Beyond Blue – Review

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A OceanX, líder internacional de preservação e diversidade da vida marinha, está desenvolvendo uma campanha contra a industrialização dos oceanos em parceria com pesquisadores envolvidos na causa. Depois da grande devastação de espécies raras e principalmente das baleias, os esforços de uma equipe formada por adeptos da causa se concentram em descobrir como está a qualidade de vida de peixes e mamíferos aquáticos. Através da prática de mergulho eles objetivam coletar o maior número de dados possíveis para identificação de possíveis causas de prejuízo à vida marinha.

Neste cenário, os especialistas André e Irina juntamente com a mergulhadora profissional Mirai se unem para estudar com detalhes todas as ocorrências dos animais do fundo do mar buscando compreender de que forma eles estão sendo afetados pelos grandes interesses comerciais que não são divulgados às pessoas.

Baseado no documentário Blue Planet II, Beyond Blue é o jogo da E-Line Media que propõe uma simulação de mergulho para conservação e preservação de espécies marinhas com forte apelo para a conscientização além de prestar uma homenagem a todos os profissionais que trabalham nesse segmento e promovem a continuidade da vida. Unindo um exercício de catalogar diferentes espécies com a força de vontade dos pesquisadores que também enfrentam dilemas em suas vidas particulares, o jogo é essencialmente um indie que se destaca pelos aspectos técnicos, mas que por assumir uma identidade muito particular perde elementos de gameplay que afetam diretamente a experiência de jogo.

Beyond Blue

Mirai é a protagonista do título que desenvolveu o amor pelo mergulho com a sua avó, que também era mergulhadora, e juntas desfrutaram de histórias incríveis fazendo com ela criasse um profundo amor pelas baleias em especial. Com o passar doa anos, a avó apresentou quadro de doença degenerativa e demência perdendo a memória e interrompendo a vida de mergulho. Dando continuidade à profissão, Mirai se junta a OceanX que oferece fundos suficientes para o trabalho de preservação aliado à ciência com o intuito de alcançar resultados satisfatórios que vão desde implantar localizadores em espécies raras até a coleta de novas bactérias para a produção de medicamentos.

Ao acompanhar Mirai nas profundezas do oceano, o jogador terá a oportunidade de conhecer e registrar diferentes tipos de peixes, crustáceos e mamíferos que povoam as águas ao mesmo tempo que transmite informações valiosas através de lives para o público interessado. A experiência de mergulho de Beyond Blue é o aspecto mais eficiente do jogo que retrata com fidelidade as dinâmicas da vida marinha através de gráficos convincentes e cores realistas que transmitem a sensação de fundo do mar de forma efetiva.

Beyond Blue

Ao iniciar um mergulho, é possível perceber as nuances de cores que aparecem na tela compondo um cenário vívido e repleto de vida. A tonalidade das águas onde a personagem realiza os mergulhos é o aspecto gráfico que chama atenção de imediato visto que o tom azul em conjunto com a refração da luz solar imprime na tela a sensação de se estra debaixo da água e até a possibilidade de imaginar a temperatura ambiente. Quando avança pelos diversos pontos do oceano, a luz e seus reflexos se alteram para uma tonalidade mais clara ou mais escura dependendo do ângulo de visão adotado. Essa iluminação se dá para todos os elementos dispostos no cenário fazendo com que seja possível ver baleias e arraias desfocadas pela luz do sol que incide diretamente no animal ao passo que quando próximos da mergulhadora adquirem mais definição e detalhes.

Os mergulhos acontecem em diferentes momentos do dia que incluem investigações noturnas ou no cair da tarde que mudam o aspecto gráfico e a paleta de cores consideravelmente proporcionando uma nova visão do fundo mar. Em atividade noturna, o jogador deve continuar a exploração e o preenchimento do catálogo de espécies para a pesquisa, mas é neste momento em específico que um outro visual do jogo pode ser visto e apreciado. Mergulhando à noite, a luz solar está ausente fazendo com que a iluminação natural dê lugar à iluminação artificial produzida pelos refletores do traje de mergulho de Mirai. Nessa perspectiva, o jogador poderá enxergar somente o que está a sua frente sendo necessário se aproximar dos animais, corais e recifes para cumprir os objetivos e é nesta condição que a desenvolvedora faz um excelente trabalho de iluminação e sombra mostrando bons gráficos e boa definição de texturas.

