Análises

Dispatch – Review

Histórias de redenção de vilões e de desconstrução de estereótipos de heróis não são novidade e, recentemente, tornaram-se um dos recursos mais utilizados por produtos midiáticos, impulsionados pela grande quantidade de filmes e séries baseados em quadrinhos surgidos principalmente a partir do começo da década de 2010.

Ainda assim, a proposta de Dispatch de abordar essa fórmula sob uma perspectiva mais cômica e aplicá-la a um jogo narrativo bastou para despertar meu interesse, sobretudo ao saber que veteranos da Telltale estavam envolvidos no projeto.

Claro que o modelo deste tipo de jogo, centrado quase exclusivamente em acompanhar a história enquanto se tomam decisões que podem alterar o rumo da narrativa, ainda gera opiniões divididas por passar a impressão de monotonia. No entanto, Dispatch consegue se afastar um pouco dessa limitação ao introduzir um sistema de gestão de grupo bem interessante — embora, nesse processo, acabe se perdendo um pouco em sua tentativa de encontrar um equilíbrio ideal.

Dispatch

A história coloca o jogador (ou espectador) na trajetória de Robert Robertson III, um homem nascido sem poderes em um mundo repleto de super-heróis e vilões. Mesmo assim, ele se dedica ferrenhamente a seguir os passos de gerações anteriores de sua família, assumindo o papel do Homem-Meca, um herói que combate o crime nas ruas de Los Angeles pilotando um avançado robô.

Durante um confronto contra seu arqui-inimigo, o Mordaça, o herói é derrotado e seu robô é completamente destruído. Sem os recursos financeiros necessários para reconstruí-lo, Robert decide então se aposentar da função de Homem-Meca.

Só que na noite em que anunciava sua aposentadoria, o protagonista é abordado pela Loira Luminar, uma heroína que integra um grupo dedicado a recrutar ex-heróis e vilões para enfrentar as gangues que atuam em Los Angeles. Com a promessa de restaurar o exoesqueleto de Robert, a Loira Luminar consegue convencê-lo a se juntar à equipe.

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Mas a responsabilidade do recém-contratado da RES está longe de ser simples. Ele deve comandar a Equipe-Z — composta por vilões fracassados sem afinidade alguma ou boa-vontade —, usando um computador de forma remota para enviar seus membros a diversas missões e solucionar os mais variados problemas.

Essa mecânica funciona como um simulador de gestão de grupos, no qual o jogador precisa designar os membros da equipe com base em dicas que indicam a melhor abordagem para cada missão. Cada personagem possui características únicas, incluindo fraquezas e habilidades, representadas principalmente por cinco atributos organizados entre combate, mobilidade, vigor, intelecto e carisma.

A cada trabalho concluído, os personagens enviados recebem experiência, que é convertida em pontos de atributo a serem distribuídos conforme seus perfis e a preferência do jogador. Crimes mais complexos podem exigir decisões estratégicas ou a presença de um herói específico para aumentar as chances de sucesso da missão.

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Os membros do grupo também podem ser atribuídos para missões de treinamento para desbloquear novas habilidades, que podem fazer a diferença em desafios futuros, diminuindo o tempo de realização das tarefas, minimizando os efeitos de cansaço e até concedendo benefícios temporários. Outra forma de expandir o arsenal da equipe é explorar a sinergia entre certos personagens, liberando bônus especiais quando eles são enviados para um objetivo juntos.

Quebra-cabeças que funcionam como uma espécie de vírus ou firewall no sistema de Robert aparecem de vez em quando durante um trabalho ou uma cena da história. Essas tarefas possuem limite de tempo e um número máximo de tentativas e, se não forem concluídas com sucesso, podem levar ao fracasso na missão.

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Todo esse sistema pode parecer complexo, mas torna-se mais intuitivo à medida que os episódios se passam e os heróis sobem de nível. Por outro lado, a quebra de ritmo causada por trechos longos de gestão no transcorrer do jogo, bem como a grande quantidade de casos para lidar ao mesmo tempo, passam a sensação de que a distribuição dessa função está desequilibrada em relação às cenas da história. Ademais, ainda que a ideia de incorporar essa mecânica seja excelente, o impacto das ações do jogador durante o gerenciamento do grupo acaba sendo bastante limitado.

Com certeza um benefício desse sistema é proporcionar ao jogador uma maneira adicional de se familiarizar com sua equipe. Porém, em um jogo estruturado quase como uma série interativa, em que a história sempre será o aspecto principal, confesso que achei essa função de jogabilidade muito repetitiva.

