Análises

Red Dead Redemption (PS5) – Review

Não esperava nada de Red Dead Redemption, devo confessar. Mesmo com todos os indicadores, todo o hype, toda a expectativa da comunidade e dos fãs de GTA, todas as certezas geradas pela Rockstar em errar muito pouco até então, mesmo com todas as probabilidades apontando para um jogo incrível, eu fui cético e displicente. Demorei um pouco para me propor e experimentar. E, no final das contas, o game acabou se tornando um dos meus favoritos daquela geração do PS3.

Mesmo rodando, no console da Sony, em uma qualidade de imagem chamada sub-HD (640p, para ser mais específico) e penando para segurar os 30 frames por segundo, o jogo foi capaz de me seduzir logo em suas primeiras missões por um modelo de jogabilidade convincente, um mundo aberto divertido e dinâmico, uma ambientação extraordinária e uma história realmente interessante, que sabia muito bem usar de toda a mística que envolvia os westerns do cinema da primeira metade do século XX dentro de um conceito sólido do ciclo de gameplay envolvente, imersivo e viciante.

Lá se vão 15 anos desde seu lançamento original, muita coisa aconteceu e já estamos vislumbrando a aurora da geração Playstation 5, e finalmente o jogo ganha uma versão nativa para os consoles da atualidade depois de ter retornado algum tempo antes com a versão de PS4, analisada aqui no site pouco mais de dois anos atrás pelo colega Bruno Henrique Vinhadel. E afinal, o que mudou?

As expectativas, afinal, eram mistas, dado o histórico de relançamentos e remasterizações dos jogos clássico dos idealizadores. Enquanto GTA V chegou a atual geração com todo o cuidado esperado, a trilogia original daquela franquia deixou bastante a desejar. Além disso, contrariando todas as certezas, o segundo jogo da série é um dos pouquíssimos grandes sucessos da geração passada sem uma versão para o PS5.

As notícias são boas e ruins. Como já era de se esperar depois do que vimos em 2023, não há aqui nenhum grande milagre de recriação ou reconstrução dos principais conceitos visuais ou de jogabilidade que já conhecíamos. Não é, portanto, nem um arremedo de um pretenso remake, nem há qualquer proposta de uma verdadeira revolução. É, para todos os efeitos, o mesmíssimo jogo de 2010, com certas melhorias.

Se em parte há uma certa decepção, em outra, um alívio. Red Dead Redemption é, para aquilo que se propõe, próximo da perfeição. Mexer demais em sua estrutura, mesmo que fosse para adicionar os ajustes refinados que sua sequência apresentou, poderia azedar um conjunto bem coeso. A jornada original de John Marston na busca por antigos aliados estabeleceu alguns parâmetros que até hoje são referência para o gênero.

Ainda assim, não deixa de ser um tanto quanto decepcionante perceber ali algumas texturas borradas e uma vegetação poligonal que, de longe, compõe paisagens hipnotizantes, mas de perto acabam gerando um certo estranhamento. Sim, eu sei, estamos mal acostumados, e mesmo que o momento atual da indústria não seja dos mais brilhantes, esperamos sempre por algo a mais, pelo menos na parte gráfica.

Não há dúvidas de que finalmente os serrilhados e o granulado da versão original funcionam muito melhor nos almejados 4K (via upscaling) em estáveis 60 fps, mesmo quando o caos toma conta da tela em conflitos cheios de personagens. Entrar em batalha contra inúmeros inimigos no meio de uma tempestade é, inegavelmente, algo que poucos jogos mais recentes consegue reproduzir em termos de experiência, mas esse mérito é muito mais da versão original do que dos ajustes relativamente tímidos e pontuais presentes aqui.