Beyond Blue

O aspecto mais relevante de todo o jogo é a diversidade marinha que aparece em formas diversas e compõem a riqueza dos oceanos. Cardumes de peixes de diferentes espécies, ostras, golfinhos, baleias, águas-vivas etc. estão presentes em grande número e com movimentação realista fazendo tudo coexistir em harmonia e beleza. Apesar de conseguir apresentar ao jogador texturas e definições competentes, alguns deslizes de imagem também são perceptíveis e geralmente acontecem quando há a possibilidade de aproximação junto aos animais em que é possível perceber formas e resolução menos trabalhadas. Além desse aspecto, a composição dos seres humanos é bem menos caprichada e apresenta pouca definição com feições estáticas, motorizadas e sem vida, mas que são aceitáveis visto que o forte do jogo está na vida marinha.

Uma exploração ao fundo do mar traz a ideia de calmaria e um ambiente de ausência humana que destaca o que natureza tem de mais exuberante tornando a experiência de mergulho quase um ato de reflexão. A trilha sonora de um jogo dessa natureza terá mais impacto se corresponder com essa perspectiva e, nesse quesito, Beyond Blue acerta em mais um fator técnico entregando trilhas sonoras distintas para cada situação de jogo.

Quando Mirai está nadando, a trilha sonora assume um tom mais delicado com notas que se alinham ao ambiente e ao mergulho fazendo com que a música seja um companheiro da expedição. Tons mais graves e dramáticos podem ser ouvidos em momentos de mais tensão, mas estes são menos comuns e não formam a trilha propriamente dita. Ao encerrar um mergulho, a personagem retorna ao submarino e é neste espaço que a trilha sonora se destaca por outras composições.

As faixas executadas dentro do submarino fazem parte de uma playlist de Mirai e que vai de encontro com a próprio gosto da mergulhadora que inclui artistas do segmento indie que se encaixam bem à própria proposta de jogo e apresentam uma musicalidade especial distante das batidas manjadas do “mainstream”. O destaque das faixas fica a cargo de Maisey Rika, cantora da Nova Zelândia que interpreta a canção “Tangaroa Whakamautai” (língua provençal da Nova Zelândia) que com ritmo envolvente e sentimentalmente profundo traz na letra uma bonita homenagem às aguas que se movem pelo mundo oferecendo saúde e riqueza. Quase toda a playlist é composta de artistas que cantam a vida e a natureza e fazem com que o jogo tenha uma sonoridade muito particular. De uma maneira mais geral, toda a sonoridade do jogo possui boa composição incluindo a sonoplastia que envolve os sons do mergulho, o barulho de equipamentos e até o silêncio das profundezas é parte do repertório uma vez que expressa a realidade dos oceanos em todo seu mistério.

Soma-se aos fatores técnicos a jogabilidade típica de jogos indies que prezam por simplicidade e objetividade com comandos polidos que trabalham a favor do andamento do jogo. Em Beyond Blue, todas as funções do controle são intuitivas e quase lógicas permitindo acesso rápido que contribui para andamento da exploração.

Todas as ações são programadas de maneira pontual no DualShock 4 e contam com quatro comandos diretos para o nado, um botão para ativação do scanner, um botão de execução do scanner, um botão de ação e um botão para iluminação UV que é pouco utilizado. As ações podem ser facilmente executadas e não exigirão destreza para cumprir os objetivos já que as missões seguem sempre o mesmo padrão e o mesmo tipo de ação.

Beyond Blue

A produtora E-Line Games fez um trabalho acertado na composição técnica do jogo e traz ao público uma experiência fluida, porém aspectos técnicos são a parte de um título de vídeo game que ampara o que um game tem de mais especial: a diversão provocada pela imersão e pelo enredo.

