Análises

Fear Effect – Review

A segunda metade dos anos 1990 foi chacoalhada por algumas franquias memoráveis principalmente no amadurecimento das temáticas e também do público, e não é difícil apontar Resident Evil como um verdadeiro divisor de águas na aproximação entre jogos e a linguagem cinematográfica mais tradicional. O sistema de múltiplas câmeras mexeu com o mercado, e não demoraria para surgir propostas emulando o modelo, mas apontando para outras direções.

Foi assim com a reinaginação de Alone in the Dark: New Nightmare (que sim, já ousava quanto a este aspecto em suas origens) e com a série Parasite Eve que, cada qual à sua maneira, trariam uma releitura do terror e do suspense se aproveitando do formato. Foi uma outra franquia, já no início dos anos 2000 porém, que ousou em aproveitar da fórmula para uma dinâmica de thriller de ação e espionagem furtiva: Fear Effect.

Ambos os jogos lançados em um intervalo de aproximadamente dois anos fizeram um sucesso bastante louvável já na fase final do ciclo de vida do primeiro Playstation, mas só teriam uma sequência 16 anos depois do segundo game, cuja repercussão foi morna, dando a impressão que a marca voltaria para o limbo novamente por um bom tempo.

Eis que, todavia, o primeiro jogo volta à tona sem qualquer sobreaviso em um relançamento para as gerações atuais, o que nos dá um bom motivo para relembrar de suas características revolucionárias que surpreenderam na época e que continuam se provando inovadoras, mesmo que o port não seja exatamente uma remasterização, já que infelizmente não traz qualquer atualização ou melhoria gráfica, salvo o suporte a um pseudo-widescreen esticado, filtros básicos de simulação do efeito de monitores de tubo e pequenas melhorias na qualidade de vida.

A trama de Fear Effect, vale relembrar, tem início com o desaparecimento de Wee Ming Lam, uma figura tão silenciosa quanto enigmática, às vésperas de completar dezoito anos. Este evento desencadeia uma caçada humana de alto risco, com altas doses de mistério e ação cinematográfica com alguns toques interessantes de um futurismo noir cyberpunk, temperado com pitadas sobrenaturais.

No centro da busca estão Hana, Glas e Deke, um trio de mercenários motivados unicamente por dinheiro. A missão não poderia ser mais objetiva: localizar a garota e entregá-la ao seu pai, conhecido como Sr. Lam, o mais poderoso líder da Tríade em Hong Kong. O problema é que, como se poderia imaginar, nem tudo é o que parece e o enredo nos leva a uma série de desafios de sobrevivência contra alguns perigos bastante inesperados.

É uma trama densa que flerta com o absurdo em vários momentos, oferecendo pontos de virada instigantes e pouco usuais até para os tempos atuais. Mesmo com um indelével backtracking característico no uso de múltiplos personagens, mantém um ritmo acelerado de acontecimentos que não só avançam com a história como desenvolvem melhor suas personagens na relação com vilões caricatos. Sua ousadia no tratamento da violência e da sensualidade, mesmo com o exagero plástico, alguns estereótipos datados e uma certa falta de noção do ridículo, lhe conferem um tom maduro sem, contudo, um apelo ofensivo e inadequado.

Inevitavelmente, a primeira coisa que chama a atenção no jogo é o trabalho excepcional da direção de arte. Ainda que se aproprie de uma decupagem baseada em múltiplos ângulos com efeitos dramáticos sofisticados, os cenários foram criados de modo dinâmico em Motion FX, permitindo movimentos de câmera impressionantes para sua época, buscando referências até no (naquele momento) recém lançado filme Matrix.

O uso do cel-shading, hoje bastante explorado para emular a sensação de desenho animado, também se provou revolucionário e inusitado, criando uma estética única para as personagens, sobretudo o trio protagonista. A expressividade intensa ia muito além do que havia sido feito, por exemplo, em Tomb Raider e outros sucessos contemporâneos do game. Ainda que a modelagem poligonal tenha envelhecido mal, o estilo artístico permanece sendo um dos meus favoritos até hoje.

O mesmo, infelizmente, não pode ser dito da jogabilidade de movimentação e tiro no modelo tanque, algo também herdado das inspirações em Resident Evil. Enquanto as novas versões da franquia de zumbis mais célebre da Capcom abandonaram gradualmente o sistema, o relançamento de Fear Effect manteve o mapeamento dos controles, algo que pode agradar os fãs mais puristas, mas deve afastar todos os demais, desde os antigos até toda uma nova geração que não viveu o game em seu tempo.

