Horizon Chase Turbo: Senna Sempre – Review

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Dizem que nós, brasileiros, não gostamos tanto assim de esportes, e que queremos mesmo é torcer (seja contra, seja a favor) em qualquer lugar onde tenha um conterrâneo, mesmo que nunca tenhamos ouvir falar dele ou dela antes. Isso explica o porque celebramos medalhas em Jogos Olímpicos em esportes como canoagem ou vela, para nos dias seguintes sequer lembrarmos de quem ganhou o quê. Se essa máxima é verdadeira ou não, deixo a avaliação por conta sua, caro leitor, mas é inegável que certos atletas de nossa história são tão – ou mais – importantes que os esportes onde se destacam. Oscar é maior do que o basquete para a maioria de nós, Guga é muito mais importante do que tennis e Daiane dos Santos, sejamos sinceros, foi o único motivo de assistirmos ginástica artística por muito tempo.

No automobilismo, alguns pilotos importantes dividiram a nossa atenção. Recentemente, Massa e Barrichello nunca chegaram a serem unanimidades, mas nos renderam boas manhãs de domingo. Fittipaldi e Piquet tem juntos cinco títulos mundiais e marcaram seu nome no seleto hall de celebridades da modalidade, mas nenhum deles chegou perto do significado e da idolatria de Ayrton Senna, tricampeão mundial em 1988, 1990 e 1991 e reconhecidamente um dos maiores de todos os tempos, cujo destino precoce todos, mesmo aqueles que jamais assistiram a uma corrida de carros na vida, conhece bem. No mundo, é respeitado e celebrado até hoje, mas no Brasil a coisa é ainda maior e, talvez, só Pelé seja um ícone mais inquestionável.

Esta pequena introdução me parece muito necessária para poder enfim, falar sobre videogame nessa análise de Horizon Chase Turbo: Senna Sempre. Não que seja necessário lembrar alguém, mesmo quem nasceu depois daquele fatídico domingo de 1994, sobre quem é a figura homenageada nesta que é, sem dúvidas, a maior expansão de um dos grandes sucessos brasileiros no mercado de jogos, mas entender que um jogo de corrida produzido em terras tupiniquins com forte apelo nostálgico está recebendo todo um modo dedicado a Senna parece não só ser algo pertinente, parece ser necessário. Se esta não é, nem de longe, a estréia do lendário corredor de F1 nos games, muito provavelmente é a mais importante aparição dele. E olha que houve um momento lá no início dos anos 1990 que todos os consoles da SEGA recebiam jogos com o nome dele no título e mais recentemente alguns dos jogos de maior orçamento do gênero também lhe deram grande visibilidade.

Para quem ainda não teve a oportunidade de conhecer Horizon Chase Turbo, um rápido resumo: trata-se de um jogo lançado pela desenvolvedora porto-alegrense Aquiris Game Studio em 2018 (antes, desde 2015, estava disponível para dispositivos mobile), cuja clara e declarada inspiração está nos clássicos games de corrida da era 16 bits, a se destacar a trilogia Top Gear e o saudoso Out Run. No controle de uma grande diversidade de veículos de turismo, alguns improváveis dentro do gênero, o jogador viaja pelo mundo em corridas nas mais diversas condições de pista, de traçado, de terreno e de clima. Simples, veloz e seguindo a máxima de “fácil de aprender, difícil de dominar” o jogo traz um nível alto de desafio, e diversão sem compromissos com qualquer aspecto de realismo, algo bastante raro em tempos de Gran Turismo, Forza e afins.

A expansão Senna Sempre, objeto desta análise, acrescenta não só veículos de fórmula, algo que por si só já seria um grande diferencial do que já havia no game. Há também dois modos especiais e até a possibilidade de se jogar em primeira pessoa, algo que traz uma alternativa bastante nova para os fãs de longa data do jogo original. Com tudo isso, há uma série de novas pistas, todas inspiradas em suas versões reais, e mais de 30 novos carros que atravessam várias temporadas da mais tradicional categoria competitiva do automobilismo. Em outras palavras, dado o tamanho do conteúdo e suas particularidades, é um conteúdo quase tão volumoso quanto o que veio antes.

