Análises

Anno 117: Pax Romana – Review

Minha relação com jogos de construção e gerenciamento macro de cidades é um tanto quanto complexa simplesmente porque é o gênero que parece me tirar toda e qualquer noção de bom senso de cuidado com o tempo de jogo. Desde as madrugadas viradas com SimCity 2000, passando por Tropico, Cities: Skylines e tantos outros que vieram na esteira, é simplesmente impossível eu conseguir respeitar qualquer regra auto imposta de “só mais cinco minutinhos”.

Curiosamente, Anno 117: Pax Romana, a mais nova entrada da franquia capitaneada pela Ubisoft que chega pouco mais de dois anos depois do sucesso do seu antecessor que, aparentemente, fez com que a franquia rompesse a bolha de seu nicho, traz um assistente tutorial que avisa que já passamos de um certo tempo construindo e que é aconselhável parar para descansar. Parece que o jogo foi feito para pessoas como eu.

Considerando o refinamento entre os pilares da jogabilidade, dos visuais e do desenvolvimento da progressão, esta sensação é ainda mais pulsante. O jogo pode não parecer muito diferente daquilo que vimos em Anno 1800, salvo pela obviedade da ambientação em pleno Império Romano, mas parece se aproveitar muito bem do feedback recebido para ser ainda mais profundo e, ao mesmo tempo, mais confortável para o jogador.

A começar pela campanha, que nos permite a escolha de um ou de uma líder, cada qual com o seu background específico que influencia praticamente nada no gameplay em si, mas que traz algumas contextualizações para missões e tarefas secundárias muito bem-vindas. Enquanto Marcus busca resolver um problema sério de auto-estima ao assumir uma responsabilidade maior do que esperava, Marcia precisa reavaliar o seu papel em uma sociedade totalmente moldada para lideranças masculinas.

Partindo do ponto fundamental, é necessário, como jogos do tipo, criar um modelo de desenvolvimento e crescimento sustentável que, a partir das escolhas centrais feitas pelo jogador, penderão para uma vocação maior para áreas como o comércio, a diplomacia, a cultura ou o poderio militar, mesmo que a princípio, o próprio jogo nos guie para uma base equilibrada entre todos estes aspectos, algo que será muito importante conforme desenvolvemos nossos domínios.

Os tutoriais – que não tem qualquer pressa em nos forçar a aprender tudo de uma só vez – são bastante generosos quanto a conceitos, mas não tanto quanto a comandos, e aqui entra uma das poucas fragilidades do jogo para o Playstation 5, que é o sistema de interface e o mapeamento de comandos. Afinal, não é segredo que jogos de estratégia e gestão como este se moldam melhor ao conjunto mouse e teclado (que aliás, podem ser utilizados no console se o jogar assim quiser), mas tivemos ótimos exemplos recentes de boas adaptações para o controle. Anno 117: Pax Romana, entretanto, tem seus percalços neste aspecto.

As rodas de construção são bastante instintivas e o posicionamento das edificações não foge daquilo que já aprendemos antes. Mesmo com o inclusão gradual de novas possibilidades, tudo parece bem funcional. A maior dificuldade surge na microgestão de cada elemento, quando selecionados uma embarcação, uma fábrica ou um prédio público, por exemplo. O sub-menu que se abre é acionado pelo direcional, mas nem sempre estamos no mesmo plano das opções. Navegar por entre as layers, se posso chamá-las assim, é pouco prático e nada dinâmico.

Entretanto, com um pouco de paciência e alguma dedicação a compreender o que é informação e o que é customizável, tudo segue sem maiores complicações porque, como dito, o jogo se parece bastante com a entrada anterior, e não traz grandes renovações de controle, o que é ótimo para uma sensação de continuidade e conforto, mesmo que careça de pontos de inovação e renovação esperadas para uma continuação.

Esta generosidade para com o jogador pode ser percebida no complexo modelo de acompanhamento de commodities, seja por conta da produção, seja pelo comércio com outras regiões vizinhas. Por mais que seja o sistema que demanda um cuidado maior, é também o mais fluido que já tive a oportunidade de experimentar, com as coisas acontecendo em tempo real de maneira orgânica, se bem configurada.

Anno 117: Pax Romana também evita um efeito dominó exagerado para a evolução tecnológica da manufatura, armadilha que muitas franquias consagradas acaba caindo. Sabe aquela receita piramidal de que para fazer algo, precisa de outro algo, que precisa ser processado por um tipo de máquina, que precisa de uma outra cadeia produtiva enorme para existir, e assim por diante? Aqui, tudo funciona com mais naturalidade quase sempre, e normalmente uma nova inclusão já chega com todos os requisitos bastante estabelecidos.

Isso não significa, porém, que seja uma experiência exatamente simples, porque aprendemos pouco a pouco o que deve ser feito, mas o “como” fazer é outra história. Entender como escoar o excedente da produção, por exemplo, para que não falte mercadoria e, ao mesmo tempo, os armazéns não fiquem abarrotados, é uma habilidade que precisa de uma certa dinâmica de tentativa e erro logo no início para não sufocar o potencial de crescimento. Quando expandimos para outros locais, esse aprendizado será o maior diferencial entre a falência absoluta e os louros da história.

O resultado, porém, é um verdadeiro deleite para quem gosta de criar um mundo funcional, que opere como um verdadeiro relógio suíço. Crises acontecem, novas metas surgem, mas quando tudo está em bom andamento, não há problemas em se lidar com a exceção. Tudo bem sermos convidados a fornecer suprimentos para uma celebração do outro lado no mar quando a cidade está pulsando perfeitamente. Pelo menos, quase sempre.