Classificado como Adventure/Casual, Beyond Blue não oferece um gameplay para jogadores mais dedicados e se concentra em entregar um produto mais voltado para pessoas que mantém outras relações com vídeo game, geralmente de um passa tempo sem compromisso. Essa perspectiva se distancia da relação que os “gamers” mantém com seus consoles ou PC e buscam nesse entretenimento um estilo de vida e autoafirmação em que pontuação, números de jogos jogados e comentários sobre os jogos preferidos são uma realidade em suas rotinas. Nesse sentindo, um jogo de exploração marinha não atende às expectativas desse público visto que o jogo traz uma campanha curta (cerca de 3 a 4 horas sem todos os colecionáveis) e uma fator replay pouco convidativo fazendo com que o título “entre na fila” de jogos a serem jogados. Como se trata de um jogo que se ambienta no fundo mar, Beyond Blue seria mais efetivo se tivesse uma versão para PlayStation VR em que o jogador pudesse se sentir mais dentro da água e vendo as espécies de forma mais satisfatória. A livre exploração que fica disponível ao terminar a campanha seria um convite mais interessante inclusive para catalogar os animais que não foram registrados da primeira vez ao mesmo tempo que o jogador pudesse apreciar a vista do oceano.

Fortemente inspirado pelos trabalhos de preservação e pesquisa acadêmica, alguns pontos essenciais para a formação de um jogo foram abandonados. De início, Mirai Irina e André parecem ser personagens interessantes que juntamente com o enredo apresentando vão descobrir algum escândalo a respeito de empresas que poluem os mares, mas esse desfecho não acontece. A história termina quase sem mudanças do início a não ser por mostrar um pouco da personalidade de cada um.

Mirai, que protagoniza o jogo, tem uma forte relação com a avó e a irmã Ren que começa a ser explorada no jogo de forma muito bonita e delicada, mas passa direto a uma conclusão sem que o jogador saiba exatamente como acontece o desfecho. A história de Beyond Blue possui um tom sentimental e empático, porém a curta duração da campanha impede que o enredo se desenvolva mais organicamente.

A escolha por esse jogo depende diretamente dos objetivos de quem joga. Se o jogador for fã de jogos indies e se diverte com novas propostas de enredo e experiências de gameplay, Beyond Blue pode ser um título agradável e de boa aceitação. Entretanto, se o jogador busca um indie bem elaborado que destaca o enredo e constrói seus personagens de forma peculiar, o jogo pode não atender as expectativas por focar quase que exclusivamente na exploração ao fundo mar.

Jogo analisado no PS4 padrão com código fornecido pela E-Line Media.

Veredito

Beyond Blue é uma exploração às profundezas do oceano que assume a identidade indie ao entregar fatores técnicos bem planejados e de fácil acesso. Toda a arquitetura é pensada para que os jogadores se sintam confortáveis ao acompanhar a vida marinha ao mesmo tempo que podem aprender sobre preservação e diversidade de espécies. Tendo como público os jogadores casuais, o título da E-Line Media pode parecer simples demais aos olhos de jogadores dedicados por conta da ausência de um enredo e personagens mais elaborados. Tendo como eixo principal a exploração aquática, Beyond Blue certamente seria uma experiência mais relevante se contasse com uma versão para PlayStation VR.

65
Beyond Blue
Fabricante: E-Line Media
Plataforma: PS4
Gênero: Aventura / Casual
Distribuidora: E-Line Media
Lançamento: 11/06/2020
Dublado: Não
Legendado: Sim
Troféus: Sim
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Beyond Blue is a truly indie game that takes the players to the bottom of the sea with good game technique and easy gameplay. Designed to make players comfortable to explore the ocean and the animals, players can learn one thing or two about diversity and life preservation. Casual players will be the main public for this title since more hardcore gamers will think the E-Line Media game can be very simplistic due superficial characters and narrative. Focusing almost entirely in ocean exploration, Beyond Blue would be a better experience if developed for PlayStation VR.

Renan Gaudencio Vale

Renan Gaudencio Vale

Linguista, publicitário professor, tradutor nas horas vagas e acima de tudo um gamer dedicado. Como fã da cultura pop e geek, acredito que os jogos eletrônicos sejam mais que diversão e sim uma representação muito particular no mundo. Jogador há quase 30 anos, entendo o vídeo game como uma experiência única que envolve narrativas profundas, personagens encantadores e um ligação pessoal que constrói um elo único com a emoção. Aprecio os grandes títulos e franquias famosas, mas nos últimos tempos, tenho me dedicado aos jogos indies com muito entusiasmo.