Talvez o principal motivo para isso seja que eu mal podia esperar para acompanhar o desfecho da história de Dispatch — sem dúvida, seu maior mérito. A forma como a narrativa é organizada em episódios, cria aquela sensação de ansiedade que faz o espectador querer devorar as oito horas da campanha sem desgrudar os olhos da tela. Isso se deve ao roteiro envolvente, ao elenco de personagens e à curiosidade por acompanhar os efeitos das decisões tomadas ao longo da história.

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Também é possível escolher no menu a opção de ativar eventos rápidos que aparecerão ocasionalmente durante as cenas da história, para realizar uma ação muitas vezes voltada ao combate. Esses QTEs, no entanto, não são complicados e oferecem poucas consequências para o desenvolvimento das cenas quando não são realizados da forma correta.

A direção de arte está entre as melhores do gênero, com características que lembram animações modernas, como Invincible. Ainda que o design de alguns personagens recorra a estereótipos de histórias de heróis tradicionais, cada um apresenta características únicas, influenciadas de forma positiva ou negativa por seus poderes.

Alguns bons exemplos disso incluem Chase, um herói aposentado que atua como um mentor para Robert e que, por possuir o poder da velocidade também envelhece mais rápido sempre que o utiliza. Já a Invisiva tem tudo para se tornar uma das favoritas do público, com seu perfil rebelde, mas que sofre com crises asmáticas por ter que prender a respiração para poder desaparecer.

Dispatch

Dispatch conta com a participação de atores renomados em seu elenco principal, como Aaron Paul, Laura Bailey, Jeffrey Wright e Matthew Mercer. Mesmo os personagens secundários, ainda que recebam menos destaque em seu desenvolvimento, são dublados com grande qualidade, fazendo com que todo o grupo se sobressaia aos olhos do jogador.

Também vale destacar a ambientação de Los Angeles. Além de preservar as características de locais conhecidos do condado, como Downtown, Marina del Rey e Torrance, adaptações pontuais no visual, na iluminação e no posicionamento de pontos de interesse da história, resultam em uma visão única da cidade que serve muito bem como pano de fundo para o desenrolar de toda a trama.

O mesmo tipo de elogio se aplica à trilha sonora, que combina perfeitamente com as sequências de ação e os momentos dramáticos, mas também inclui versões humorísticas de músicas famosas, reforçando a proposta cômica do jogo.

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Já as decisões tomadas durante as cenas narrativas determinam os rumos da história, podendo até resultar em mudanças no elenco da Equipe-Z e em alguns poucos romances, acrescentando ainda um bom fator replay para quem deseja conferir todos os desfechos dos principais personagens. Além disso, o desenvolvimento das relações de Robert com o restante do grupo faz com que o jogador realmente se apegue à equipe, por mais excêntricos ou bizarros que alguns de seus membros possam ser.

Temas mais pesados de nosso cotidiano também estão presentes, dentre eles o consumo de álcool, a exploração sexual e até problemas psicológicos, mas a história os aborda com bom humor, evitando que se tornem forçados ou ofensivos demais.

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Um ponto negativo é que o trabalho de localização para o português brasileiro apresenta falhas. É possível que o lançamento parcial do jogo no formato de episódios tenha contribuído para isso, mas encontrar erros tão simples como o uso de dois nomes diferentes para o mesmo personagem, a ausência de legendas em alguns trechos e a adaptação inadequada de certos termos acaba gerando confusão e prejudicando parte da experiência, embora sejam problemas facilmente corrigíveis.

O fato é que Dispatch não revoluciona nem o gênero de jogos narrativos nem as histórias de super-heróis, mas, dentro do que se propõe, oferece uma experiência divertida inserida dentro de um ambiente de trabalho que é capaz de agradar até mesmo quem costuma evitar games desse estilo. Se Dispatch é para ser como uma série interativa, então é daquelas que você mal espera para ver o desfecho, apenas para ficar ansioso pela próxima temporada.

Dispatch está disponível para PS5 e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 (no PS5 Pro) e foi realizada com um código fornecido pela AdHoc Studio.

Veredito

Embora enfrente alguns problemas de equilíbrio na distribuição das seções de gestão de grupo e cenas de história, a maneira divertida como Dispatch narra a ascensão e a superação das diferenças de um time de improváveis heróis transforma-o em um dos melhores produtos do gênero dos últimos anos.

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