AI: The Somnium Files – nirvanA Initiative – Review

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on whatsapp
WhatsApp

Um dos meus maiores arrependimentos é o quanto eu demorei para jogar o primeiro AI: The Somnium Files. Afinal, como um jogo escrito por um dos maiores e mais criativos roteiristas da história dos videogames poderia ser algo além de um jogo obrigatório para quem se interessa por títulos de mistério?

É claro, existiam claras limitações, parte pelo restrito orçamento, incluindo aí o uso da Unity como engine para o jogo, parte pela tentativa de criar um título muito mais ambicioso do que as tentativas anteriores da mente por trás da fantástica trilogia Zero Escape.

Mas mesmo assim, o título não só fazia coisas o suficiente para justificar a sua existência e marcar o início de uma nova fase para o renomado roteirista Kotaro Uchikoshi, como claramente foi um sucesso para a Spike Chunsoft, que agora assume o desenvolvimento da sequência do título, dando vida digital a mais um roteiro do Uchikoshi.

AI: The Somnium Files - nirvanA Initiative

AI: The Somnium Files – nirvanA Initiative se encarrega então de ser uma experiência de “nova introdução” ao universo de AI, referenciando os acontecimentos do jogo anterior, mas quase que completamente separado. Vários personagens retornam, mas são todos reapresentados, com o jogador sendo diretamente questionado se ele está familiarizado com os eventos do primeiro jogo, com o texto sendo modificado para se adequar a sua resposta.

A principal entre os personagens do primeiro jogo a fazer sua presença notada aqui é uma das duas protagonistas, a jovem Mizuki Date. Mizuki é a “filha” adotada do protagonista do primeiro jogo, Kaname Date, e retorna aqui como uma recém-nomeada agente especial da ABIS. Mizuki se vê de frente com o ressurgimento de um caso que havia sido arquivado seis anos antes sem que o culpado fosse localizado.

Tudo se inicia quando metade do corpo de um bilionário CEO de uma empresa de tecnologia, Jin Furue, é encontrado morto no meio da gravação de um programa de auditório no qual Kuruto Ryuki, outro agente da ABIS, estava, com um “pequeno” chamativo: apenas metade do corpo de Jin aparece, com um corte perfeito dividindo-o ao meio e a outra metade desaparecida.

AI: The Somnium Files - nirvanA Initiative

Seis anos depois, no meio de um estádio de futebol, ao investigar uma misteriosa figura encapuzada, Mizuki acaba encontrando a outra metade do corpo de Jin Furue. O problema? A autópsia passa a indicar que Jin teria morrido poucas horas antes e não seis anos atrás como a autópsia da outra metade indicava. E a única pista que ambos têm é um misterioso vídeo chamado “Nirvana Trial” linkado através de um QR Code ao lado do corpo.

Cabe então a Mizuki e Ryuki investigarem o que aconteceu seis anos atrás, tentar descobrir como essa outra metade do corpo de Jin veio parar dessa forma no presente, qual o envolvimento da misteriosa Sociedade Secreta Naixatloz e qual a ligação deles com o Teste de Nirvana e, principalmente, o que é a Iniciativa Nirvana e quem está por trás dos assassinatos em série.

Falar muito mais do que isso sobre a narrativa de AI: The Somnium Files – nirvanA Initiative seria andar perigosamente próximo de território de spoiler e, confie em mim, você não quer saber praticamente nada sobre o que a mente insana do Uchikoshi preparou para essa nova aventura.

AI: The Somnium Files - nirvanA Initiative

Todas as teorias científicas malucas e ligações com cultura pop que se tornaram algo esperado dos títulos dele estão presentes. Seja viagem no tempo, Teoria da Simulação ou a busca pela imortalidade, Uchikoshi se mostra em seu melhor questionando a própria essência do que é ser humano e aquilo que alguns de nós seriam capazes de fazer para superar as limitações impostas pela nossa realidade e pelos nossos corpos.

Não são só as teorias científicas e tecnologias levemente além da realidade que dão força a narrativa aqui, pelo contrário. O que a sustenta é o quão escritos e explorados são os personagens, especialmente os dois protagonistas. Mizuki já era um dos pontos fortes do primeiro jogo, mas ver o crescimento dela e o quão diferente ela se mostra da garota vista no título anterior, agora muito mais decidida e determinada a trilhar seu próprio caminho e encontrar as respostas que ela busca.

Por outro lado, Ryuki serve como um ótimo contraponto, mostrando algo além do veterano calejado que Date era no primeiro jogo ou a jovem intrépida e muitas vezes inconsequente que Mizuki é. O que temos nele é um jovem ainda tentando se encontrar, com seus próprios traumas e segredos e cujo trabalho vive perigosamente o colocando a beira do colapso. E a dinâmica de vê-lo liderando a investigação original do caso e seis anos depois auxiliando Mizuki a não cometer os mesmos erros que ele traz interessantes contrapontos que enriquecem bastante a trama.

AI: The Somnium Files - nirvanA Initiative

Apesar de jogos anteriores do Uchikoshi seguirem uma estrutura mais de visual novel, AI: The Somnium Files – nirvanA Initiative mantém o modelo do jogo anterior, te permitindo explorar diferentes áreas e conversar com os personagens ali presentes, interagindo com tudo até encontrar suas respostas (de forma bem similar a um tradicional jogo de adventure point-and-click) e ir avançando pela história. De toda forma, prepare-se para várias rotas, finais diferentes e tudo aquilo que se espera de um bom jogo do roteirista.

