Análises

Octopath Traveler 0 – Review

A melhor sensação que se pode ter ao iniciar um jogo é o de ser completamente fisgado por ele. Aquele tipo de título que te envolve de forma bem retumbante, que você não consegue largar e quando vê, tá indo dormir muito mais tarde do que deveria. E quando acorda, ainda fica pensando em poder retornar ao jogo o quanto antes para seguir avançando nele. Jogos que te levam de volta para aquele sentimento de ser um jovem sem muita preocupação com a vida em que todo momento livre pode ser dedicado para jogar.

E é exatamente assim que Octopath Traveler 0 faz o jogador se sentir. Se valendo excepcionalmente bem do estilo gráfico HD-2D criado pelo primeiro título da série, evocando nostalgia sem utilizá-la de muleta, o jogo sabe mexer com os sentimentos certos, sem perder seus tons mais modernos que fazem do ineditismo da experiência algo muito recompensador. Nascido das fundações da prequel mobile Champions of the Continent, ele a reinventa como uma experiência premium com (quase) nenhuma memória dos problemas que um gacha free-to-play traria. entregando uma experiência bem única que mantém a alma da série, mas faz alguns experimentos muito bem-vindos.

Como uma versão definitiva de CotC, OT0 traz não só uma experiência excelente para fãs da franquia, mas uma das bases mais legais possíveis para que os interessados por ela, seu estilo e gameplay e que acabaram sendo afastados pela narrativa mais fragmentada evitaram os dois primeiros jogos. Aqui, ao invés de oito protagonistas, temos um só, mudo, criado pelo próprio jogador. Um jovem guarda da cidade de Wishvale que, após ver seu lar destruído por um incêndio, decide partir em uma jornada ao redor de Osterra, continente do jogo, captando recursos e pessoas para reconstruí-la e repovoá-la.

É uma premissa simples e bastante clássica e uma que, inicialmente, te coloca com quatro focos centrais: a campanha para reconstruir Wishvale e a batalha contra três grandes vilões que encarnam os elementos que levaram à destruição de sua cidade natal: Riqueza, Poder e Fama. O jogador retém aqui sua capacidade de explorar o mundo e cumprir as missões na ordem que preferir, podendo pular de uma linha narrativa para outra quando bem quiser, mas todas as histórias parecem mais conectadas e levando em uma direção em específico.

Esse sistema funciona de maneira brilhante. Ele vincula o jogador emocionalmente à trama e dá um peso real aos antagonistas, criando ameaças que parecem genuinamente perigosas e onipresentes. A história acaba se aproximando muito mais do que se esperaria de um JRPG justamente por ser mais conectada. O mecanismo central não apenas cumpre sua função técnica, mas também vincula o jogador emocionalmente e de forma profunda à trama narrativa que se desenrola. Ao fazê-lo, ele trás um peso real e palpável aos antagonistas, transformando-os de meros obstáculos em ameaças que parecem genuinamente perigosas e, à medida em que novas ameaças e novas narrativas vão sendo incluídas no jogo, é possível sentir a crescente ameaça, mesmo quando a história acaba caindo em alguns (esperados) clichês do gênero.

E mesmo com o estilo gráfico mais leve e o mundo bem vivo, OT0 traz alguns momentos com bastante seriedade para a história que funcionam muito bem, com cada evento e personagem servindo como um conector à narrativa maior da trama, garantindo que as ações e as tensões se entrelaçam de forma coesa e impactante para o jogador. Essa interconexão reforçada cria um universo mais vivo em que cada passo realmente parece mover a trama como um todo e não só a história relacionada a um personagem em específico. Cabe apontar também que o jogo traz um sistema de diálogos entre os membros da sua equipe que, não só ajuda eles a apresentarem melhor suas personalidades, mas traz mais profundidade à jornada. É algo simples, mas que permite que os coadjuvantes tenham seu tempo, mesmo quando não fazem parte da campanha principal.

Com a mudança para um formato mais “premium”, elementos que em CotC estavam mais atrelados ao gacha, agora realmente seguem um padrão que se esperaria de um jogo completo. O recrutamento dos personagens, tanto novos moradores para Wishvale quanto membros para sua party, é feito através das tradicionais field actions da série (ativadas com quadrado). O jogo sempre te mostrará quando um novo membro para sua equipe estiver disponível, mas é muito recompensador falar com cada morador de cada cidade e ir descobrindo aos poucos o que cada um tem a oferecer. Esse é o mesmo sistema que é usado para resolução de missões secundárias, das quais o jogo tem dezenas, então sempre há algo a se ganhar ao interagir com alguém.

