Análises

Morsels – Review

Nos últimos anos, muitas produções independentes de ação têm buscado incorporar mecânicas de roguelite à sua jogabilidade. Embora eu, particularmente, não veja problema nisso, considero essencial que cada uma delas ofereça ao menos algum diferencial que a destaque em um mercado cada vez mais saturado.

Fortemente inspirado por The Binding of Isaac, mas trazendo também suas próprias ideias, Morsels aposta em uma estética bizarra e em uma jogabilidade no estilo twin-stick shooter com visão de cima para entregar uma experiência criativa e cativante. No entanto, acaba se perdendo ao longo do caminho por ser excessivamente punitivo e por praticamente não explicar nenhuma de suas mecânicas.

Estranhamente encantador, Morsels apresenta a história de um mundo moldado pela poluição e pelo lixo, onde cartas mágicas caíram misteriosamente do céu, concedendo poderes extraordinários àqueles capazes de sustentá-las. Os gatos — sempre eles —, astutos e maliciosos, se apropriaram desses artefatos e acabaram se transformando em criaturas monstruosas conhecidas como barões.

Morsels

A única esperança dos seres que passaram a viver sob a opressão desses vilões é um adorável ratinho que decide buscar uma saída do profundo esgoto onde todos estão aprisionados. Para isso, ele conta com a ajuda dos Bocaditos, pequenos monstros que podem ser coletados ao longo da jornada e que possuem poderes únicos para enfrentar a horda de inimigos encontrados pelo caminho.

Dentro dessa proposta, Morsels apresenta uma direção de arte charmosa que remete aos tempos das fitas VHS e das TVs de tubo. Os gráficos pixelados exibem cores vibrantes, e o design de tudo que compõe esse mundo se apoia na ambiguidade de que o esquisito também pode ser belo.

Esses filtros visuais podem ser ajustados nas configurações para suavizar os efeitos de tela e os pixels, ou torná-los ainda mais fortes, oferecendo uma boa quantidade de opções que valorizam ainda mais o ótimo trabalho de arte do game.

Outra qualidade que impressiona, e que ajuda a aliviar os efeitos de repetição comuns ao gênero, é a trilha sonora de Morsels, sempre tranquila e envolvente. Combinando efeitos sintetizados a instrumentos tradicionais, o compositor Sam Webster entrega uma daquelas trilhas que poderiam facilmente ser agregadas em uma playlist para momentos de relaxamento.

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Toda essa ambientação desperta a curiosidade do jogador para continuar explorando o mundo de Morsels e descobrindo seus muitos segredos. Para isso, o título oferece uma jogabilidade que pode parecer simples à primeira vista, mas que se revela bem mais complexa graças à quantidade de habilidades, personagens, bônus e passivos encontrados ao longo do caminho.

As corridas sempre começam no esgoto, onde o jogador pode escolher seu primeiro Bocadito dentre três opções iniciais. No caminho até a batalha final, é preciso superar diversos mapas repletos de inimigos. Ao término de cada área, um chefe aguarda para ser enfrentado.

O grande diferencial do sistema de combate está justamente nos monstrinhos, que podem ser adquiridos ao longo das runs para formar o trio de combatentes do jogador. Cada Bocadito possui habilidades únicas, e seu design se integra perfeitamente à temática do jogo.

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Um deles é o Chicletito, uma velha goma de mascar que assume a forma de um monstrinho capaz de disparar bolhas de chiclete e criar um campo no cenário que bloqueia ataques inimigos. Outro exemplo curioso é o Bituquito, um toco de cigarro que deixa um rastro de fumaça por onde passa.

Conhecer bem as qualidades de cada Bocadito leva tempo, e a variedade entre eles faz com que cada corrida seja diferente da anterior. À medida que os inimigos são derrotados e pontos de experiência são acumulados, os monstrinhos também podem subir de nível, aprimorando suas habilidades ao longo da run.

O que atrapalha um pouco esse sistema — e o jogo como um todo — é que Morsels pode ser excessivamente punitivo. É claro que um bom roguelite deve ser desafiador o suficiente para manter o jogador engajado e prolongar a experiência, mas o título desenvolvido pela Furcula exagera ao balancear mal suas mecânicas.

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Começando pelos próprios Bocaditos, que podem se aposentar ao atingir o nível máximo durante a corrida. Entendo a ideia como uma forma de incentivar o sistema de coleta de criaturas, mas a distribuição de inimigos e o grande número de ameaças nos cenários cria uma sensação constante de urgência para usar sempre o personagem favorito. Além disso, há uma grande disparidade na utilidade de cada Bocadito. Alguns deles chegam a ser quase inúteis.

A própria mecânica de disparo em Morsels já é frustrante por si só, pois conta com uma espécie de cooldown que impede ataques em sequência. Para piorar, alguns poderes inimigos e certos itens do cenário podem aplicar efeitos negativos nos monstrinhos, reduzindo ainda mais a cadência dos ataques.

Outro problema ocorre na transição entre as áreas. Sempre que um cenário é concluído, o jogador encontra um dos muitos NPCs igualmente bizarros do jogo, que oferecem uma espécie de acordo. Muitas dessas propostas podem trazer benefícios, mas há encontros que resultam em debuffs ou condições que dependem de itens obtidos por meio de minigames encontrados aleatoriamente nos mapas. Por exemplo, um desses encontros pode remover um Bocadito do jogador, enquanto outro coloca um de seus personagens em estado de sono.

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Por outro lado, alguns dos minigames disponíveis são bastante divertidos, remetendo aos clássicos da era dos oito bits. Já outros, encontrados nas tocas de ratos espalhadas aleatoriamente pelos cenários, podem conceder bônus passivos, mas exageram no fator risco para obter habilidades que nem sempre se alinham com a build do jogador.

Aliás, entender como cada item e favor funcionam em Morsels leva tempo, e o jogo não se preocupa em explicar ou lembrar o jogador de seus efeitos. Sempre que encontrar uma habilidade pelo mapa, é necessário saber a que o símbolo se refere antes de gastar seu precioso queijo. Outros itens, que funcionam como consumíveis ou passivos, podem fazer grande diferença na run, mas as chances de se lembrar de todos eles são bastante pequenas.

Para tornar tudo ainda mais punitivo, a disposição de inimigos e armadilhas no cenário muitas vezes dificulta distinguir o que é de fato uma ameaça. Muitas vezes, vi uma run promissora ser arruinada em questão de segundos por perder um Bocadito para um inimigo indestrutível que ficava me perseguindo e, logo na sequência, outro deles foi removido por aposentadoria.

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Até mesmo o sistema de progressão permanente não consegue incentivar a rejogabilidade. Além de algumas habilidades que permanecem disponíveis para a próxima tentativa, não há qualquer outro tipo de melhoria para os personagens.

Essas mecânicas, mais voltadas a frustrar do que a desafiar o jogador, vão minando a paciência, mesmo que a ambientação e parte da jogabilidade indiquem um jogo com grande potencial. Morsels é intrigante e possui uma ambientação repleta de criatividade, mas precisaria ser mais intuitivo e melhor balanceado para realmente ser apreciado.

Morsels está disponível para PS5, Xbox Series, Nintendo Switch e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 (no PS5 Pro) e foi realizada com um código fornecido pela Annapurna Interactive.

Veredito

Mesmo com uma ambientação única, excelente trilha sonora e ideias originais, Morsels perde grande parte de sua diversão ao não explicar quase nada sobre suas mecânicas e punir excessivamente os jogadores que insistem em entendê-las.

70

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