Dos dois modos disponíveis, um deles é exclusivamente single player e é aquele onde assumimos a persona do próprio Ayrton Senna em corridas inspiradas em algumas das passagens mais marcantes da sua carreira. Divididas em cinco trechos organizados cronologicamente – alguns tratam de alguns anos, outros de temporadas únicas – são disponibilizadas várias corridas cujo objetivo primordial é chegar entre os cinco primeiros colocados para podermos liberar a próxima. Contudo, em cada uma delas, há uma lista de três desafios a serem cumpridos, que podem ou não ter a vitória dentre eles, mas não obrigatoriamente. Outras possibilidades são coletar moedas, executar uma ação específica em certa volta, não usar certas melhorias, e assim por diante.

A primeira sensação – felizmente perdurando até o fim da campanha – é a do enorme respeito para com o ídolo. O modo consegue um ótimo equilíbrio entre a homenagem e sua identidade, trazendo alguns ótimos detalhes dessa trajetória e oferecendo informações precisas quando retrata certas conquistas, sem contudo descaracterizar tudo o que fez o game ser mundialmente reconhecido. Mesmo no comando de veículos diferentes do originais, todo o feeling de Horizon Chase está lá, na tomada de curvas, nas ultrapassagens, na raiva de ser fechado na última curva pelo último carro a ser ultrapassado antes da vitória, está tudo lá intocado. Se havia uma dúvida sobre como o jogo cederia ao estilo mais preciso e técnico da F1, basta uma corrida para que qualquer receio se dissipe. Sim, você ainda poderá fazer ultrapassagens nas curvas por fora,  capotar e continuar correndo como se nada tivesse acontecido e usar o nitro nos trechos de reta, curiosamente algo que está presente, guardadas as devidas proporções, na Fórmula 1 mais moderna.

Em termos de configuração e ajustes da jogabilidade, há uma adição importante, contudo. Em cada corrida, há a possibilidade de escolher uma dentre três opções diferentes que privilegiam alguns aspectos de acordo com as necessidades da pista e do estilo do jogador. Você pode ter pneus melhores que favorecem a dirigibilidade, ou uma aerodinâmica mais adequada para velocidade em trechos de pe embaixo, ou ainda um combustível especial para melhorar a performance do motor e do nitro. Na maioria das corridas, sempre privilegiei o melhor controle do carro em detrimento aos outros aspectos, mas em várias delas precisei voltar com um ajuste diferente para conseguir vencer. Aliás, como nem toda bela corrida do Senna resultou em vitória, o jogo também não coloca isso como pré-requisito, quando muito só dentre esses três desafios complementares, e são mais de 130 delas para se atingir os 100%.

A questão é que, bem, estamos em um jogo de corrida onde chegar em segundo é basicamente se sentir o primeiro dos fracassados. Mesmo que, com um pouco de prática, seja possível seguir até o fim sem repetir qualquer corrida, é inevitável refaze-las até ter o troféu de primeiro lugar e o selo dos três desafios secundários devidamente no lugar. Então, é até possível terminar o modo em duas ou três horas chegando ali em terceiro ou quarto em toda corrida, mas para ser petulante, esse é o jeito errado. Senna merece muito mais do que o mínimo. Então sim, prepare-se para repetir algumas corridas algumas vezes até se sentir satisfeito com os resultados, e mais algumas só para curtir o visual seja em primeira, seja em terceira pessoa.

Aliás, como adiantado aqui no texto e alardeado na divulgação do conteúdo, jogar em primeira pessoa é outra das grandes novidades da DLC e um dos seus maiores diferenciais em termos de experiência de jogo e de estética. Sempre fui daqueles que prefere ver o carro, em qualquer jogo de corrida, dos mais fuleiros aos mais sofisticados, do ponto mais distante disponível. Pelo costume, me adaptei melhor aos controles assim, e via de regra me dei melhor jogando com a visão mais ampla ao longo desde Enduro, mesmo que para isso abrisse mão da experiência mais próxima da sensação real da coisa toda. Contudo, aqui, me senti muito confortável em ambas as possibilidades, ainda que obviamente sejam formas diferentes de abordagem, de ataque de curvas e de ultrapassagens perigosas. Todavia, os controles são bastante adaptáveis e não há estranheza no movimento do veículo, até pelo próprio estilo mais direto do game. O resultado foi que joguei metade do tempo de um jeito, metade do outro. Por vezes, repeti fases já superadas só pela experiência do outro ponto de vista.

