The Vale: Shadow of the Crown – Review

Acessibilidade é um princípio que preza pela construção de recursos e artifícios que se propõem a promover o amplo acesso aos mais diversos espaços por todas as pessoas em suas semelhanças e também em suas especificidades. É um conceito que hoje faz parte do universo de quem cria conteúdos de acesso universal, como empresas, setores públicos, áreas de interesse amplo, e também nos campos da arte e do entretenimento. Audiodescrição, tradução para a Língua Brasileira de Sinais (ou LIBRAS) e leitura tátil em Braille são só algumas das formas mais conhecidas de se buscar uma pretensa universalidade de acesso.

Se o cinema, o teatro e a literatura já desenvolveram soluções muito importantes ao longo dos últimos anos, a indústria dos games ainda dá seus primeiros passos nessa direção, com opções de adaptação em jogos, dos mais conhecidos aos mais tímidos, para diferentes características físicas e psíquicas, algo que até mesmo as premiações mainstream, como por exemplo o VGA, tem destacado em suas edições mais recentes. Em termos de hardware, também têm chegado ao mercado algumas opções de controle e interface de interação que buscam atender a um público que até então era deixado de lado, como o Access, da Sony, e o Xbox Adaptive Controller, da Microsoft. Mas tudo isso ainda é insuficiente. Faltava algo.

The Vale: Shadow of the Crown

Recentemente, um jogo se destacou diante outros tantos por não se propor somente em adaptar suas funcionalidades como um extra de acessibilidade, mas sim de ser, ele mesmo, totalmente pautado por este aspecto, trazendo-o como ponto principal tanto de sua trama como de sua jogabilidade. The Vale: Shadow of the Crown, que agora chega também ao Playstation 4, é um jogo ousado, necessário, que não só aborda a cegueira como algo com o qual temos que nos preocupar, como também nos posicionando pela perspectiva de uma personagem com esta deficiência. É um jogo que, portanto, vai para além de falar sobre o tema, nos colocando para vivenciar aquilo em uma experiência absolutamente sensorial que subverte muitas das verdades estabelecidas nesta indústria vital.

Na trama, assumimos a perspectiva de Alex, uma princesa que nasceu cega e, como é bastante comum mesmo em nosso mundo real do século XXI, sempre foi tratada como alguém menos capaz, crescendo à sombra de seu irmão. Com o pretexto de estar sendo poupada pela família, foram poucos os incentivos que ela recebeu, a não ser pelo treinamento quase que à revelia do mundo promovido pelo seu tio, que ao invés de tratá-la com condescendência, a preparou para um mundo onde, não importasse o quanto ela fosse protegida, ainda seria cruel e perigoso. É com esse personagem que temos nossas primeiras lições de como nos apropriar de objetos e, principalmente, da nossa percepção espacial por outros meios, sobretudo a audição.

The Vale: Shadow of the Crown

Com esta descrição, a história, claro, poderia se passar em diferentes contextos, mas aqui estamos localizados em uma típica ambientação medieval. Nossa heroína, ao ser enviada para ocupar um castelo distante pelo seu irmão recém empossado rei, é atacada por um grupo de bandidos, e sua caravana é completamente destruída. Alex acaba como a única sobrevivente do massacre e, sozinha, precisa encontrar um meio de voltar para casa viva. É aqui onde a jornada começa de verdade, e um típico RPG de ação se desenvolve. Típico, na verdade, é sobre a temática e algumas das principais convenções do gênero, porque a forma como tudo se desenrola é um tanto quanto diferente do que estamos acostumados.

Toda a interação do jogo se dá pela interface, principalmente, do som. Assim como em filmes ou programas audiodescritos, há uma voz especificamente dedicada a nos ensinar os comandos possíveis nas mais diversas situações. Por exemplo, ao nos deparar com uma situação de combate, o tutorial nos dá as orientações de como usar o escudo, a espada ou armas de ataque em longa distância. Aprendemos a lidar com os sinais sonoros de quando e como interferir no mundo, tudo isso para que em algum momento, não precisemos mais de orientações. O mesmo vale para exploração de ambientes, comércio e diálogos. E é nesse ponto onde há um equipamento obrigatório muito mais importante que os controles: o sistema de som, de preferência, um belo headset.

The Vale: Shadow of the Crown

Isso porque toda a orientação de direção se dá pela percepção espacial do som. De onde estou ouvindo essa cachoeira? Este lobo me atacando está à direita? Esta galinha cacarejando está mais perto? Tudo se dá por esta ambientação rica em estímulos muito bem mapeados para a tridimensionalidade sonora. Você certamente conhece aquela experiência de áudio binaural já bastante antiga conhecida como Virtual Barber Shop, e o objetivo aqui é muito semelhante, reconstruindo todo o espaço cênico a partir da direção e da distância das diferentes fontes presentes no local. Todo o preenchimento estético, portanto, fica por conta da nossa imaginação, aliada à nossa bagagem prévia deste tipo de narrativa de época. Caso não conheça a experimentação citada, ouça aqui abaixo:

 

Mas o que sobra para a questão visual do jogo? Obviamente, muito pouco. É possível acessar o mapa pelo menu de suporte, bem como a parte textual de estatísticas e de inventário, tal como ilustrado nesta análise. Na maior parte do tempo, a tela é povoada por pequenos pontos luminosos, estímulos que parecem pouco, mas que nos dão exatamente a dimensão daquilo que representa a percepção de mundo da nossa protagonista. Como pequenas concessões, a cor desses pontos dá uma boa dica do período em que aquela cena se passa, como dia ou noite, e no momento da exploração, temos uma leitura de que estamos caminhando para frente ou para trás, para um lado ou para o outro, emulando assim uma sensação de baixa visão.

