Kill It With Fire – Review

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp

Aranhas! Criaturinhas pequenas, invertebradas, algumas até inofensivas, mas capazes de despertar arrepios em muita gente. Obviamente, a cultura pop não deixaria de se apropriar disso para criar obras que explorem o medo, a aversão que elas causam e, não a toa, um dos filmes mais conhecidos que tratam dessa questão leva o nome oficial deste medo: Aracnofobia (1990). O cinema e a literatura, aliás, foram bastante produtivos em explorar os aracnídeos das mais variadas formas. De Laracna, parte da construção da mitologia de Tolkien em O Senhor dos Anéis, a filmes B como Malditas Aranhas (2002) não faltam exemplos de como podemos materializar esse pavor.

Kill It With Fire traz essa questão para o universo dos games, em uma tentativa que busca mesclar o realismo de uma simulação ao absurdo das situações. Por um lado, nada de aranhas gigantes, criaturas mutantes (ou quase isso), ninhos enormes e catástrofes de monstros. As inimigas no jogo são todas baseadas em sua proporção real, e nós, jogadores, assumimos o papel de um exterminador de pragas em uma jornada para acabar com todas elas. Contudo, o absurdo está escancarado desde os primeiros minutos do jogo, seja em algumas características especificas das diferentes espécies que encontramos ao longo dos 10 níveis disponíveis, seja principalmente pelos meios, digamos, pouco ortodoxos, de como resolver essa questão.

A cada nova fase, nos deparamos com a possibilidade de esmagar cada aranha com o que tivermos em mãos: vasos, quadros, joysticks, pratos, livros e qualquer objeto disponível, incluindo a prancheta que carregamos conosco com a lista das sub-missões propostas. Além disso, temos a possibilidade de compor nosso arsenal com armamentos como frigideiras, armas de fogo, roçadeiras, granadas e até shurikens. E ainda há a possibilidade de consumirmos energéticos para melhorarmos nosso desempenho ou usar comida para atrair nossas adversárias para a morte certa. Com tudo isso a disposição, fica fácil entender porque ao terminarmos o que começamos em uma pacata residência de periferia, por exemplo, tudo estará destruído, queimado, em pedaços. Mas ao menos, livre das ditas cujas.

Estruturalmente, Kill It With Fire é um jogo bastante convencional: ao iniciarmos uma fase, nossa meta é, claro, acabar com as aranhas daquele lugar. Para tal, há algumas tarefas intermediárias, estas listadas na prancheta citada anteriormente, que incluem a necessidade de se acabar com uma certa quantidade de bichos de uma espécie específica, resolver alguns puzzles ou encontrar um ou outro artefato. Na maioria dos níveis, há portas que podem ser acessadas a partir de uma certo número de animais eliminados. Há ainda passagens secretas e outros espaços, mas nada muito complicado e a grande maioria deles são abertos naturalmente, conforme se avança na missão.

O centro da jogabilidade está mesmo em encontrar as danadinhas escondidas dentro de gavetas, ou embaixo de um vaso de plantas, ou ainda atrás de um porta-retratos. Isto posto, há duas opções, sendo que a primeira delas é a mais direta possível: pegar cada coisa no cenário utilizando o botão quadrado, examiná-lo girando-o com o L2 e, no caso de encontrar alguma coisa, jogar no chão e atacá-lo utilizando o R2. Cada equipamento funciona de uma forma diferente. Enquanto o lança-chamas atinge com menos eficiência em área, a espingarda é mais eficaz, mas precisa de um nível de precisão maior porque, afinal, acertar um alvo tão pequeno em movimento não é das missões mais simples.

A segunda possibilidade é utilizar um radar especial que detecta aranhas. Eficiente e bastante preciso, este equipamento consome muita energia e, para mantê-lo funcional, é importante que encontremos pilhas e mais pilhas pelo cenário. caso não sejamos bem-sucedidos nisso, ele fica inútil e sobra somente a opção anterior para a caça. A boa notícia é que a exploração é tranquila, os ambientes são relativamente pequenos e dificilmente se fica sem o aparelho, salvo se o jogador não tiver muita paciência e abusar do recurso sem critérios. O mesmo vale para munição de armas de fogo. Por outro lado, equipamentos que usam combustível para fogo e outros que usam energia se esgotam rapidamente.