A soma dessas características fez com que esse modo, sozinho, pelo menos dobrasse de tempo de dedicação para mim. Fui e voltei algumas vezes pelos diferentes momentos ali retratados, e ainda tem algumas pendências que logo, prometo, serão sanadas. Fato é que essa nova campanha é um verdadeiro deleite para fãs do piloto e da história do automobilismo em geral. Quem acompanhou in loco ou em retrospectiva a carreira do piloto se sentirá muito recompensado. A se lamentar, se é que isso é importante para alguém, só o fato de não haver licenças oficiais de escuderias, pilotos ou circuitos, algo que seria obviamente caro demais para o escopo da produção e inviável para o conteúdo extra. Porém, fique tranquilo: você reconhecerá, as curvas urbanas da Riviera Francesa, os carros das equipes Cavalli e McKeena ou a rivalidade com um certo Gerald Bergson. Mas a falta mais sentida é o que seria uma versão do tema da vitória (sim, sou cafona) com o toque do lendário Barry Leitch.

A segunda metade da expansão traz um conteúdo mais reconhecível para quem já experenciou o game base. Em torneios que emulam os três níveis de dificuldade padrão do jogo, encaramos corridas aleatórias – cada sessão tem uma quantidade específica de pistas – pelos circuitos representados no modo carreira, mas desta vez com a possiblidade de escolher o carro com o qual vamos correr e, no caso de cumprir os requisitos mínimos, liberar outros para melhorar a performance. Esse modo permite a carreira solo e cooperativo local com até quatro pessoas dividindo a tela, algo que aumenta muito a vida útil do material. Na comparação com o World Tour original, o modo traz um nível de dificuldade mais elevado, e recomendo que aqueles que forem começar a jogar Horizon Chase Turbo agora pratique um pouco nas sessões convencionais antes de se arriscar nas dificuldades mais elevadas aqui, sobretudo a terceira delas.

Acredite, este texto era para ser um pouco menor na comparação com as análises de jogos completos, mas minha satisfação com o conteúdo é tamanha que a parcialidade e a objetividade precisaram ser, digamos, um pouco flexibilizadas. Mais do que um material licenciado de um grande nome do esporte, e a parceria com a Senna Brands é evidente do começo ao fim na obra; mais do que uma modo todo voltado para uma outra categoria de automobilismo, esta é uma verdadeira celebração de um grande esportista. Um ídolo, um ícone, um grande corredor, um piloto diferente, deixo o adjetivo para cada um. Porém, é inegável que essa passionalidade que transmito aqui não seria adequada se também não estive transparente no conteúdo em si. Senna Sempre é uma expansão apaixonada, que evidencia cuidado e respeito em cada pixel, e provavelmente esta é a única forma de se fazer algo desse tipo.

Jogo analisado no PS5 com código fornecido pela Aquiris Game Studio.

Veredito

Horizon Chase Turbo: Senna Sempre é uma grande celebração de um dos maiores lendários pilotos de todos os tempos. Possui conteúdo complementar que amplia (bastante) e melhora aquilo que já existia antes em um dos melhores jogos brasileiros da história. É um verdadeiro deleite para fãs recentes ou de longa data de automobilismo e, óbvio, de Ayrton Senna.

95
Horizon Chase Turbo
Fabricante: Aquiris Game Studio
Plataforma: PS4
Gênero: Corrida
Distribuidora: Aquiris Game Studio / Sony Interactive Entertainment
Lançamento: 15/05/2018
Dublado: Não
Legendado: Sim
Troféus: Sim (inclusive Platina)
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Horizon Chase Turbo: Senna Always is a great celebration of one of the greatest legendary drivers of all time. It has complementary content that expands (a lot) and improves what already existed before in one of the best brazilian games in history. It’s a real treat for recent or longtime motorsport fans and, of course, Ayrton Senna.