AnálisesPS3

Heavy Rain

Análise

NOME: Heavy Rain
FABRICANTE: Quantic Dream
PLATAFORMA: ps3
GENERO: Suspense
DISTRIBUIDORA: Sony Computer Entertainment


LANÇAMENTOS
24/02/2010 24/02/2010 18/02/2010


INFORMAÇÕES ADICIONAIS E SUPORTE
Número de jogadores: 1

Espaço Necessário para Instalação: 4GB, no mínimo.

Definição HD: 720p

Downloadable Content

Trophies


Heavy Rain é um jogo absolutamente singular. Singular pela dúvida que suscita ao jogador de se realmente trata-se de um jogo. Singular pela forma com a qual a história absorve você e mexe com seus sentimentos. Singular por um roteiro soberbo, típico de um verdadeiro drama/suspense. E singular porque você não vai conseguir desgrudar da cadeira enquanto não chegar ao final.

Produzido pela QuanticDream e dirigido por David Cage (de Indigo Prophecy e Omikron: Nomad Soul), Heavy Rain consegue em todos os sentidos entregar a experiência cinematográfica pretendida por seu criador. Este objetivo foi seguido tão à risca que, em certos momentos, fica até a dúvida de se realmente trata-se de um jogo ou de um filme interativo. Com mais de 170 horas de cenas filmadas para captura de movimentos, Heavy Rain apresenta uma história extremamente profunda e envolvente, completamente direcionada para o público adulto e que instantaneamente se transforma em um clássico para o PlayStation 3.

A trama se desenvolve nas situações vividas por quatro personagens centrais, tendo como plano de fundo uma série de assassinatos de crianças de cerca de 10 anos de idade. O assassino afoga suas vítimas e desova os cadáveres em áreas descampadas. Por deixar uma orquídea no peito e uma figura de origami nas mãos das vítimas, o assassino é denominado pela imprensa como "Origami Killer". O núcleo central de personagens é composto pelo detetive particular Scott Shelby, a jornalista Madison Paige, o agente do FBI Norman Jayden e o arquiteto Ethan Mars. Ethan é o principal dentre todos os personagens. O slogan do jogo, "até onde você iria para salvar alguém que você ama?", é claramente direcionado a este personagem.

O jogo inicia mostrando a vida de Ethan, casado, com dois filhos e uma bela casa. Nesta parte, que serve como um tutorial para as mecânicas do jogo, todas as cenas são claras e alegres até que seu filho mais velho, Jason, é atropelado em um acidente e acaba morrendo. A partir deste momento, Ethan se sente culpado pelo acontecido, ficando bastante depressivo e até se separando. Todas as cenas de jogo subsequentes estão tomadas por uma forte e incessante chuva. As coisas pioram, e muito, quando Shaun, seu segundo filho, desaparece e todas as suspeitas recaem sobre o Origami Killer.

É interessante notar que embora a figura do anti-herói exista claramente no jogo (o próprio Origami Killer), a presença de um herói principal não é tão clara. Além de nos envolvermos psicologicamente com todos os personagens – especialmente com Ethan Mars -, suas mazelas e defeitos não dão a impressão em nenhum momento de que sejam invencíveis ou dignos de grandes feitos. Shelby sofre de asma, Jayden é dependente químico, Paige sofre de insônia e Mars vive problemas com a família. Considerando-se esta característica somada a impossibilidade de salvar o jogo a qualquer momento, a sensação de que tomar uma decisão errada pode ser terrível está presente o tempo inteiro – principalmente ao sabermos que o jogo não possui um "game over" com a morte de algum personagem. Se isso vier a acontecer, o jogo continua, mas com todas as consequências desta situação; e para saber o que poderia ter acontecido com a tomada de outra decisão, você tera que jogar o jogo inteiro novamente. Existem alguns furos no roteiro (intencionalmente omitidos para evitar spoilers) que, embora não atrapalhem a experiência, poderiam ter sido tratados com mais cuidado.

Heavy Rain foi bastante criticado pela expectativa de que não passaria de uma série de Quick Time Events (QTEs). E a verdade é que o jogo é apenas um pouco mais do que isso: com o R2 você faz o personagem caminhar e com o analógico esquerdo, direcionar seus movimentos. Todo o resto é executado através de QTEs, utilizando os botões L e R, bem como os botões da face do controle e, também, o analógico direito. Este esquema se encaixa bem à proposta, pois os comandos servem na maior parte do tempo como ferramenta para a aferição de informações e de tomada de decisões. Jogadores mais acostumados à ação certamente sentirão falta de um pouco mais de controle sobre as situações, mas esta proposta de controle também pode ser considerada satisfatória a ponto de não prejudicar o jogo em momento algum.

