Análises

Constance – Review

Constance foi originalmente lançado para PC em novembro de 2025 e somente agora faz sua estreia nos consoles. Inspirado fortemente por Hollow Knight e Hollow Knight: Silksong, ele traz uma premissa um pouco diferente ao abordar saúde mental e utilizar sua construção de mundo para abordar temas como burnout, ansiedade, depressão, conflitos familiares e traumas.

No game somos apresentados à jovem artista Constance que após uma crise de burnout se vê em um mundo estranho e pitoresco resultado de sua deterioração mental. Munida de um pincel, ela deverá travar uma batalha contra si mesma para conseguir recuperar sua saúde mental e assim “voltar para casa”. O mundo de Constance é uma grande metáfora que reflete bem não só todos os conflitos internos da personagem, como também os traços de sua personalidade.

Durante a jornada, Constance deverá enfrentar seus medos, angústias e ansiedades, aqui retratados como os chefes de cada área, para recuperar Lágrimas, representando seu processo de cura e que irão permitir que ela escape desse mundo. A cada vitória o game nos mostra um pouco da vida de Constance e os acontecimentos que a levaram a adoecer. Alguns deles chegam a causar um certo desconforto, pois retratam um aspecto da vida real que tem sido cada vez mais comum. O pincel, já mencionado, aqui funciona como nossa arma principal e o medidor de tinta exerce a mesma função da mana, permitindo fazer uso de algumas habilidades especiais. Porém quando esse medidor esgota, nossa personagem fica vulnerável, sendo necessário aguardar alguns segundos para que ele recarregue. 

Constance

O mundo de Constance não é tão grande, contando com seis áreas principais. Seu mapa tem lados positivos e negativos. A começar pela opção em manter o mapa aberto a todo instante como uma espécie de balão de pensamento. Isso facilita identificar se estamos perto de uma das várias saídas ou, depois de liberarmos os upgrades de mapa, se estamos próximos de um desafio/elevador/savepoint. Por outro lado, ele não apresenta tantos detalhes, se limitando apenas a representar os locais por retângulos e quadrados, o que pode atrapalhar em alguns momentos da exploração e também não permite o uso de marcadores personalizados.

Outro recurso desbloqueado nas primeiras horas e que vem direto de Prince of Persia The Lost Crown é a possibilidade de tirar fotos a qualquer momento e tê-las salvas no mapa, ajudando a identificar áreas que estão inalcançáveis por falta de uma habilidade ou puzzles. Para fazer uso dessa opção será necessário ter polaroids. No começo temos poucos liberados, sendo possível comprá-los com um vendedor, mas em nenhum momento senti que havia necessidade de comprar tantas melhorias assim. Em contrapartida os upgrades para o mapa ajudam bastante, principalmente os que indicam se aquela área foi 100% explorada e os que mostram os pontos de milkshake – áreas que consistem em vencer um desafio de plataforma que exigirá domínio completo das habilidades de Constance.

Constance

Falando em habilidades, nossa heroína conta com Técnicas de Pintura que podem ser adquiridas enquanto exploramos ou ao derrotar chefes. Elas são habilidades permanentes e algumas, como o caso do Mergulho e da Investida, fazem uso do medidor de tinta exigindo, em certos momentos, um pouco de administração por parte do jogador. Também espere encontrar o clássico pogo que aqui é brilhantemente chamado de Repique. Além das técnicas, Constance também fará uso das Inspirações, algo semelhante aos amuletos de Hollow Knight, que permitem montar variadas builds.

Cada uma dessas Inspirações utiliza uma determinada quantidade de blocos, cabendo ao jogador determinar como irá organizar suas peças e quais pretende priorizar sendo uma espécie de Tetris. Elas são inicialmente representadas como rascunhos, mas também podem ser aprimoradas transformando-se em desenhos completos e melhorando seus benefícios. No entanto, conseguir todas essas habilidades provará ser o grande desafio do game. Isso porque Constance traz sequências de plataforma criativas e um tanto desafiadoras, porém algumas exigem um certo nível de precisão e habilidade que podem acabar tornando-se um tanto frustrantes. Ainda durante a exploração também é possível encontrar frascos que melhoram nossa vida e a quantidade de tinta. 

