O texto abaixo foi publicado no PlayStation.Blog brasileiro.


The Vanishing of Ethan Carter é um jogo de mistério em primeira pessoa que vai chegar ao PS4 em 14 de julho. Achamos que poderia ser divertido apresentar o game ao contar alguns segredos por trás do processo de desenvolvimento dele.

1.)Porque escolhemos este título em particular

O jogo é uma estranha história de ficção, e ficções estranhas podem ser descritas como “horror com gênero policial barato”. Os mais conhecidos escritores de ficção estranha são Howard P. Lovecraft e Stephen King. Para honrar as raízes literárias do game, queríamos que o título fosse parecido com as histórias de horror baratas dos anos 30 e 40.


Lemos todos os livros e todas as revistas, incluindo as famosas Weird Tales. Criamos uma lista de propostas, incluindo títulos como The Incident in Red Creek Valley, Midnight Detective e The Case of Ethan Carter. Mas, ainda que gostamos muito de alguns deles, The Vanishing of Ethan Carter sempre foi o favorito.

O título é inspirado por The Vanishing of Simmons, um conto de August Derleth, escritor mais conhecido por ser o primeiro editor de Lovecraft. Há poesia e mistério na palavra “vanishing” (“sumiço”), que é exatamente a mensagem que queríamos que o título expressasse.

Mas por que exatamente é Ethan Carter?

Há uma grande história sobre um poeta que conheceu um fã em uma festa, e este fã analisou apaixonadamente um dos poemas. “Não, não é sobre isso”, respondeu o poeta, “mas a sua interpretação é muito melhor, então de agora em diante é a que eu vou contar”.

É o mesmo com o nome de Ethan Carter. Não há uma clara inspiração por trás dele, apenas surgiu para nós, de forma subconsciente, e soou bem. Então, um dia um fã nos perguntou se “Carter” era uma menção a uma outra história da revista Weird Tales: The Statement of Randolph Carter, de Lovecraft.

“Não, mas amamos esta ideia, e de agora em diante é o que iremos contar”. E é por isso que contamos a todo mundo que foi Randolph Carter quem inspirou o sobrenome de Ethan.

Como você pode ver, nos anos 30 eles realmente gostavam do modelo “O Algo de Alguém” (The Vanishing of Simmons, The Statement of Randolph Carter etc.) para o título, e nós respeitamos esta tradição com o título para o nosso próprio game.

The Vanishing of Ethan Carter

2.)Como o jogo nos causou problemas

Um antigo demônio que governa um vale remoto tenta impedir um detetive particular de encontrar um garoto perdido. É uma história que poderia ocorrer em quase qualquer lugar, seja nos Estados Unidos ou na Polônia.

Foi, pelo menos, o que pensamos. Foi apenas quando começamos a vender o game e a dizer a todos que o game não se passa em um lugar específico que entendemos que não, não é “uma história que pode ocorrer quase em qualquer lugar”, quando seu personagem principal se chama Ethan Carter e não, digamos, Kajetan Woznica. Ethan Carter é um nome típico dos Estados Unidos/Reino Unido. Isso nos forçou a buscar o local específico que se encaixaria na história e no nome. Escolhemos Wisconsin, devido à sua grande semelhança com a vegetação e as paisagens de nosso ficcional Red Creek Valley, que se baseia em um vale real nas montanhas Karkonosze, na Polônia.

3.) Nós odiamos a música do jogo, e depois disso a música recebeu vários prêmios

Certo, não odiamos a música sempre, só pelas três primeiras horas. Esta é a história.
O compositor, Mikolai Stroinski, é conhecido pelos seus trabalhos pequenos (o trailer de Dark Souls) e grandes (The Witcher 3). Ele manifestou seu interesse em compor a música de The Vanishing of Ethan Carter ao nos enviar sua própria versão da trilha do teaser do game. Nós gostamos e, alguns meses depois, pedimos que fosse o primeiro a tentar criar uma trilha real para o game.

Alguns dias depois, Mikolai nos enviou três faixas. Ouvimos a todas e eu queria dizer que “e depois houve silêncio”, mas a verdade é que manifestamos bem nossa frustração. Não era o que imaginamos para a trilha sonora, já que as faixas eram muito atraentes, muito cinemáticas, com muita fantasia.

Ouvimos as faixas novamente e depois ligamos para Mikolai, e dissemos que não gostamos da direção que ele escolhera, mas se ele aceitasse isso, ele poderia tentar novamente. Mikolai ficou um pouco surpreso, mas concordou em tentar outra vez, e encerramos o dia.