O sistema de iluminação, contudo, se destaca, seja no ciclo padrão de dia e noite, seja no uso de diferentes pontos dinâmicos, como fogueiras e lâmpadas elétricas de diferentes temperaturas de cor. Se frequentemente o HDR adiciona mais valores significativos aos visuais do que a contagem de pixels, aqui ele se faz ainda mais presente, se exibindo com uma variação dinâmica de cores muito mais sofisticada do que os tons terrosos de sempre. Ainda é, pois, o velho-oeste árido e encardido, mas muito mais vibrante e vívido.

As características atualizadas do que foi visto no PS4, claro, continuam presentes, como a inclusão do modo Undead Nightmare como parte do pacote, e basicamente tudo o que há de single player no game está presente em sua melhor forma. Compreensivelmente, o multiplayer ficou de fora mais uma vez, já que todos os esforços on-line da franquia estão em uma única plataforma. Faz falta, mas já era algo esperado.

Surpreendente, contudo, é a timidez – para não dizer ausência – no uso dos recursos específicos do DualSense, e para ser sincero, mesmo com todas as funcionalidades no máximo, não senti qualquer diferença do que já havia sido feito na vibração padrão da edição anterior. Ou seja, não há aqui um trabalho direcionado ao peso dos gatilhos adaptativos ou das sensações táteis. O mesmo pode ser dito do mapeamento do som, que se mantém muito competente pela sua gênese, mas sem qualquer melhoria para o sistema tridimensional do headset nativo do PS5.

Como uma atualização gratuita para quem já havia investido no remaster (ou port para os mais críticos) da geração passada, Red Dead Redemption é, sem qualquer sombra de dúvidas, uma adição muito bem-vinda a qualquer biblioteca. Para quem já o conhece de outras primaveras, a recomendação vai para além da pura nostalgia, simplesmente porque a jornada de Marston envelheceu como vinho e se sustenta até hoje, sem sinais de cansaço. Tem suas marcas do tempo, claro, mas continua em forma.

Para quem não teve a oportunidade ou torcia o nariz antes, segue como uma máxima recomendação, desde que caiba no orçamento e na agenda, porque mesmo que a campanha possa ser completada em algo em torno das 25 horas, não é jogo para se passar de forma rasa. Mesmo quem parte para o complecionismo objetivo ou quem vai seguir para enfrentar zumbis caubóis, ainda haverá um bom motivo para uma procrastinação positiva naquele universo.

Vivencia-lo, portanto, significa perder madrugadas em partidas de poker onde não se ganha mais do que alguns trocados, cavalgar sem destino marcado no mapa, encarar personagens perdidos por aí ou simplesmente domar os mais belos cavalos selvagens por pura diversão. É viver aquele lugar interpretando a sua versão do anti-herói, gastando duas doletas no bar sempre que chegar em casa depois de um dia árduo coletando penas e carne de coiote.

Se a nova versão já não sofre com expectativas elevadas pela remasterização completa, é definitivamente aquilo que se pode esperar de uma atualização, por mais protocolar que possa parecer. Red Dead Redemption de PlayStation 5, com sua boa localização para o nosso bom e velho português, em alta definição e com um framerate suave, é definitivamente a melhor forma de se apreciar um dos mais importante títulos de todos os tempos.

Red Dead Redemption está disponível para PS5, Xbox Series, Switch 2, Netflix, iOS, Android, PS4, Switch e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Rockstar Games. O jogo original foi lançado no PS3 e Xbox 360.

Veredito

Em sua experiência original, Red Dead Redemption é quase perfeito em todos os seus principais quesitos, tais como narrativa, jogabilidade e conceito artístico. A remasterização para PS4 de 2023 foi tímida em atualizar definição e performance, mas fez o suficiente para apresentá-lo para uma nova geração e suprir uma lacuna para os antigos fãs. Tudo isso agora é confirmado pela versão nativa de PlayStation 5, com seus 4K a 60fps com HDR, coisas que parecem pouco – e de certa forma, são – mas que ao menos oferecem a experiência mais sólida, bela e estável possível para um dos maiores clássicos da história dos games.

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