Para isso, Mizuki e Ryuki também conta com a ajuda das suas próprias AI-Balls, olhos artificiais que os permitem se conectar o tempo todo à internet, gravar tudo que estão vendo e todas as conversas que eles tem e enxergar detalhes além daqueles que poderiam ser vistos à olho nu, graças a visão térmica e de raio-x que elas têm a sua própria disposição. É claro, tanto Aiba, a AI-Ball que Mizuki herdou de Date, quanto Tama, a AI-Ball de Ryuki, tem sua própria personalidade e a dinâmica entre os parceiros é outro ponto enriquecedor para a experiência.

Fora as funcionalidades já vistas no jogo anterior, aqui Tama e Aiba possuem três grandes novidades: “Wink Psync”, que te permite sincronizar rapidamente com a mente de alguém e tentar encontrar uma informação pontual sobre a qual ela esteja pensando; “Virtual Reality”, que te permite recriar a cena do crime em realidade virtual para tentar encontrar novas provas; e “Truth Reenactment”, que te permite recriar os passos do culpado para tentar montar um vídeo demonstrando exatamente como um incidente ocorreu.

AI: The Somnium Files - nirvanA Initiative

Além disso, a grande questão é o retorno de certos momentos em que tanto Mizuki quanto Ryuki precisam colocar a “mão na massa” e sincronizar a sua mente com a dos seus suspeitos/testemunhas para tentar descobrir pistas guardadas em seu subconsciente. As sessões de Psync no qual o jogador entra na mente são alguns dos momentos mais surreais do jogo, mas também onde aparecem os seus únicos pequenos deslizes.

Ao mergulhar no Somnia (o reino dos sonhos das pessoas onde é possível acessar certas informações em seu subconsciente), o investigador precisará explorá-lo dentro de seis minutos para desbloquear as “travas mentais” de cada investigado e encontrar as informações necessárias para avançar com o caso no mundo real.

Essa exploração se dá em um ambiente 3D no qual o jogador assume o controle do avatar da sua AI-Ball. Essas partes são bem próximas da resolução de quebra-cabeças de point-and-clicks e é necessário saber administrar bem o seu tempo para conseguir chegar ao final. As primeiras são bem fáceis, mas a medida em que o jogo vai avançando, mais ele vai exigindo da sua capacidade de raciocínio, o que pode acabar tornando o jogo bastante desafiador para quem não está acostumado com o gênero.

AI: The Somnium Files - nirvanA Initiative

O maior problema aqui segue sendo em relação à movimentação. Algo que merece ser elogiado em AI é o uso o tempo todo de modelos 3D, independente da sessão, sem optar por um visual em 2D de visual novel como vários outros jogos fazem. No entanto, por se tratar de um jogo com orçamento claramente limitado, a movimentação durante o Somnium é em certos momentos bem travada e os cenários um tanto quanto feios visualmente.

Enquanto ele tenta compensar isso com a visão artística, ainda assim muitas das áreas do jogo são visualmente bem simples, sem muita graça ou que te dê algum motivo para explorá-las salvo por alguns bônus que você pode destravar ao encontrar itens secretos. A adição de áreas com água na qual você pode submergir ou nadar só tornou as coisas mais notoriamente duras, visto que a movimentação é bem lenta e muitas vezes te faz sentir que está perdendo muito mais tempo do que deveria ao tentar subir ou descer.

Dito isso, são pequenas reclamações que não tiram muito do que o jogo em si apresenta. Um ponto que merece bastante destaque é que se faltou dinheiro para as partes em 3D, ele foi bem gasto investindo em uma equipe muito boa de dublagem, já que praticamente todas as linhas escritas do jogo são dubladas (salvo os pensamentos do protagonista e os tutoriais/trivias) e a dublagem em inglês não deixa nada a perder para a japonesa, trazendo bastante vida e personalidade à experiência.

AI: The Somnium Files - nirvanA Initiative

Tendo falado tudo isso, é inegável que o cuidado e atenção da Spike Chunsoft foi gigantesco, fazendo todo o possível para torná-lo atraente tanto para os fãs do original quanto para os novatos que começarem por ele. Enquanto eu pessoalmente recomendo que você jogue o primeiro título (ele constantemente tem entrado em promoção), caso deseje começar por aqui, o título é extremamente acessível.

De toda forma, seja como você optar por fazer, AI: The Somnium Files – nirvanA Initiative é um título mais do que obrigatório para os fãs de jogos de adventure, histórias de mistério ou títulos de ficção científica. Kotaro Uchikoshi segue sendo um dos, se não o melhor roteirista do gênero no Japão e a história contada aqui facilmente deve entrar entre uma das melhores narrativas do ano.

Jogo analisado no PS5 com código fornecido pela Spike Chunsoft.

Veredito

AI: The Somnium Files – nirvanA Initiative é mais um enorme acerto de Kotaro Uchikoshi. A trama pega você desde o começo, deixando-o praticamente incapaz de largar pela constante vontade de querer saber o que mais vem por aí. Isso acontece graças ao mistério cativante e personagens bem escritos que fazem até mesmo os pequenos vacilos nas partes de exploração passarem batidos.

90
AI: The Somnium Files - nirvanA Initiative
Fabricante: Spike Chunsoft
Plataforma: PS4
Gênero: Adventure
Distribuidora: Spike Chunsoft
Lançamento: 24/06/2022
Dublado: Não
Legendado: Não
Troféus: Sim (inclusive Platina)
Comprar na

AI: The Somnium Files – nirvanA Initiative is yet another huge hit from Kotaro Uchikoshi. The plot captivates you from the beginning, leaving you practically unable to let go by the constant desire to know what else is coming. That’s thanks to the captivating mystery and well-written characters that make even the little glitches in the exploration parts go unnoticed.