O paradigma daquele momento, entretanto, encontrou aqui um avanço, com a capacidade de se caminhar e atirar ao mesmo tempo. Isso garante a chance de tomar cobertura em algum objeto ou canto enquanto ataca os inimigos, estes também mais perigosos pelo tiroteio frequente. O jogo também adota o estilo Tomb Raider de poder equipar uma arma em cada mão, cada qual podendo apontar para direções distintas e independentes.

Abaixar e rolar em esquiva dos ataques adversários é outro aspecto que traz um dinamismo para a ação, por mais que os bonecos pareçam rígidos demais para a fluidez proposta pelos comandos. A melhor abordagem, na maioria do tempo, é entrar em modo stealth e realizar execuções furtivas em sequência, algo que ajuda inclusive a recuperar um medidor de medo comprometido.

Nem sempre isso é uma mera opção, entretanto, e a travessia de alguns trechos precisa ser silenciosa para evitar câmeras de segurança e sensores de movimento. Particularmente, ainda acho essa obrigatoriedade, adotada de franquias como Metal Gear e popularizada por tantos outros até os dias atuais, um tanto quanto limitante, mas é diegeticamente funcional e contextualizada a contento. Continua sendo irritante ser pego quase no final da passagem, mas faz parte da experiência proposta.

Outro ponto importante da progressão está na complexidade de alguns quebra-cabeças ambientais que lembram os mais engenhosos sistemas daquela geração. A grande maioria deles parece sem sentido e aleatória, mas basta um olhar mais cuidadoso pelo cenário que a resposta pode estar lá, em um cartaz despretensioso, em um letreiro estiloso, ou mesmo no cantinho do cenário com algum item interativo. Com paciência, tudo tem solução.

Considerando que o jogo é reconhecidamente bem difícil em sua essência, sobretudo no enfrentamento contra chefes e sub-chefes, a jogabilidade arcaica e defasada pode incomodar bastante, e algumas pequenas adições servem para tentar abrandar um pouco as coisas. A primeira delas é o bem-vindo e necessário modo de salvamento rápido, evitando a necessidade de retornar a pontos distantes por qualquer erro bobo. Mesmo que os checkpoints sejam generosos e bem localizados, ajuda muito poder garantir um pequeno avanço em uma sequência complicada.

Outra possibilidade providencial é a chance de rebobinar uma ação mal executada para tentar refazê-la instantaneamente, como se tornou comum em jogos de corrida ou relançamento de jogos mais antigos, por exemplo. O recurso é essencial em um jogo onde a barra de saúde não existe e, no lugar, há um Fear Meter, ou medidor de medo (simbolizado por um monitor cardíaco) que, quando agravado pelo perigo iminente, resulta em uma morte instantânea dependendo do dano e do evento roteirizado.

Ainda assim, Fear Effect continua sendo um verdadeiro desafio (de dificuldade e paciência) porque suas mecânicas permanecem defasadas independentemente dos atalhos possíveis. É um jogo curto para os padrões atuais, podendo chegar a oito, dez horas dependendo das habilidades do jogador, mas que pode ser extremamente punitivo e frustrante simplesmente porque uma ação simples demanda esforços maiores do que o normal para os tempos atuais.

Não há dúvidas que o peso do tempo dariam ao jogo, de forma lógica, a necessidade de um remake completo, mesmo que mantendo o sistema de câmeras fixas, tal como foi feito com Resident Evil 1 e 0 na geração GameCube e que, depois, foi atualizado de forma exemplar. Sendo ainda mais revolucionário, uma reconstrução total no estilo Control seria ainda mais benéfico para valorizar os pontos fortes do game.

Dito isso, esta versão é atualmente, sem dúvidas, a melhor forma de experimentar um dos jogos mais surpreendentes do seu tempo, que mesmo bastante conhecido, acabou subestimado pelo mercado e pelo público, algo só reforçado pelo lançamento inespressivo de Fear Effect Sedna em 2018. Que este seja um novo primeiro passo para que a franquia receba mais atenção, investimento e, quem sabe, uma nova produção à altura de suas potencialidades.

Fear Effect está disponível para PlayStation 5, PlayStation 4, Nintendo Switch e PC (via Steam) sem localização em legendas ou menus para o português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Limited Run Games.

Veredito

Fear Effect, em sua essência original, é um dos melhores jogos de sua geração em todos os aspectos, tal como a história madura, a direção de arte ousada e até as mecânicas diferenciadas com boas inspirações da época. Esta nova versão, porém, é bastante tímida em oferecer melhorias em elementos de qualidade de vida, e parece inadequada para toda uma nova geração de jogadores ao não oferecer atualizações mais profundas e opções diversificas, o que o torna um port medíocre para um produto incrível que merecia muito mais.

70

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