The Vanishing of Ethan Carter

Mas então um de nós ligou para os demais e disse, “Cavalheiros, esta música é incrível, mas não apenas a ouça. Jogue o game e toque as faixas como se já estivessem no fundo do game”.

E assim fizemos, e então fez-se a luz.

E aí que a música de Mikolai era absolutamente incrível – nós que avaliamos seu trabalho da forma errada, ouvindo as faixas sem ver as imagens que deveriam acompanhá-las. Mas caminhar por Red Creek Valley com a música de Mikolai de fundo foi uma experiência aterradora, de outro mundo.

Ligamos para Mikolai e, arrependidos e de joelhos, pedimos desculpas. Por sorte, Mikolai aceitou como o profissional que é e continuou a trabalhar conosco por mais um ano. E então sua trilha sonora original para o game conquistou vários prêmios. Obrigado, Mikolai!

4.)Tivemos de censurar a realidade

Os gráficos nem sempre são tão importantes em jogos de videogame, mas são extremamente importantes em nosso game. Para oferecer qualidade visual nunca vista antes, usamos uma técnica chamada de fotogrametria. Rapidamente, você fotografa o mundo real e depois um software especial solta um material em 3D pronto para o game, exatamente como o mundo real, como algo que nunca poderia ser obtido manualmente. Claro, nunca é tão simples, mas o espírito é esse.

Porém, com materiais como este, e a realista “iluminação global” oferecida pela Unreal Engine, o game parecia… muito real.

Eu mencionei antes que The Vanishing of Ethan Carter é uma história estranha de ficção, e com isso vem um certo clima de outro mundo, melancolia e incômodo. Embora acreditar no ambiente seja importante – daí nosso uso de fotogrametria – isso não pode dominar a intenção artística.

Não é nada novo na arte. O seriado True Detective é um bom exemplo. É, obviamente, algo crível e com aquele toque extra de autenticidade, mas ao mesmo tempo é altamente estilizado, suave e impressionista, com aquele famoso tom amarelo.

Então criamos nosso Red Creek Valley que parecia um lugar de verdade… e então removemos partes do realismo e adicionamos um pouco de pós-processamento e efeitos de sombra, para torná-lo menos comum. Você ainda sente o vento no seu cabelo, mas sente também que há algo especial, algo sobrenatural sobre o vale.

The Vanishing of Ethan Carter

5.) A gente se esqueceu do que se tratava o game

Geralmente, se diz que em desenvolvimento de games você nunca sabe aonde vai chegar, ficando só com um sentido geral, “e fingir que não é assim é caro e doloroso”. Isso é verdade, e um dos motivos para nunca termos produzimos um documento detalhado do design do game.

Nosso design começou com uma certa ideia do que aconteceu com Ethan Carter. E então nos levou um ano de design e redação para chegar ao ponto onde a história contada era exatamente a que queríamos. Porém, todos estes meses escrevendo nos fez perder a perspectiva sobre a real essência, o coração real da história.

Nós lembramos que escrevemos um email muito longo aos nossos redatores, Tom Bissell e Rob Auten, explicando que mesmo sabendo como chegar ao final, ainda estávamos inseguros sobre como explicar tudo o que o jogador sentia. E para encerrar o projeto, precisávamos daquele empurrão final, aquela única explicação que une tudo em uma história coerente. Propomos três abordagens diferentes sobre a jornada do detetive, e enviamos toda esta quantidade de texto aos redatores.

A resposta veio em uma só frase. “Ei, mas a ideia original não era que (isso e aquilo aconteciam)?” A gente se entreolhou e riu. Sim, era sim, e era a história perfeita. Nós meio que nos esquecemos disso e, por algum motivo, passamos a novas propostas e novas soluções. É muito fácil se deixar levar desta forma, quando você passa dois anos em um game. Você fica tão acostumado a ideias antigas que, depois de um tempo, elas já não empolgam mais como as ideias novas, e as novas ideias são empolgantes porque são novas, não porque são melhores.


Estas cinco histórias dos bastidores são apenas alguns exemplos do confuso e maravilhoso processo que é fazer um game. E, problemático ou não, amamos cada segundo.

Depois de bem mais de dois anos de muito trabalho, The Vanishing of Ethan Carter finalmente chegou, e é a coisa mais disciplinada (e também a mais criativamente libertadora) que já fizemos. Esperamos que você goste deste mistério sobrenatural quando ele chegar à PlayStation Store em 14 de julho.