“Você é um demônio, feito de vidro e dor. E ainda assim você deve andar de skate”. Pelo slogan de Skate Story já dá para perceber que a ideia é viajada. Dizer isso é o mínimo sobre esse jogo de abstração, alegoria e muito surrealismo.
Eu quis jogar Skate Story porque o trailer mostrou velocidade, cores e uma trilha sonora eletrônica de beleza marcante. Dá para dizer que tem tudo isso, mas tropeça em momentos mais parados que destoam daquilo que o jogo tem de melhor a oferecer.
(Parênteses: as capturas de tela ficam borradas e não fazem justiça ao visual de Skate Story. Vale a pena conferir vídeos para checar a arte em movimento.)
A narração contada por meio de legendas dá o tom junto com os panoramas insólitos do Submundo: um demônio se torna skatista para alcançar as sete lutas e devorá-las, missão assinada em um pacto com o Diabo, que o deu o skate, mas o transformou em vidro. Olhos brancos tentam detê-lo, estátuas de filósofos meditam sobre ele, um vagão de metrô com pernas o leva por aí, esqueletos penados lamentam seus arrependimentos e poemas fecham cada capítulo, um para cada nível do mundo inferior que será visitado.
Apesar da temática, é bom dizer que não se trata de um jogo de horror com violência, monstruosidades e figuras mórbidas, valendo-se muito mais de cenários escuros pra contrastar com os efeitos de luzes coloridas, ruído visual e iconografia estranha. Pode chegar a ser um pouco inquietante, mas não foi nada que tenha impedido meus filhos de assistirem à minha jogatina.

É interessante notar que, mesmo com toda essa fantasia de sonho e loucura, a gameplay do skate é bastante pé no chão. Não podemos sair por aí encaixando combos complexos no ar, pois as manobras são feitas uma por vez. Há um medidor de combo para continuar a sequência antes que o tempo acabe, como um estímulo a manter o ritmo.
Os pulos são baixos, sem exageros ou acrobacias mirabolantes que são tão comuns em games como Tony Hawk’s Pro Skater e skate.. Na verdade, até falta certa verticalidade ao cenários, deixando de lado o potencial gravitacional das rampas e quarter pipes em favor de uma arquitetura de skatepark mais plana.

Continuando o (sur)realismo, nosso protagonista vítreo não resiste a uma batida em velocidade, mesmo que seja contra um mero meio-fio, e se estilhaça todo pelo chão. Dá para ver os pés do skatista de vidro se posicionando no lugar adequado do shape quando seguramos um botão de preparação para manobras.
Há um peso no movimento que aumenta a sensação de velocidade e risco, nos fazendo temer perder o controle em longos trechos sinuosos e de se espatifar nos obstáculos.
É uma boa experiência sensorial que desperdiçou a oportunidade de aproveitar o DualSense, um recurso que julgo pertinente para um jogo que, além de ter uma publicadora de peso, a Devolver Digital, ainda por cima fará parte do PlayStation Plus Extra desde o primeiro dia. As vantagens do controle realmente fazem falta aqui, restante apenas uma vibração discreta e esporádica.

Portanto, mesmo com o conceito artístico totalmente entregue ao delírio, Skate Story deseja conduzir uma experiência que, paradoxalmente, representa bem a prática real em diversos aspectos.
Nesse sentido, a obra segue dois fios principais e os entrelaça: é tanto uma viagem estética e narrativa singular quanto um jogo de skate. Para curtir uma é necessário conciliar a outra. Assim, os segmentos de velocidade são entremeados de partes mais lentas em que exploramos pequenos espaços com objetivos para prosseguir na missão.
Para mim, tais momentos foram interrupções que, embora estruturalmente compreensíveis, me tiraram do que mais gostei no jogo, que foi deslizar e saltar com o skate ao som de uma batida distorcida, etérea e envolvente, velozmente transitando de um cenário para outro enquanto me aproximava de uma lua para “bater” nela com manobras em lutas de chefes inusitadas e, no final da set piece urgente, devorá-la.

Logo, quem embarca em Skate Story pela psicodelia ainda precisará vencer muita destruição de vidro por meros tropeços em batentes, e quem está aqui pela gameplay estilosa e desafiadora terá que acompanhar todos os delírios alegóricos e a monotonia dos capítulos.
Não que o jogo seja difícil, pois há bastante leniência para cumprir os objetivos de forma desengonçada (como eu). O que é realmente desafiador é ser estiloso, requerendo um grande domínio para encaixar manobras e evitar acidentes. As quedas, por outro lado, são parte esperada da experiência, ou não teríamos um personagem feito de vidro, não é mesmo?

Isso leva a um desequilíbrio entre o clamor por velocidade e a fragilidade punitiva, que, exceto entre os mais habilidosos, faz com que a quebra do vidro seja também a quebra do fluxo intenso e prejudica o êxtase do movimento, algo muito importante neste jogo de skate.
A primeira metade se perde nos objetivos de coletar itens para abrir caminho rumo à lua do local, uma gameplay prosaica em cenários urbanos menos inspirados e música insípida. Até as alegorias nonsense perdem a força dramática nos capítulos do meio, recorrendo à comédia da excentricidade que, para mim, foram apenas banais, deixando de se levar a sério.

No entanto, todos os capítulos encerram em enfrentamentos bombásticos contra chefões enormes e resplandecentes e uma faixa musical empolgante, quase como videoclipes. Como atacamos? Fazendo combos sobre o reflexo luminosos deles no chão e cravando uma aterrissagem.
Essas batalhas são pontos altos que fazem a experiência valer a pena e, felizmente, o terço final dessa campanha de seis horas direciona os segmentos especiais, abandona a exploração, retorna ao surrealismo poético e se dedica a construir um longo clímax que finalmente entrega algo como o que o trailer mostra: velocidade casada com música hipnótica em um altar de cenários alucinantes.
Infelizmente, não há seleção de capítulos e, ao final da campanha, a única opção é recomeçar. Este é um jogo que deveria ter uma seleção de chefes para rejogar as batalhas de “videoclipe” e curtir a trilha musical incrível da banda underground Blood Cultures.

Por fim, vale dizer que a Devolver Digital informou que os vários trechos ainda sem localização para português brasileiros serão corrigidos na atualização de lançamento.
Skate Story está disponível para PS5, Switch 2 e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Devolver Digital.




