AnálisesPS Vita

Papers, Please

Análise

NOME: Papers, Please
FABRICANTE: 3909 LLC
PLATAFORMA: psvita
GENERO: Aventura
DISTRIBUIDORA: 3909 LLC


LANÇAMENTOS
12/12/2017 12/12/2017 Não disponivel


INFORMAÇÕES ADICIONAIS E SUPORTE
Resolução Máxima: qHD

Nº de Jogadores: 1

Troféus (sem Platina)

DLC

Espaço necessário: 45 MB

Disponível na PlayStation Store

Legendas em PT-BR: Sim

Dublagem em PT-BR: Não


É inegável que os jogos independentes têm conquistado cada vez mais espaço nos últimos anos. Tamanha conquista deve ser atribuída, principalmente, a algo que a maioria de seus desenvolvedores buscam enquanto criam seus jogos: inovação. É graças a essa incessante busca por algo único que somos surpreendidos com jogos como Undertale, Va-11 Hall-A e Braid. Esses títulos não somente possuem mecânicas inéditas, como também reinventaram a maneira de contar o seu próprio enredo, elevando a interação entre jogador e jogo para o próximo nível. Graças a isso, estes jogos ficarão marcados para sempre na história, e com Papers, Please não é nem um pouco diferente.

Originalmente lançado em 2013 para PC, Papers, Please é considerado por muitos um dos melhores jogos independentes já lançados de toda a história e possui uma boa coleção de prêmios e indicações. Tal mérito é acompanhado de uma enorme simplicidade encontrada no game, que foi projetado unicamente por Lucas Pope, um ex-funcionário da Naughty dog, que participou do desenvolvimento de alguns jogos da série Uncharted.

Você assumirá o papel de um cidadão que foi sorteado para ser oficial de imigração na fronteira de Arstotzka, um país de caráter comunista sob uma forte ditadura. Seu principal objetivo é garantir a passagem dos imigrantes que tenham os documentos corretos e qualquer tipo de irregularidade na papelada pode ser considerado um bom motivo para impedir a viagem de alguém.

O gameplay é bastante simples: a cada dia que se passa no jogo, você examinará os documentos de vários viajantes. É preciso buscar por discrepâncias em seus dados como data de validade vencida, país de origem não existente, número da identidade inválido, etc. Caso tudo esteja em dia, você poderá carimbar o passaporte do viajante com um sinal verde para que entre. Se o documento possuir algum problema, você deverá apontá-lo ao imigrante e, caso ele não se justifique, poderá negar sua entrada com um carimbo vermelho.

Conforme o jogador progride, vão surgindo novos eventos no universo do game que adicionam novos dados que precisam ser checados, tornando todo o processo mais complexo e aumentando a dificuldade do jogo gradativamente. Apesar da dificuldade ser um pouco elevada, logo o jogador se acostumará a analisar os documentos e memorizará até mesmo o nome de cada cidade dos países do jogo, para evitar olhar o mapa e, com isso, agilizar seu trabalho. Tudo isso ocorre de maneira muito natural e demonstra o quanto podemos evoluir ao realizar uma determinada tarefa por muito tempo.

Ao final de cada dia, você receberá certa quantia de dinheiro, correspondente à quantidade de pessoas que passaram pela sua cabine, e será levado a uma tela onde deverá direcionar seus ganhos para pagar algumas contas como aluguel, aquecimento e comida. Ao ter as contas em dia, poderá oferecer uma vida melhor para sua família, composta de sua mulher, filho, tio e sogra. Cada um deles possui seu próprio status e, caso o jogador falhe em dar a devida atenção a um de seus familiares, eles poderão morrer de frio, fome ou de doenças. Também é possível utilizar o dinheiro para fazer upgrades em sua cabine, criando atalhos para realizar algumas ações mais rapidamente e economizar tempo durante seu trabalho. É necessário ressaltar que, se o jogador cometer diversas falhas ao identificar problemas nos documentos, poderá ser penalizado com deméritos, os quais, se acumulados, gerarão multas em dinheiro.

