“Não é preciso ter olhos abertos para ver o sol, nem é preciso ter ouvidos afiados para ouvir o trovão. Para ser vitorioso você precisa ver o que não está visível”. Sun Tsu, em seus escritos conhecidos como A Arte da Guerra, já nos alertara para buscarmos, sempre, aquilo que não é óbvio, não é palpável a olhos e ouvidos desatentos, isso se quisermos realmente nos destacar do sujeito comum. Permita-me, caro leitor, sequestrar levianamente tal citação para o universo dos nossos adorados videogames, e iniciar uma reflexão acerca da obra provavelmente oculta dos radares mundanos, chamada Ashigaru: The Last Shogun, um game de Gilson B. Pontes.

Não, você não está delirando, e certamente já conhece o visionário (e, por vezes, incompreendido) autor de PÉROLAS da nossa cultura digital como Samael: the Legacy of Ophiuchus, Shadow: the Ronin e Sword of Fortress: the Onomuzim, produções para as quais não tenho palavras, só sentimentos. Faltam-me adjetivos que possam traduzir a experiência inesquecível que esses jogos nos trouxeram enquanto equipe PSX Brasil e, bem, cá estou eu com a missão de verbalizar a minha vivência com Ashigaru: The Last Shogun, e minha meta é, tal como aconselha o camarada Tsu, ver para além do que está visível.

A lendária revista francesa Cahiers du Cinema foi responsável por cunhar e popularizar dentre os teóricos da sétima arte o conceito do Cinema de Autor para destacar a figura criativa que começava a ganhar contornos sofisticados no início da segunda metade do século XX. Se antes, naquele primeiro cinema que já assumia as feições de linha de produção fordista, o diretor era tido muito mais como uma figura organizacional, um gerente de projetos por assim dizer, e agora ele se mostraria um verdadeiro artista, a mente que moldava enquadramentos, cenas, sequências e sentidos tal como um escultor fazia com a argila. Claro que mais tarde estaríamos estudando o conceito d’A Morte do Autor, mas melhor ignorar essa parte para que eu não perca o efeito dramático.

O Game de Autor, me autorizando pegar a ideia emprestada, não é algo novo para esta indústria vital. Não raros eram os jogos produzidos por uma pessoa só lá no início de tudo, entre os anos 1970 e 1980, quando o mesmo programador era quem construía elementos gráficos, narrativos, sonoros e de interatividade para os videogames. O que veio depois, todos já sabemos, é que o sistema de produção se complexificou, e hoje não é raro presenciarmos uma tela de créditos finais do nosso jogo preferido com mais de trezentos nomes. A autoria se perdeu, o anonimato tornou-se regra, e o autor, a exceção. Mas ele ainda persiste.

Gilson B. Pontes, o nome que estampa direção, roteiro e outras funções em Ashigaru: The Last Shogun, nos prova, game após game, experiência após experiência, que a assinatura feita à mão ainda é possível mesmo em meio à vastidão desse monstro que se tornou o mercado dos videogames. Seja controlando um samurai desiludido, um honrado cavaleiro medieval ou mesmo um detestável demônio, não sobram dúvidas de quais foram as mãos que forjaram a ferro, sangue e códigos cada um dos seus jogos. Este, o mais recente, nos coloca na pele de um espadachim em pleno período Sengoku que se vê envolto a um conflito civil sem precedentes travada por Daimyos que clamam para si o poder absoluto. A missão? Nada além de escrever nosso nome na história com o sangue dos inimigos banhando nossa katana.

O objetivo, contudo, está longe de ser um passeio pelos vastos campos de trigo que se vê em outras obras mais comerciais que tentam tratar do mesmo tema. Ao contrário, a tempestade sopra raivosa pelos galhos bidimensionais das poucas árvores que povoam o horizonte, a Lua nos assombra como se estivesse quase se chocando contra o solo árido e infértil de um Japão destroçado, e os inimigos, ah, estes sacripantas… estão todos esperando em seus eternos passeios em círculos para com um único e seco golpe nos enviar para as profundezas do inevitável Yomi. Lembro-me de ter falado desse mundo pós-vida muito presente na cultura oriental em um game recente que o leva no nome, mas que jamais conseguiria transmitir a solidão e a desolação de se estar lá como visto em Ashigaru.

O caminho do guerreiro, entretanto, não termina com a morte. Renascer é preciso, persistir é necessário, recomeçar é o código. O cavalo pode estar ali conosco para nos acompanhar nos primeiros passos de cada nova jornada, mas no final, rasgar os campos montanhosos deste vasto mundo aberto cheio de nada, tal como a própria morte, é uma missão que se cumpre sozinho. Impossível não criar as pontes entre Gilson e sua criação, entre o autor solo e seus protagonistas errantes em busca da redenção e de uma pretensa paz utópica. Há que superar a si mesmo mais do que a inimigos sem rosto, há que se destruir os moinhos de vento antes que eles nos engulam. Há que rebelar contra tudo que nos dizem para buscar o que é certo, tal como o grande Uwe Boll fizera com o cinema nos anos 2000.

Não estou falando sobre uma resposta rápida (ou a total ausência dela) nos controles, muito menos da (im)precisão de hitbox, (des)estabilidade de framerate, contornos suaves e essas coisas todas que só interessam a programadores massificados. Muito menos, de precisão na representação histórica, cultural ou geográfica de um povo e de sua morada, porque tudo isso seria fútil demais. Mesmo o filtro preto e branco cheio de tons de cinza que em nada dialogam com o clichê de Akira Kurosawa importa quando o assunto é outro. Afinal, o que você sente quando percebe que jamais conseguirá realmente encontrar um caminho que goste ou que faça qualquer sentido em Ashigaru: The Last Shogun é o que guia nossas percepções, nossas sensações. A arte não é feita para agradar, é feita para incomodar.

Há mais algo a se dizer? Não acho. Este projeto nos traz um ensaio sobre uma vida sem sentido, sem regras, sem receita pronta. Impossível racionalizar o etéreo, improvável ter sucesso na dura missão de se avaliar aquilo que não estamos preparados para sentir. Não há nota a ser dada, não há quantificação para o nada. Resta-me dizer que Ashigaru: The Last Shogun é Gilson B. Pontes e Gilson B. Pontes é Ashigaru: The Last Shogun e isso já basta.


MUITO IMPORTANTE: Review escrito após o cérebro do redator fritar jogando mais uma obra atemporal de Gilson B. Pontes. Não leve a sério as palavras acima escritas, ecoadas de um cérebro que já não sabe mais o que é realidade ou fantasia.

Ashigaru: The Last Shogun será lançado em 20 de maio de 2022 exclusivamente para o PS4.