Mesmo que o jogo não seja uma versão nativa para o Playstation 5, e portanto o uso do Pulse 3D não é o mesmo que poderia ser em algo customizado para ele, a boa mixagem de The Vale: Shadow of the Crown é ótima para nos dar os subsídios que precisamos naquilo que o game exige. Não há uma espacialidade especialmente complexa, e na grande maioria dos casos, só precisamos nos importar com o que acontece à esquerda, à direita e ao centro. Em certos momentos, o que está acontecendo atrás se mostra relevante, mas ainda assim de forma bastante tranquila. Não espere ser atacado furtivamente de locais altos ou baixos, e tudo está sempre à altura de seus olhos.

The Vale: Shadow of the Crown

O uso da vibração dos controles também é um elemento importante, aumentando a sensibilidade para coisas como ataques fortes ou fracos, passagens mais tensas e coisas assim. Novamente, não sendo uma versão que usa nativamente o DualSense, esse aspecto ainda é limitado e se comporta bem tanto com controles do PS5 como do PS4. Funciona, tem sua função narrativa muito mais ampla do que em jogos mais convencionais, mas certamente poderia se aproveitar do que há de específico na nova geração se fosse pensado especificamente para ela.

Detalhes, claro, bastante pequenos comparados à virtudes quase inimagináveis para um jogo com essas características. O sistema de combate é significativamente complexo, mas jamais burocrático, e depende muito mais de prática do que combinações sofisticadas de comandos. Timing é essencial, e a adaptação aos estímulos direcionais que parecia difícil a princípio logo reconfiguram o nosso cérebro, se tornando fluidos e bem naturais. Mesmo em combate com múltiplas fontes agressoras, nos tornamos bons em nos concentrar em diferentes pontos focais, o mesmo valendo para a exploração mais livre. Este jogo nos testa, nos provoca, nos convida a uma nova descoberta do mundo por outros meios, e mais do que isso, nos retribui quando aceitamos o convite.

The Vale: Shadow of the Crown

Tudo isso não seria suficiente, claro, se estruturalmente não houvesse uma base muito bem solidificada para sustentar a narrativa, e aqui há um acerto cirúrgico da equipe de desenvolvimento. A história que nos é contada segue com um ritmo bem interessante, durando por volta das suas 8 horas em média para quem se interessa em explorar e cumprir também as missões paralelas. Algumas delas ainda seguem aquela linha do “vá até lá e traga algo para mim” que nenhum RPG moderno abre mão, mas mesmo estas tarefas triviais funcionam como forma de aprimoramento de técnicas e habilidades recém adquiridas.

Estas ações podem envolver abelhas, ursos ou ferreiros espertos, podem nos levar a cavernas ou grandes descampados, e a ambientação sonora de cada um destes espaços evidencia um carinho todo especial com o projeto. Cada ruído, cada fonte natural, a cadência das ações, tudo ajuda a construir um cenário rico em detalhes, que se funde com ótimas interpretações por voz que dão vida aos personagens, mesmo os de menor participação. Fica o lamento de que infelizmente o jogo só está disponível em inglês e, sem a compreensível presença de legendas, se torna necessário um ótimo entendimento do idioma falado para se aproveitar o jogo a contento. Deixo o pedido para que tenhamos em um futuro próximo versões em outras línguas que incluam, claro, o nosso português brasileiro.

The Vale: Shadow of the Crown

No final das contas, este é um jogo somente dedicado, portanto, a pessoas com deficiência visual parcial ou integral? Não. Pessoalmente, mesmo já tendo trabalhado com adaptação e produção de materiais audiovisuais educativos acessíveis, eu não me enquadro nesse perfil, e ainda assim tive uma oportunidade riquíssima de vivência com o game. Imagino o quão esquisito era para minha família me encontrar no escuro quase absoluto experienciando o jogo com a concentração total. Mas ele é também e principalmente para um público que antes era negligenciado por uma indústria que já tinha se conformado que não atenderia a estas necessidades específicas. Então seja você vidente ou não, The Vale: Shadow of the Crown é uma sugestão única para quem gosta de uma boa aventura e tem a disponibilidade de aprender muito no processo.

Jogo (versão de PS4) analisado no PS5 com código fornecido pela Creative Bytes Studios.

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Veredito

Mais do que uma recomendação pelas suas características únicas de acessibilidade, The Vale: Shadow of the Crown é, como um todo, um projeto robusto e muito bem articulado. Fora a ausência de localização e de recursos avançados da nova geração, é um jogo absolutamente necessário para cada um de nós, videntes ou não.

90

The Vale: Shadow of the Crown

Fabricante: Falling Squirrel

Plataforma: PS4

Gênero: RPG / Ação

Distribuidora: Creative Bytes Studios

Lançamento: 14/03/2024

Dublado: Não

Legendado: Não

Troféus: Sim (sem Platina)

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Veredict

More than a recommendation for its unique accessibility features, The Vale: Shadow of the Crown is, as a whole, a robust and very well-articulated project. Aside from the lack of localization and advanced new generation features, it is an absolutely necessary game for each of us, sighted or not.