Por mais que pareça uma atividade incrivelmente repetitiva, o jogo não se torna cansativo em momento algum para o jogador e chega a se tornar viciante na maior parte do tempo. Tudo isso se deve ao brilhantismo com o qual seu criador projetou a história, unindo de forma primorosa o enredo e as mecânicas do game. Basicamente, o jogo todo funciona como uma espécie de experimento social: o jogador recebe uma tarefa bastante simples, mas deverá seguir as regras impostas pelo jogo a todo instante? Não existirão exceções? O que fazer quando alguém tem todos os documentos válidos, mas apresenta algum indício de estar alimentando alguma atividade ilegal no país, como prostituição? Como devemos nos portar ao receber um documento inválido de alguém que perdeu tudo devido à guerra, cujo único parente mora além da fronteira que você guarda? As respostas para estas perguntas e muitas outras não são ensinadas no jogo, mas sim na experiência de vida de cada jogador.

Papers, Please, a todo instante, põe à prova nossos princípios éticos e morais ao apresentar diversos tipos de situação em que teremos em nossas mãos o peso da vida de alguém. Um alguém que, assim como você, pode ter sofrido (ou ainda sofre) com a pobreza, a carência de ajuda do governo, conflitos locais, injustiças causadas por seus próprios governantes e muito mais. Alguns destes personagens são incrivelmente carismáticos no jogo e é praticamente impossível não simpatizar com a causa deles.

Jogando, você finalmente percebe que um simples agente de imigração tem um poder de decisão tão grande (ou até mesmo maior) quanto o de um líder de seu país. Literalmente você é o juiz, júri e executor de muitas pessoas que tentam atravessar a fronteira para ter uma vida melhor em Arstotzka. É impossível não compreender e se sensibilizar com a vida das pessoas em meio a tantos conflitos territoriais e migrações em massa que têm acontecido pelo mundo neste ano de 2017. Por conta desse aspecto singular, o jogador pode tomar diversas decisões diferentes enquanto joga, gerando consequências que afetam o enredo diretamente a todo instante. Você pode deixar que membros de uma organização liberal revolucionária entrem no país para causar uma revolução, ou pode prendê-los e ser um trabalhador exemplar para construir uma Arstotzka mais rígida e forte.

Devido ao seu conteúdo, Papers, Please se torna um jogo bastante obscuro na maior parte do tempo. Porém, não se engane: existem pequenas doses de humor que pegarão todos de surpresa e geram boas gargalhadas. É incrível como o enredo do jogo se constrói de maneira singular graças à repercussão de nossas ações e tamanha complexidade em nossas escolhas fazem com que o jogo possua cerca de 20 finais diferentes. Acredite: você vai querer ir em busca de cada um deles e vale lembrar que todo o jogo está traduzido para o português.

Além da história, o game conta com um modo infinito, no qual você é capaz de escolher determinadas condições específicas para jogar e seu nível de dificuldade. É um modo bastante divertido e oferece um enorme fator replay, apesar de não ser tão genial quanto a sua campanha.


O jogo conta com visuais inteiramentes em 2D e com uma paleta de cores composta de tonalidades escuras voltadas para o cinza, que aumentam o tom sombrio e dramático do jogo. A trilha sonora, bem como seus efeitos de som, merecem elogios, apesar de serem escassos. O som de seu carimbo tocando o passaporte de alguém ou o som da fala dos viajantes nunca parecem se repetir durante o game. A música tema por si só já gruda em sua mente e faz referência a hinos de países comunistas antigos. Além disso, é certo que após algumas jogatinas, você mesmo estará cantarolando o tema de Arstotzka.

O desempenho do jogo é excepcional no PlayStation Vita e em momento algum foi presenciado algum tipo de bug ou glitch que prejudicasse o gameplay. Os controles fazem uso o tempo todo do touchscreen do portátil e funcionam tão bem quanto o mouse na versão de PC. No início, pode ser um tanto complicado se acostumar com os controles, mas a repetição de suas tarefas farão com que você se torne mais eficiente em seu trabalho conforme progride no game. O único problema é que, em certas ocasiões em que precisamos lidar com múltiplos tipos de documentos, a sua manipulação torna-se problemática devido ao tamanho da tela do portátil (que não comporta tudo), o que pode acabar causando certo desconforto.
 

Veredito

Papers Please é, sem sombra de dúvida, um dos melhores jogos independentes já feitos até então. É um enorme prazer recebê-lo no PlayStation Vita com um excelente port. Sua história, personagens e mecânicas não só revelam o quão dura a vida dos milhões de imigrantes mundo afora pode ser, como também serve de experimento social, revelando o melhor (ou pior) de nós. Definitivamente, Lucas Pope merece aplausos por seu brilhante trabalho neste jogo, que merece ser conferido por todos. É praticamente impossível terminar esta análise sem alegremente dizer: Glória a Arstotzka!

Jogo analisado com código fornecido pela 3909 LLC.


 

95%