Constance

Se as sequências de plataforma são o grande desafio do game, o mesmo não pode ser dito dos chefes. De modo geral eles possuem uma dificuldade bem equilibrada e prestar atenção nos padrões de ataque será o suficiente para conseguir vencê-los sem grandes complicações. Um ponto que merece ser exaltado em Constance é quando sofremos um Game Over. Diferentemente de outros jogos do gênero em que voltamos para o último ponto de salvamento, aqui nos deparamos com uma tela que pergunta se queremos persistir – o que irá aumentar a dificuldade dos inimigos, mas que traz um contraste bem interessante com nossa persistência diante dos problemas – ou voltar para o último Santuário. Em diversos momentos optei por persistir e, apesar da dificuldade dos inimigos ficar um pouco mais elevada, não é nada impossível, demandando um pouco mais de atenção nos ataques – eles passam a ter uma proteção extra em que, ao usar o Mergulho de Tinta (habilidade de dash), Constance sofrerá dano. 

Apesar de ser um metroidvania, Constance é um tanto linear para o gênero. Em nenhum momento fiquei perdida e conseguia chegar rapidamente ao objetivo. Ele também não exige que você tenha todas as técnicas para conseguir finalizá-lo. Quando zerei percebi que ainda faltava uma habilidade que em outros jogos seria primordial para avançar e aqui não me impediu de chegar ao final. Como já mencionado, o grande desafio realmente está em certos trechos de plataforma que, no meu caso, exigiram um pouco de paciência para, no final, conseguir uma inspiração a mais para minha coleção, mas como já havia finalizado, isso não trazia um grande impacto na construção da minha build. 

Além da história principal, durante nossa jornada encontraremos diversos NPCs que precisam de ajuda e será nossa heroína a responsável por concluir suas sidequests. Algumas possuem condições que exigem muita atenção e outras vão obrigar o jogador a revirar todos os cantos possíveis. Claro que não poderia faltar a clássica missão de entregar um item extremamente sensível que a qualquer impacto pode quebrar. Qualquer semelhança com os dois títulos de Hollow Knight não é mera coincidência. 

Constance

No aspecto visual, Constance brilha majestosamente. A arte 2D feita a mão é cheia de detalhes que acertam em cheio ao refletir a personalidade da nossa protagonista ao mesmo tempo em que conseguem ilustrar o seu estado mental – trechos que perderam a cor, lugares com “montes de ideias” descartados, entre outros. A ideia dos chefes serem uma representação física de seus medos e ansiedades também trazem ainda mais peso para o mundo construído. Já com relação à trilha sonora, tenho algumas ressalvas. As composições são muito boas e buscam trazer a vibe ideal para aquele local e situação, porém algumas não ressoaram o suficiente comigo. Em contrapartida as músicas das lutas de chefes são incríveis e refletem bem o conflito e dor que Constance está enfrentando, sendo de longe o ponto alto da trilha sonora. 

Constance é um metroidvania que não reinventa o gênero, mas que, de uma maneira muito madura e metafórica, traz uma discussão de um dos temas mais importantes do momento: o cuidado com a saúde mental. Sua duração é ideal, não ficando cansativo em momento algum. Por outro lado, seu excesso de linearidade acaba prejudicando a exploração, um dos elementos que considero primordiais no gênero. Os momentos desafiadores de plataforma e os chefes com dificuldade balanceada equilibram a experiência, fazendo sentido para um game que trabalha um tema tão delicado. No fim, Constance é uma obra com uma narrativa pesada, que pode nos tocar de forma mais profunda do que imaginamos, mas que deixa uma linda mensagem de que nem tudo está perdido.

Constance está disponível para PS5, Xbox Series, Switch 2, Switch e PC com legendas em português do Brasil. Esta análise é da versão PS5 e foi realizada com um código fornecido pela ByteRockers’ Games e PARCO GAMES.

Veredito

Constance é uma grata surpresa para os fãs do gênero e para quem busca narrativas profundas. Ele não revoluciona a fórmula consagrada por gigantes como Hollow Knight: Silksong, mas brilha ao usar suas mecânicas como uma poderosa metáfora sobre o esgotamento mental e o processo de cura. Apesar do excesso de linearidade, o game compensa com bons desafios de plataforma e boss fights equilibradas. Uma jornada que pode ser incômoda e pesada para alguns, mas que entrega uma recompensa final necessária: a esperança.

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