Another Crab’s Treasure – Review

Lançados na cena indie em 2020 com o roguelike Going Under, a Aggro Crab é um estúdio que sempre se mostrou promissor com seus projetos. Going Under é cativante, tanto pela premissa principal do jogo quanto pelos personagens, além de ser genuinamente engraçado em tudo o que propõe. Todavia, se o estúdio quisesse alcançar maior relevância no mercado mainstream, estava na hora para um jogo mais ambicioso. 

Misturando o subgênero soulslike com temática subaquática, personagens carismáticos e ambientação colorida, Another Crab’s Treasure é a resposta da Aggro Crab para um gênero marcado por jogos sorumbáticos. 

Meu tempo com o jogo foi uma montanha russa de emoções – e nem todas elas foram positivas. Ao mesmo tempo que me impressionava com a escala do jogo, direção de arte e um combate sólido, os problemas técnicos (especialmente nas horas finais) pareciam testar os limites da minha paciência. Ainda sim, é impressionante o que um time de 11 pessoas conseguiu entregar. Testar, balancear e construir um soulslike dessa maneira não é tarefa fácil – nesse aspecto, Another Crab’s Treasure é um verdadeiro triunfo. 

Se não fossem as quedas de framerate, perda de progresso e travamentos constantes em áreas graficamente pesadas, sinto que eu teria me apaixonado mais. No PC, por exemplo, o jogo aparenta estar bem mais estável devido ao número de patches e a burocracia reduzida para subir esses hotfixes o mais rápido possível. Entretanto, a boa notícia para os interessados no jogo é que esses problemas são técnicos, e não fundamentais. 

Another Crab’s Treasure narra as aventuras de Kril, um caranguejo-eremita com fobia social que apenas quer viver sua vida da forma mais pacata e monótona possível. Morando nas partes mais rasas do oceano, a previsível vida do nosso futuro herói está com os dias contados. Um tubarão agiota (sim, literalmente) faz uma visita a Kril e pega sua concha à força, com o pressuposto de que aquela área agora pertence ao Ducado Real da baixa-mar. O tubarão explica que Kril agora deve, de alguma forma, uma quantidade absurda de impostos retroativos para o Ducado. Para pagar a “dívida” do caranguejo, o tubarão simplesmente “penhora” a concha de Kril. 

Uma busca desesperada para resgatar sua casa começa. O tubarão insiste que se ele quiser a concha de volta, deve ir falar com a duquesa e pagar seus impostos. Sem escolha, o caranguejo sai das piscinas onde morava e parte ao encontro do palácio na esperança de negociar sua dívida e pegar sua concha de volta. Ao finalmente conseguir uma sessão com a governante, Kril recebe a missão de obter algum item valioso para ela em troca de sua concha. O eremita aceita e começa sua procura. Ao encontrar uma pérola preciosa, Kril volta ao castelo e se depara com algo estranho: o castelo destruído, os soldados e a Duquesa “possuídos” por uma entidade estranha. Atacado pelo castelo inteiro – incluindo a Duquesa – Kril sai vitorioso. Após o encontro, o tubarão agiota aparece novamente e diz que vai vender a concha de Kril na cidade. Injuriado, mais uma vez, nosso personagem viaja até Nova Carcínia, apenas para descobrir que sua casa já foi vendida para uma loja de penhores. 

A nova missão do caranguejo agora é seguir as pistas de uma caça ao tesouro e conseguir todos os microplásticos necessários para comprar sua concha de volta. Sim, microplásticos. No mundo de Another Crab’s Treasure, a economia da cidade gira em torno do lixo. Literalmente. A caça ao tesouro começa quando uma caixa de cereais cai no meio da cidade, por  conta do dia do lixo (um barco que despeja resíduos e sujeiras naquela parte do oceano). Essa caixa de cereais tem um mapa que indica um suposto tesouro. Como é a única alternativa de Kril, ele e seus recém conhecidos amigos vão em busca do tesouro. 

A narrativa então se desenrola bastante, principalmente o desenvolvimento de Kril como personagem e sua motivação para continuar lutando. Não é muito louco pensar também na mensagem socioambiental que o jogo passa, principalmente sobre como a economia da cidade é baseada em lixo e como isso afeta a relação dos residentes marinhos de lá. Foi uma história que, de forma geral, me surpreendeu. Kril é um ótimo protagonista e o passo de como os acontecimentos se desencadeiam prende a atenção. 

Another Crab’s Treasure conta com tudo o que se espera de um soulslike: áreas conectadas e level design bem construído, combate metódico e, claro, desafio. Não se deixe enganar pelas cores e os personagens bonitinhos, Another Crab’s Treasure é bem desafiador e vai te pegar de surpresa no melhor estilo Souls. O grande diferencial do jogo se baseia no número extenso de objetos que Kril pode usar como concha. Cada concha tem habilidades diferentes, status de defesa e uma barra de durabilidade. O loop de gameplay das conchas consiste em trocá-las com alguma frequência, usando-as para se defender e aparar golpes. Existem conchas de todo objeto imaginável, desde tampinhas de garrafa e cascas de banana até bonecas russas e capacetes medievais. 