Resta então utilizar, como primeiro recurso, materiais que não se esgotam, o que significa apelar para os objetos do cenário para arremessos de longa distância e a incrível frigideira para um combate mais direto. A prancheta ajuda, mas é mais fraca. Talvez a questão de equilíbrio não é lá uma vantagem do jogo, e as armas de fogo, pela precisão e munição contada, são muito menos eficientes do que a pancada, até porque exceto por um ou outro caso, não é necessário mais do que um acerto para matar aranhas. Afinal, são aranhas. Então será comum que um ou outro armamento, por mais legal e absurdo que seja, fique de escanteio e nem figure no inventário de acesso direto do jogador.

A movimentação, especialmente em momentos de maior intensidade da ação, é um tanto quanto desajeitada e, na maioria das vezes, lenta, principalmente quando se está carregando algo. A física do jogo nem sempre ajuda, com caixas de papelão vazias se comportando do mesmo modo que televisores de 60 polegadas, ou como pequenos vasos de planta. Coisas que ficam umas em cima de outras saem voando quando se interage com elas, e houve momentos onde perdi pilhas ou um artefato de puzzle por conta disso. Felizmente, presenciei poucos bugs clássicos, e os que encontrei tinham ligação com efeitos estranhos dessa física e do sistema de colisão, Nada que seja realmente tão significativo assim, felizmente.

A seleção do que utilizar para o serviço acontece por um menu rápido acessado pelos botões de ombro L1 e R1, mas a lista é limitada. Todos os itens que não cabem nela ficam em um segundo menu, um pouco mais lento para se encontrar o que se quer. Normalmente, quando o inventário começa a encher – isso já acontece logo no primeiro terço da campanha – devemos customizar o menu inicial com aquilo que mais usamos, e o resto fica lá para momentos muito específicos. Um desses momentos é uma missão extra em cada nível, um modo horda, se assim podemos dizer. Pode ser acabar com 10 aranhas com uma espingarda ou 7 com as shurikens, em um tempo determinado, por exemplo.

Essas missões, criativamente ativadas ao se ligar um aparelho de som com uma música alta que agita as aranhas, se mostram mais importantes ao final da jornada, mas não vou entregar mais que isso para não estragar surpresas. Só tenha em mente que resolver as metas secundárias e essas missões extras será algo de grande valia sobretudo nas últimas fases. A novidade aqui é que cumprir cada pré-requisito destes não é um problema, e nos sentimos bastante confortáveis e motivados a cumpri-las antes de acessar a porta da saída. Então, sim, é possível cumprir o mínimo do mínimo para chegar ao fim, e isso pode ser feito em duas horas ou até menos. Mas será raro que alguém faça essa escolha.

Isso significa que cada nível pode durar uma média de vinte minutos até uma hora. No vídeo das primeiras missões que acompanha essa análise, os primeiros 55 minutos ficaram apertados para as duas fases iniciais, e ainda faltou coisa. É possível voltar a qualquer fase vencida em qualquer momento para terminar o que ficou pra trás, e muitas vezes isso é uma escolha interessante porque com os equipamentos ou habilidades extras que vão sendo adquiridos, fica mais fácil cumprir algumas tarefas. O retorno a cada nível é garantido, o que significa também uma adição importante no fator replay e, consequentemente, no tempo de vida útil do game.

Ao que se refere ao estilo audiovisual, o game não se destaca muito, ainda que tenha encontrado belas soluções no estilo low poly para se tornar leve – para quem tem um PS5 ou um PS4 Pro, há opções de 4K 30fps ou 1080p 60fps – cujo desempenho é bastante estável, mesmo quando você coloca fogo pra tudo que é lado. Ainda assim, efeitos de algo queimado são primários (ou ficam chamuscados ou desaparecem), o que é pouco para um jogo que tem “fogo” no nome. Há, portanto,uma evidente escolha que sacrifica o detalhamento, a iluminação e efeitos de partículas em favor de um cenário bastante interativo, onde praticamente todos os objetos móveis podem ser coletados, girados e arremessados para todos os lados. Portanto, não é bem um problema, mas sim uma escolha estética.

Por sua vez, a trilha musical é muito bem trabalhada. Não há uma quantidade grande de canções, mas as existentes, que flertam com um jazz pop típico norte-americano, e em alguns pontos mais específicos, um rock mais pesado com efeito direto no comportamento das aranhas, são, confesso, viciantes. Os efeitos sonoros são bastante econômicos, e se dedicam obviamente ao som das aranhas pelos cantos. A intensidade e mesmo a direção desses sons é algo bem resolvido, e um elemento central para o envolvimento do jogador. Não há conforto enquanto se ouve patinhas embaixo de uma cama ou atrás de armário. E se não há vozes, todas as informações estão dispostas de forma textual e, boa notícia, bem localizado para o português brasileiro.