A ideia aqui não é ser, necessariamente, só um bom gestor público. Isso porque um bom resultado em nossa modesta cidade nos permite ganhar prestígio junto aos figurões do poder, quem sabe ascender na escala social de uma aristocracia moldada pela conquista e pela glória do império. A narrativa de fundo vai para além de mera ambientação e molda algumas de nossas escolhas, desde a decisão de qual a nossa divindade protetora (algo que garante bônus e vantagens extras) até o investimento no conflito ou na obediência.

O jogo político se torna cada vez mais sofisticado quando nossa expansão se torna revigorante. Ao desbloquear o acesso a outras regiões para ocupá-las via rota marítima, os meios de produção ganham novas possibilidades de retroalimentação, criando canais diversificados e altamente complexos. Confesso que muitas vezes eu gostaria de ser mais aventureiro e propositivo do que ficar cuidando de quem vende o que para quem, mas o formato é tão bem articulado que o tempo tomado nunca parece burocrático demais.

O problema aqui pode estar na paciência do jogador em se manter atento por tanto tempo a esta administração da economia. Porque, no final das contas, quanto mais se cresce, mais difícil se torna cuidar das coisas e, não raro, aquelas contas públicas que pareciam saudáveis começam a degringolar de forma acachapante por um mísero detalhe bobo que se pode deixar passar. Quanto maior a coisa, maior o tombo, dizem. E aqui, esta máxima se torna quase um mantra.

Já quando se trata da boa e velha guerra, Anno 117: Pax Romana se esforça bastante para que tudo pareça seguir um curso integrado. Claro que ainda podemos sair por aí arrumando confusão com quem olha torto, tal como também podemos ser atacados do mais absoluto nada aparente, mas dependendo das nossas ações, a integração entre as diferentes áreas de ação é uma das mais imersivas que eu já vi.

Em certo momento, quando eu já estava todo arrogante levando coisas de cá pra lá e de lá pra cá, se tornou mais frequente e incômodo ser mais abordado por um bando de piratas desocupados, e ficou claro que o desenvolvimento militar que eu tinha dado pouca importância inicialmente se tornou um ponto fundamental na defesa das minhas ações. As grandes batalhas navais que travei, portanto, estavam para além do “chora menos quem pode mais” e se tornou um ponto de viabilização para o todo. Havia um bom motivo para o confronto, algo o que defender.

O mesmo vale para o sistema de combate em terra firme, que pode não ser dos mais sofisticados como na série Age of Empires, mas é bastante funcional e bem agradável de gerir e de apreciar também. Anno 117: Pax Romana não será a primeira escolha de quem está buscando um bom RTS moderno, mas ele está longe de fazer feio, e acredito que fãs dessa linha de ação serão muito bem recompensados pelas possibilidades do game.

Talvez a boa impressão seja reforçada pela capacidade de, pelo olhar de uma divindade quase onipresente, poder assistir tudo de camarote. Não só as batalhas, mas toda a vida em Anno 117: Pax Romana é dinâmica e caótica. Aquela aproximação da câmera em um desfile de celebração ou em um movimento desordeiro fazem com que aqueles números na tela de habitantes ganhe materialidade. O mundo é genuinamente vivo.

Com um ótimo trabalho de elaboração gráfica, o jogo apresenta uma variedade de construções surpreendente e agradável, e por mais que o início de qualquer jornada pareça simplória, o crescimento e o amadurecimento das casas da nossa população e todo o arcabouço de obras de infraestrutura transformam ilhas vazias em grandes conglomerados diversificados. Recriar a silhueta de uma cidade de formas únicas é e sempre será a maior diversão de jogos do gênero, e aqui isso se torna particularmente exuberante.

O jogo oferece, para quem realmente não se importar em atravessar as madrugadas, um modo infinito que nos coloca em duas possibilidades de cidades, cada qual com suas especificidades e também com seus níveis de dificuldade bem desenhados para que as habitemos por dezenas, quiçá centenas de horas. Se a campanha não é das mais longas – entre 12 e 15 horas já é o suficiente para chegar ao fim – é no end game onde o jogo mostra todo o potencial de cada uma das mecânicas das quais falei. O modo História, mesmo bem completo e interessante, acaba sendo, ele mesmo, um tutorial parrudo para o que vem depois.

Saber que o jogo pode – e deve – render muito e muito investimento de tempo, paciência e capacidade de decisões difíceis é, para a grande maioria dos fãs do gênero, um verdadeiro alívio. Evitando cair em um marasmo repetitivo, há eventos e atividades de progressão e aprofundamento aqui que tornam este, tanto quanto ou até mais que o anterior, um investimento certo em todos os aspectos. Anno 117: Pax Romana é uma experiência completa e revigorante que todo postulante a imperador deveria poder apreciar.

Anno 117: Pax Romana está disponível para PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC, via Steam, Epic Games Store e Ubisoft Connect com localização em legendas e menus para o português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela Ubisoft.

Veredito

Sem grandes inovações quando comparado ao seu predecessor, Anno 117: Pax Romana se prova uma das melhores e mais divertidas experiências de construção e gerenciamento da atualidade. Mesmo com uma interface por vezes desajeitada principalmente com o DualSense, agrega um sistema bastante orgânico de gestão e progressão com ótimos visuais, resultando em uma sensação muito satisfatória cujo maior perigo é não nos darmos conta de quantas horas passamos imersos ali.

85

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