendidas no início da jornada acabam esquecidas, inimigos desafiadores somem sem deixar lembranças e a metade final é apressada por demais, desperdiçando grandes conflitos que, muitas vezes, acabam resumidos em cut-scenes incrivelmente animadas, mas que deveriam ser experienciadas. Não quero entregar demais, mas espere por curtir algumas cenas icônicas só as assistindo, não as jogando. Uma pena.

Quanto às linhas alternativas, são basicamente duas para além da que já conhecemos, e são ativadas por escolhas a serem feitas na metade do caminho. Elas mudam um evento moral especialmente significativo e se desdobram em fases levemente diferentes, bem como finais distintos. Nada que seja muito destoante do que já conhecemos, mas não deixa de ser um elemento fundamental para o fator replay, essencial para fazer o investimento valer.

Isso porque a aventura é extremamente curta e pode ser finalizada em menos de uma hora depois que já aprendemos os padrões e as armadilhas de cada fase. Para conseguir o desejado ranking S em todas as fases, não devemos gastar mais que 45 minutos do nosso precioso tempo. Para os apressados com pouco tempo, uma ótima notícia, mas para quem esperava vivenciar a jornada e se apegar à própria nostalgia, fica o sentimento de que tudo se esgota antes mesmo de começar.

Para alargar a vida útil do game, há alguns modos de jogo que vão se abrindo conforme o exploramos, incluindo o Fliperama, focado totalmente na ação ininterrupta e na busca por altas pontuações; e o Mãe do Futuro, que simplesmente resume a campanha às fases estreladas por Sarah Connor, conta com pontuação e se agrava pela morte permanente.

Há também o Modo Infinito, com hordas contínuas em arenas fechadas com dificuldade escalonada, e um ótimo Boss Rush, que permite passar por todos os encontros com o T-1000, além de outros grandes inimigos presentes no fim de cada fase convencional. Todas possibilidades interessantes, mas que ao mesmo tempo são formas remixadas daquilo que já fora visto antes. Dificilmente, serão atrativas o suficiente para manter o jogador interessado por muito tempo.

Sempre que o problema de um jogo é querermos mais dele, ou mais motivos para nos manter nele, é um problema relativo. Mas ainda assim, é inegável que a expectativa criada pela base conceitual de Terminator 2D: NO FATE acaba eclipsada por uma experiência curta e rasa que, em termos de jogabilidade e de narrativa, mal arranha a superfície de suas potencialidades.

A frustração só não é maior porque o aspecto audiovisual do jogo é próximo do impecável. Há sim uma sensação de que o boneco do Exterminador, na falta dos direitos do uso da imagem de Schwarzenegger, é meio esquisito e muito destoante dos bons traços usados nas passagens animadas com Linda Hamilton, mas no final das contas, isso é circunstancial e não afeta o bom trabalho feito na recriação em pixel art de uma verdadeira obra de arte.

Destaque para o trabalho magistral de iluminação e sombreamento, sobretudo nas fases internas onde o jogo de luz é parte do processo, bem como as animações de movimento, que contam com uma fluidez bastante sofisticada para um jogo em duas dimensões, principalmente na recriação das cenas mais marcantes. A riqueza dos detalhes e referências é de nos fazer abrir sorrisos de contentamento do começo ao fim.

Não menos impressionante é a parte sonora, que traduz muito bem a trilha clássica do filme, incluindo algumas surpresas não tão ocultas assim que premiam os jogadores mais atentos. A falha (por motivos de coerência, é verdade) acaba sendo pelo trabalho de vozes ausente, com toda a comunicação restrita a textos, tal como era comum lá na geração 16 bits que o jogo busca emular. É uma pena, mas se é verdade que, metaforicamente, algumas imagens tem som, é impossível não ouvir, mesmo que somente na nossa mente ou pela nossa ridícula imitação vocal, um tal de “Hasta la vista, baby” quando chega a hora.

No final das contas, Terminator 2D: NO FATE é um verdadeiro espetáculo nostálgico naquilo que se propõe. O maior problema, como já dito, é que ele se propõe a muito pouco perto daquilo que seu potencial permitiria. Seja por limitação de orçamento ou de tempo de desenvolvimento (considerando que o jogo acabou sendo adiado algumas vezes) ou ainda por escolha artística, havia aqui uma possibilidade imensa deste jogo se tornar, independentemente do apego do jogador à mídia original, um clássico moderno do formato. Entretanto, ele se esgota antes de chegar a este patamar.

Dito isso, é inegável que, pelo pouco tempo que durar, o jogo faz tudo aquilo que se poderia esperar dele. Um tiroteio afiado, trechos rápidos de perseguição motorizada, uma rápida arranhada no bom e velho beat ‘em up, e batalhas contra chefes monumentais com direito a momentos de bullet hell tão irritantes quanto desafiadores. Uma receita bem temperada, carregada de um evidente respeito pelo material original que, com razão, é praticamente unânime sobre sua importância para temáticas cada vez mais atuais.

Talvez haja espaço para, quem sabe, um prelúdio inspirado no primeiro filme, sequências baseadas nas continuações medianas do cinema, ou até histórias originais que se emancipem das amarras canônicas em favor de uma maior liberdade de gameplay. Ideias que muito provavelmente devem estar passando neste exato instante pela cabeça de seus desenvolvedores, claro, e que esperamos que tenham alguma chance em um futuro próximo.

Terminator 2D: NO FATE está disponível para PlayStation 5, Xbox Series, PlayStation 4, Xbox One, Switch e PC (via Steam e Epic Games Store) com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão de PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Reef Entertainment.

Veredito

Honrando o legado da obra-prima que ousa adaptar, Terminator 2D: NO FATE é um jogo de tiro em progressão lateral excepcional, além de uma ótima adaptação que foge à regra da média dos jogos baseados no cinema. Seu maior problema deriva de suas melhores qualidades, porém, já que acaba sendo curto e econômico demais em aprofundar as mecânicas que cria, sobretudo ao limitar as passagens onde podemos incorporar a pele sintética do exterminador.

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