Para os caçadores de troféus, contudo, uma notícia ruim: Kill It With Fire conta sim com um sistema de conquistas, mas não há platina e, pior ainda, todos os quase 21 troféus são de bronze. Alguns são automáticos, outros são bobos, mas outros são mais trabalhosos e podem não ser incentivadores o suficiente para a busca. Definitivamente, platinadores não encontrarão aqui um grande espaço de dedicação. Como exemplo, tendo zerado duas vezes (a segunda já olhando a lista de conquistas) consegui algo em torno de 50% do total, em pouco menos de 10 horas de dedicação.

Aliás, importante falar também que o jogo não conta com qualquer nível de dificuldade para ser finalizado. Não há possibilidade de fracasso ou derrota tal como conhecemos, e o desafio está por conta só e somente só em encontrar e matar a quantidade mínima de aranhas. Elas não ferem, não machucam, e não fazem nada para além de fugir correndo. Algumas cegam temporariamente com arremesso de teia, outras geram filhotes ao morrerem, outras ainda são mais resistentes a ataques, e algumas tentam o susto ao saltar na tela em primeira pessoa, mas nada que seja significativo de fato. Nem mesmo passar por um local em chamas nos afeta, então o perigo é inexistente, escolha perigosa para um jogo que lida com um aspecto do medo das pessoas.

Isso significa que a aflição inicial ao ouvir o rastejar dessas criaturas fica só nesse nível mesmo. Jogar com um headset, aliás, ajuda nessa envolvimento emocional, e para quem já tem uma repulsa pela presença de aranhas, é um incômodo. Mas não passa disso e em alguns minutos, isso será só um sinal sonoro de que há um aranha a ser morta por perto e, deste modo, perde seu efeito imersivo. Ao final, mesmo com a crescente narrativa que eleva o absurdo da situação ao extremo, já nem nos importamos mais com as adversárias em si, e a diversão se molda pelo interesse do jogador em encontrar soluções criativas para eliminá-las. Ainda assim, parece pouco para o que a proposta prometia.

Kill It With Fire é, de certa forma, uma bela surpresa pela temática e pelas escolhas de tratamento, mesclada com uma certa frustração de que poderia ser muito mais caso estivesse pronto para incorporar a ousadia de vez. O inexistência de perigo (e, portanto, da possibilidade de fracasso) e a não evolução do modus operandi, basicamente o mesmo do começo ao fim, só incrementado, se o jogador assim desejar, por novas possibilidades de ataque, são meio anticlimáticos. Não ajuda o fato de o jogo adicionar puzzles simplórios complementares e opcionais que nada tem a ver com aranhas ou com o extermínio delas (como encaixar 4 estátuas em um altar ou arrumar um painel de ferramentas), enquanto não há um local onde há, por exemplo, teias de aranha espalhadas.

A sensação, ao final, é que a ideia original não conseguiu se sustentar para um jogo inteiro, e o foco acabou ganhando algumas variantes que, se por um lado são inesperadas, por outro parecem remendos mal costurados para completar o projeto. Senti falta da produção abraçar o absurdo de vez, de se apropriar dele, de mergulhar no universo que ela mesmo criou. Lá no começo do texto, falei de uma mistura entre um certo realismo com o nonsense. Talvez esse meio-termo tenha amarrado demais a produção, não permitindo que ela pudesse ir ao extremo de um dos lados. Em cima do muro, Kill It With Fire acabou não alcançando, por um lado ou pelo outro, o que o tornaria muito mais do que um jogo legalzinho.

Jogo analisado no PS5 com código fornecido pela tinyBuild.

Veredito

Kill It With Fire oferece uma proposta inventiva que se perde ao não evoluir o conceito do absurdo que o próprio game apresentou. É um jogo divertido, mas poderia ser muito mais se ousasse ir além de uma sacada repetida ao longo das poucas horas da campanha. Se visual e jogabilidade não são marcantes, a ideia pela ideia parece pouco.

60
Kill It With Fire
Fabricante: Casey Donnellan Games
Plataforma: PS4
Gênero: Ação em Primeira Pessoa / Simulação
Distribuidora: tinyBuild
Lançamento: 04/03/2021
Dublado: Não
Legendado: Sim
Troféus: Sim (sem Platina)
Comprar na

Kill It With Fire offers an inventive proposal that is lost by not evolving the concept of the absurd that the game itself presents. It is a fun game, but it could be much more if it dared to go beyond a repeated idea over the few hours of the campaign.