Entretanto, alguns pontos negativos devem ser levantados. Algumas cenas de combate entre os personagens parecem desnecessárias e até cansativas. Existe uma infinidade de "pensamentos" que podem ser acessados pelo jogador (ao se manter o botão L2 pressionado, é possível verificar tudo o que personagem está pensando naquele momento) que em sua grande parte são desnecessários. As decisões do jogador têm influência no contexto da história, mas não tanto quanto dá a impressão em um primeiro momento. Apenas em alguns momentos chaves permitirão que suas decisões modifiquem o rumo da história. Alguns jogadores podem confundir isso com uma certa linearidade disfarçada, mas este não é o caso. O jogo não é linear, mas os caminhos da história são sempre decididos em momentos que funcionam como conectores da história. O mesmo pode se dizer dos QTEs: na maior parte das cenas de ação, os erros na execução de um comando têm pouquíssima influência em seu final, apenas comandos mais específicos farão a diferença no resultado da cena. Por exemplo, em uma cena de combate entre dois personagens, o jogador acerta todos os comandos exceto o último; e este último era, basicamente, um golpe de marreta que o personagem levou na cabeça, desmaiando e sendo jogado em um triturador de lixo, assim morrendo e alternado toda a história.

Heavy Rain tem uma das melhores interpretações de personagens já vista na história dos games. Os movimentos são excelentes, absurdamente realistas. Os gráficos, embora obviamente não sejam o seu principal chamariz, estão em um excelente padrão. Texturas detalhadas, objetos bem construídos, e excelentes efeitos de água – principalmente da chuva caindo sobre personagens e objetos. Talvez exagere um pouco nos efeitos de blur, podendo até mesmo cansar a vista, mas este efeito é justificado para manter a característica de gráficos levemente desfocados, aumentando a sensação de tensão, como se algo não estivesse muito bem. Outro detalhe é que, embora normalmente a exibição dos comandos seja em posições intuitivas e que não prejudicam o desenrolar da história, algumas vezes eles acabam caindo sobre cenas com fundos que podem atrapalhar a visualização de quem não estiver realmente atento. Vale um destaque para a Advanced Reality Interface, a ARI, uma interface de realidade virtual com cara de C.S.I. e Minority Report que é utilizada pelo agente Norman Jayden durante suas investigações sobre o serial killer. Dá até vontade de ter uma de verdade.

A dublagem, embora não seja a melhor de todos os tempos, é digna de destaque. A sincronia facial dos personagens é perfeita quando o áudio está em inglês, logicamente. Ao todo, são 10 idiomas disponíveis para a dublagem, dentre eles o português de Portugal, e 16 para as legendas. Sua trilha sonora é assinada por Normad Corbeil, compositor de alguns filmes e séries de TV. As músicas são absolutamente bem contextualizadas, ajudando ainda mais a já poderosa imersão proporcionada pelo jogo.

Não existe um modo online propriamente dito para Heavy Rain, mas menus para a obtenção de DLCs estão entre as opções. Não se trata de um jogo exageradamente longo (é possível terminá-lo em cerca de 8 ou 9 horas), mas a grande quantidade de finais possíveis – mais de 20 – e a ausência da possibilidade de voltar a certas partes do jogo para alterar decisões farão com que os ávidos por troféus não tirem o jogo do console durante um bom tempo. Entretanto, o fato de que o assassino não muda, sejam lá quais forem as decisões tomadas, pode fazer com que algumas pessoas não se sintam à vontade para terminar o jogo mais do que uma ou duas vezes.

Raríssimas vezes vemos um jogo tão bem produzido e com uma experiência tão imersiva quanto Heavy Rain. Embora possua leves deslizes na execução da jogabilidade e talvez não ofereça um fator replay tão grande quanto os anúncios faziam esperar, ainda assim trata-se de um jogo (e de uma experiência em geral) excelente que todos os jogadores de PlayStation 3 deveriam experimentar. Se você tiver coragem de ir longe o suficiente para salvar alguém que ama, a recompensa será proporcional. E mesmo que você não tenha coragem, a recompensa será tão boa quanto.

92%