As habilidades especiais de cada concha podem ser utilizadas usando uma energia especial chamada de Umami. Essa energia seria o equivalente ao MP/Mana em jogos que possuem magias e encantamentos. Em Another Crab’s Treasure, além das habilidades das conchas, o Umami também é aplicado para as Adaptações – habilidades mágicas que Kril pode invocar independente da concha que estiver usando. Essas habilidades podem ser uma sequência de projéteis, um forte golpe com uma garra mágica feita de Umami, dentre outros. As habilidades das conchas tanto quanto as Adaptações dão um tempero a mais para o combate, tornando-o mais diversificado e dinâmico. 

O caranguejo-eremita também tem acesso a uma árvore de habilidades com três caminhos diferentes, favorecendo tanto a mobilidade, ataques físicos e ataques com Umami. Senti que essa árvore é um pouco desnecessária – salvo algumas habilidades específicas – poderiam estar incorporadas às skills padrões do Kril, como a aparagem de ataques. Ao estilo Sekiro, nosso protagonista também só tem acesso a uma arma o jogo inteiro: um garfo. O garfo tem níveis de melhoria que aumentam seu dano a cada upgrade. 

O gameplay, de maneira geral, é decentemente diversificado e conta com algum nível de verticalidade, graças a um gancho que Kril pode usar tanto no combate quanto para navegar por áreas mais altas (em pontos específicos, e não de forma livre). É impressionante como as lutas contra chefes conseguem captar perfeitamente o feeling dos jogos da From Software, mas ainda ter uma essência própria. As inspirações são óbvias e souberam aproveitá-las muito bem. 

Preciso dedicar uma seção apenas para comentar sobre a estabilidade e o aspecto técnico do jogo. Joguei a versão de PlayStation 5 e, infelizmente, até o momento que escrevo essa análise, está bem instável. Quedas de framerate são constantes e travamentos que podem durar 1 ou 2 segundos são passíveis de acontecer em áreas mais intensas. Já cheguei a morrer durante uma travessia de plataformas pois o jogo simplesmente congelou e me fez perder o tempo de usar o gancho. 

O game também se atrapalha em alguns checkpoints. Em áreas mais pra frente, com seções longas de plataforma, o jogo salvou o personagem em cima de um espinho, impedindo a progressão ou saída daquela área até Kril morrer de dano. Sem mencionar quando perdi quase duas horas de progresso, logo no início do jogo. 

São pequenas coisas que vão se acumulando e embaçam o brilho da experiência. Felizmente, são coisas passíveis de conserto. Porém, estaria mentindo se dissesse que não me senti lesado por jogar no console, visto que hotfixes e patches são aprovados na versão de PC muito mais rápido. Nesses momentos, dei graças às opções de acessibilidade – em especial uma das opções ser literalmente uma arma para Kril usar como concha. Essa arma mata qualquer inimigo do jogo com um tiro, não consome Umami para atirar, tem durabilidade enorme e pode ser ativada a qualquer momento. É como dizem: se está no jogo, é pra usar, né? 

Fãs mais hardcore de Soulslike podem ficar chateados com as escolhas alheias quando uma opção dessas está presente, mas pra ser sincero, depois de todos os problemas técnicos que eu tive, não tenho absolutamente nada a reclamar. Cada um joga do jeito que quiser e, no fim das contas, não temos nada a ver com isso. 

Por fim, Another Crab’s Treasure me impressionou. Mesmo com todos os problemas enlouquecedores que eu passei, é uma recomendação extremamente fácil de se fazer para quem gosta de soulslike ou jogos de ação em terceira pessoa no geral. Mesmo aos que não tem familiaridade com o gênero, o jogo possui uma lista extensa de opções de acessibilidade que ajustam o desafio ao seu gosto. 

Um jogo desse nível feito por um time tão pequeno não é algo que vemos todo dia. Aggro Crab vem se provando um estúdio brilhante e Another Crab’s Treasure é uma maravilhosa adição no portfólio.

Jogo analisado no PS5 com código fornecido pela Aggro Crab.

Veredito

As aventuras do caranguejo-eremita Kril marcam um importante episódio não só para a Aggro Crab, mas para o gênero soulslike como um todo – mesmo que sofra com alguns tropeços ao longo do caminho.

80

Another Crab's Treasure

Fabricante: Aggro Crab

Plataforma: PS5

Gênero: Ação

Distribuidora: Aggro Crab

Lançamento: 25/04/2024

Dublado: Não

Legendado: Sim

Troféus: Sim (inclusive Platina)

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Veredict

The adventures of the hermit crab Kril mark an important episode not only for Aggro Crab, but for the soulslike genre as a whole – even if it suffers from some stumbles along the way.