Considerando que o jogo traz ainda mais conteúdo do que o que estava disponível em CotC, ele acaba tendo uma campanha estupidamente gigantesca, superando com muita facilidade às 100 horas, mesmo que você basicamente ignore missões secundárias. O único problema disso é que a progressão dos personagens, por estar muito limitada a um total de oito habilidades que você pode aprender, acaba se tornando bem fraco, já que, depois de um tempo, você quase não terá com o que gastar JP salvo por “masterizar” habilidades. A própria limitação de classes (só seu protagonista pode mudar de classe) acaba restringindo muito, ainda que seja possível equipar diferentes habilidades com quase nenhuma restrição.

Dito tudo isso, o sistema de combate segue sendo brilhante e desafiador. O sistema de Break, no qual inimigos possuem diferentes fraquezas que precisam ser exploradas para causar mais dano, e o de Boost, que aumenta a quantidade de ações que você consegue executar em um turno ao usar BP, traz várias opções táticas excelentes e seguem mantendo a coroa de sistema por turnos definitivo com a série. Especialmente agora que sua equipe é composta por 8 membros, podendo alternar nos seus respectivos turnos com o aliado da “linha de trás”. Algumas habilidades até mesmo se tornam mais poderosas ao serem executadas por um personagem entrando em combate naquele turno. É bem divertido, estratégico (várias das lutas contra chefes te farão pensar bastante) e, principalmente, muito recompensador.

Talvez a mecânica mais interessante e, ao mesmo tempo, relativamente subaproveitada de Octopath Traveler 0 é a construção de base, vulgo, a reconstrução de Wishvale. A ideia central aqui é que, de tempos em tempos, o jogador acabe retornando à cidade para seguir trabalhando em sua reconstrução. Embora eu não duvide que isso aconteça, a verdade é que, no geral, só há incentivos verdadeiros para fazer isso quando a campanha principal te colocar de volta lá para cumprir alguma missão. O jogo até te permite construir novos prédios após um tempo diretamente de qualquer lugar do mapa, mas o mais comum será que você construa todos os prédios principais assim que ficarem disponíveis e só siga a vida nas demais campanhas até desbloquear uma nova melhoria, executá-la e esquecer novamente da sua base.

É, por um lado, um desperdício mas se você for o tipo de jogador que não se importa com esse tipo de mecânica, como eu, é um alívio não ser obrigado a estar constantemente retornando e falando com personagens aleatoriamente só para preencher algum medidor arbitrário. Dito isso, caso você seja dos mais focados em customização, o jogo te permite até 500 prédios no PS5, então há muito o que se achar por aí de pequenos itens que vão dar à Wishvale a sua cara. E, claro, você irá receber recursos à medida em que o tempo for passando, o que, em tese, é um incentivo para visitar a cidade de tempos em tempos.

Sobre o ponto de vista técnico do jogo, apesar de alguns elogios já terem sido tecidos, é sempre bom reforçar: o jogo é deslumbrante. Os mapas em HD-2D estão mais detalhados do que nunca, com efeitos de iluminação e profundidade de campo que dão vida a Osterra. E não podemos deixar de mencionar a trilha sonora. Yasunori Nishiki, compositor de todos os jogos da série, sendo até nomeado ao The Game Awards, entrega mais uma vez um trabalho que pode ser descrito apenas como estupendo. As composições elevam cada batalha e cada momento dramático. Somado a isso, o aumento significativo na quantidade de diálogos dublados (com interpretações excelentes e dentro do padrão da série) mostra o cuidado da produção em entregar um produto do mais alto nível.

Octopath Traveler 0

Dito tudo isso, Octopath Traveler 0 é uma excelente aula não só de como reimaginar um título originalmente mobile para um console, mas mais uma (das dezenas) de provas de que os jogos mobile evoluíram exponencialmente e, quando livres das mecânicas vinculadas à sistemas de monetização, não deixam nada a desejar em comparação com títulos pensados originalmente para console. Algo especialmente importante considerando o quanto a própria Square Enix tem títulos excelentes presos em celulares e que caberiam nesse mesmo formato no PS5 (sim, isso é sobre Brave Exvius: War of the Visions).

O título entrega um combate de altíssimo nível e uma história bastante viciante que consegue te manter engajado mesmo durante dezenas e dezenas de horas, servindo de alicerce para que o jogo funcione e entregue tudo aquilo que se espera dele, mesmo quando os sistemas auxiliares, como a construção de bases e progressão dos personagens, vacila. Se você é um fã da série ou tem interesse nela mas não sabe se gostaria do formato de oito protagonistas, OT0 é a porta de entrada perfeita e um dos melhores JRPGs do ano.

Octopath Traveler 0 está disponível para PS4, PS5, Xbox Series, Switch, Switch 2 e PC. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Square Enix.

Veredito

Com um combate viciante, uma história coesa e mais acessível para os jogadores menos afeitos à experimentalidade dos demais títulos da série, Octopath Traveler 0 entrega bem o que se espera dele como porta de entrada para a série. Se você nunca jogou a franquia, comece por aqui. Se já jogou, prepare-se para ver a fórmula aperfeiçoada e uma história gratificante.

90

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